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Filosofia e Cultura

A coerência das incertezas
Símbolos e mitos na fenomenologia histórica luso-brasileira

 


Apresentação
por Pinharanda Gomes

A Coerência das Incertezas constitui um ensaio de filosofia da história universal, aplicada ao caso lusíada, nas vertentes portuguesa e brasileira. Passado cada dia que passa, o dia seguinte nunca é objecto de certeza matemática. Vais ser história na incerteza, pois a história acontece no mar da instabilidade, da conjuntura e dos acidentes, como se não houvesse categorias fixas, mas somente areias movediças.

O que suporta a incerteza é o símbolo. Ele organiza os acontecimentos e faz prova de fé na acção. O símbolo organiza e estrutura, a realidade é sempre a mesma, o que muda, pelo menos na aparência, é o símbolo, o sistema de símbolos. Este revela, