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Irmã Miriam Joseph
Desde a mais tenra idade a Irmã Miriam Joseph, C.S.C.,1 parecia
destinada a se envolver com as artes do discurso. Agnes Lenore Rauh
nasceu em Glanford, Ohio, em 17 de dezembro de 1898. Seu pai,
Henry Francis Rauh, conhecido como o “Professor”, foi organista
de igreja, fundador de uma companhia de construção e empréstimos
imobiliários, inspetor de escolas, jornalista, editor e dono de
jornal. Talvez influenciada pela vocação do pai, mas definitivamente
influenciada por uma palestra proferida por A. P. Sandles, editor do
Putnam County Sentinel, durante o seu último ano de escola secundária,
Agnes decidiu estudar jornalismo no Saint Mary’s College.
Quando chegou ao Saint Mary’s no outono de 1916, Agnes
descobriu que não poderia cursar jornalismo naquele semestre; na
verdade, não havia qualquer curso de jornalismo programado para
aquele período letivo. Desapontada, mas não dissuadida, Agnes
continuou insistindo com a administração e, duas semanas depois
de já iniciado o semestre, sua determinação foi recompensada. Ela
alegremente transferiu-se de um curso de astronomia para um recém-criado curso de jornalismo. Agnes acreditava apaixonadamente
que o jornalismo e a sociedade americana beneficiar-se-iam de uma
maior presença feminina nessa atividade. Em seu ensaio “Women
and Journalism” (1919), ela escreveu, “[A categoria dos jornalistas]
há muito reconheceu que as mulheres têm intelecto, talvez de um
tipo que, em vários aspectos, seja mesmo diferente daquele dos homens,
mas de mérito igual, cujas idéias e obras não podem ser desprezadas.
Ademais, as mulheres têm aptidões especiais, peculiares
somente a elas e por meio das quais preenchem uma necessidade
definida em determinadas esferas do pensamento e empenho humanos”.
Soando o alarme para que as mulheres se envolvessem no
jornalismo, ela alertava “[N]ão se pode aquilatar o perigo, o dano
que vem da propaganda insidiosa, a qual, oculta sob o manto de novos
e altissonantes movimentos, ameaça solapar os princípios mais
fundamentais da vida social e familiar”. As mulheres devem empunhar
a caneta, pois “[S]e essa propaganda tiver êxito em ganhar o
apoio das mulheres de nosso país, terá assegurado uma fortaleza,
1 Congregatio Sanctae Crucis. (N. T.)
pois um povo inteiro deriva seus ideais a partir das mães”. A batalha
precisa ser travada e “o meio mais eficiente para combater esse
perigo é virar contra os inimigos as suas próprias armas: encher as
revistas com artigos baseados em princípios retos”. Ela concluía o
ensaio com um apelo às “escritoras católicas, especialmente aquelas
com treinamento técnico eficiente em cursos superiores de jornalismo,
economia, política, ética e sociologia a partir de um ponto de
vista católico e cristão”, argumentando que tais escritoras eram as
mais aptas a conter a maré de enfermidades sociais.
O entusiasmo pelo jornalismo de opinião não era a única paixão
que ardia na alma de Agnes. Sentindo o chamado de Deus, em setembro
de 1919 ingressou no noviciado das Irmãs da Santa Cruz,
no Saint Mary’s College. Em agosto do ano seguinte, foi recebida
como noviça, e depois de um ano lecionava numa escola secundária.
A irmã Miriam Joseph estava dando os passos para atender ao
chamado que ela mesma havia emitido em 1919. Ela se veria envolvida
diretamente no processo de treinamento de escritoras capazes
de articular “os princípios retos”. Lecionando durante o ano letivo
(St. Joseph’s School, Pocatello, Idaho, 1921-1923; St. Joseph’s
Academy, South Bend, 1923-1927) e estudando no verão, a irmã
completou seu curso no Saint Mary’s, recebendo o bacharelado em
Jornalismo em 1923; em 1927, obteve o mestrado em Inglês pela
Universidade de Notre Dame. Miriam Joseph solidificou seu compromisso
com as Irmãs da Santa Cruz e com seu ministério ao fazer
a sua primeira profissão de votos em 1922 e a final em 1925.
Prosseguindo num padrão agora já conhecido, a Irmã passou os
cinco anos seguintes lecionando durante o período letivo (Saint-
Mary-of-the-Wasatch Academy and College, Salt Lake City, Utah,
1927-1930; Saint Angela’s Academy, Morris, Illinois, 1930-1931)
e estudando nos verões em Notre Dame. A irmã Miriam Joseph
retornou a sua alma mater em 1931, onde assumiu o cargo de professora
assistente no Departamento de Inglês. Ela havia completado o
ciclo: a convocação que ela havia emitido em 1919, conclamando a
formação de escritoras bem treinadas, seria agora a sua tarefa. Em
1931, Miriam Joseph foi designada para lecionar “College Rhetoric”
a cinco turmas de calouros. Durante os quatro anos seguintes,
ela continuou lecionando Retórica e também cursos de “Literatura
Geral”, “Gramática e Composição” e “Composição e Retórica”.
Na primavera de 1935, a vida e a carreira da irmã Miriam Joseph
deram uma virada significativa. Numa sexta-feira, 8 de março, o
dr. Mortimer J. Adler, da Universidade de Chicago, proferiu uma
palestra no Saint Mary, intitulada “O Fundamento Metafísico das
Artes Liberais”. De acordo com o jornal do campus, The Static,
Adler afirmou que os estudantes de cursos superiores “pouco ou
nada sabem acerca das artes liberais”. Adler “concentrou sua argumentação
nas três artes da linguagem, destacando que, enquanto
entre gregos e medievais sua harmonia e unidade integral sempre
foi reconhecida e preservada, a partir do século XV, a especialização
tratou de separá-las até a conseqüente deterioração, ou até mesmo
a destruição de sua função educativa – desenvolver as capacidades
de leitura, escrita e fala do indivíduo. Em outras palavras, a função
educativa das três artes da linguagem é a aquisição do perfeito
domínio das ferramentas de aprendizagem”. Logo após a palestra
o padre William Cunningham, C.S.C., professor de Educação em
Notre Dame, perguntou a Adler se seria factível restaurar o Trivium
unificado no curso de Inglês para calouros. Anos mais tarde, a irmã
Miriam Joseph escreveu que, quando a pergunta foi feita “[m]uitos
na platéia viraram-se e olharam para mim”. Se a irmã Madeleva,
diretora do Saint Mary’s, virou-se para ver a reação da irmã Miriam
Joseph à pergunta, não sabemos. O que sabemos é que as irmãs
Madeleva, Miriam Joseph e Maria Theresa (então lecionando na
Bishop Noll High School, Hammond, Indiana) passaram os sábados
de abril e maio daquele ano estudando com Adler em Chicago.
Viajando para a Columbia University em Nova York, Miriam
Joseph e Maria Theresa continuaram seus estudos com Adler
durante todo o verão.
No outono de 1935, a irmã Miriam Joseph retornou ao Saint
Mary’s para lecionar, pela primeira vez, um curso que se tornaria
uma das instituições daquela escola superior, “O Trivium”. Exigido
de todos os calouros, o curso era ministrado cinco dias por semana,
durante dois semestres. Do modo como era entendido pela irmã
Miriam Joseph, o curso tinha o intento de treinar os estudantes a
pensar corretamente, ler inteligentemente, e falar e escrever de maneira
clara e eficaz. Uma vez que não havia um livro-texto adequado
para o curso, a irmã escreveu o dela. The Trivium in College Composition
and Reading foi publicado pela primeira vez em 1937.
Pelos vinte e cinco anos seguintes, todos os calouros do Saint
Mary’s eram ensinados no trivium, com a irmã Miriam Joseph suportando,
ela mesma, muito da carga de aulas. Ela se ausentou do
campus de 1941 a 1945, buscando o seu doutorado em Inglês e
Literatura Comparada pela Columbia University. Recebeu seu título
de doutorado (Ph.D.) em 1945. Sua dissertação, “Shakespeare’s
Use of the Arts of Language”, foi publicada em 1947 pela Columbia
University Press. O magistério e a pesquisa da irmã apontavam
para a mesma direção. No primeiro capítulo de sua dissertação ela
escreveu: “A força extraordinária, a vitalidade e a riqueza da linguagem
de Shakespeare são devidas em parte ao seu gênio, em parte
ao fato de que as ainda não bem estabelecidas formas lingüísticas
de seu tempo elevaram a um grau inédito o espírito de liberdade
criativa, e em parte à teoria de composição então prevalecente”.
Continuando, dizia: “É esta última que é responsável por aquelas
características da linguagem de Shakespeare que mais a diferenciam
da linguagem de hoje (...) A diferença nos hábitos de pensamento
e nos métodos de desenvolvimento de uma idéia resulta na correspondente
diferença na expressão, especialmente porque a teoria de
composição renascentista inglesa, derivada da tradição antiga, era
permeada de lógica formal e retórica, enquanto a nossa não o é”.
Shakespeare teve o benefício de ter sido educado nas artes do trivium
– os estudantes modernos não. A irmã Miriam Joseph estava
tentando corrigir esse erro.
Permanecendo ativa em todas as frentes da vida acadêmica, a
irmã Miriam Joseph tornou-se chefe do Departamento de Inglês no
Saint Mary’s em 1947, posição que manteve até 1960. Participou
regularmente de convenções regionais e nacionais de sociedades
eruditas, publicando um bom número de artigos, dentre os quais se
destacam: “The Trivium in Freshman English”, The Catholic Educational
Review (35, 1937); “Why Study Old English?”, College English (3,
1942); “The Trivium in College”, The CEA Critic (10, 1949); “Orthodoxy
in Paradise Lost”, Laval Théologique et Philosophique (8, 1952); “Discerning
the Ghost in Hamlet”, PMLA (76, 1961); “A ‘Trivial’ Reading
of Hamlet”, Laval Théologique et Philosophique (15, 1962); e “Hamlet,
a Christian Tragedy”, I (54, 2, Pt. 1, 1962). Durante o mesmo período
em que publicou quase trinta resenhas críticas de livros e deu
palestras em outras instituições de ensino superior, ela continuou a
lecionar, apaixonadamente. A irmã Miriam Joseph aposentou-se do
magistério no Saint Mary’s em 1965, tendo recebido o grau de Professora
Emérita em 1968, além de um grau de doutorado honorário
da mesma instituição em 1969, quando o Saint Mary’s celebrou
seus cento e vinte e cinco anos de fundação.
A irmã Miriam Joseph faleceu em 11 de novembro de 1982.
Numa carta ao corpo docente do Saint Mary’s, William Hickey,
vice-presidente e reitor, escreveu: “A irmã Miriam Joseph foi talvez
a mais eminente estudiosa que já se associou a esta instituição
neste século”. Todavia, talvez o maior tributo tenha vindo de Mary
Frances Schaff Meekison (turma de 1940), que numa carta ao
Courier, jornal do Saint Mary’s, escreveu: “Em classe, seu brilhantismo
e zelo no lecionar eram notáveis”. A irmã “Mickey Jo” era
“mestre e perfeccionista”, capaz de inspirar “até mesmo a estudante
mais relutante a estender seu intelecto e perseverar no caminho do
aperfeiçoamento”. Meekison concluiu sua carta ao Courier dizendo:
“Ainda que eu mesma fosse uma estudante apenas mediana, a irmã
acreditava que eu poderia estender não apenas o meu intelecto,
mas também minha habilidade de escrita. Em razão da fé que ela
tinha em mim, eu fui afortunada o bastante para encontrar o meu
nome impresso logo abaixo dos títulos, em muitos e muitos artigos
publicados. Estou certa de que há centenas de ex-alunas que poderiam
dar testemunhos de peso muito maior do que o meu”. Assim,
Agnes Lenore Rauh, irmã Miriam Joseph, C.S.C., aspirante a
jornalista transformada em professora e erudita em Shakespeare,
atingiu a sua meta. Ela influenciou uma geração de mulheres a
pensar cuidadosamente, a ler atentamente, e a escrever e dizer “os
princípios retos” de forma eloqüente.
John Pauley |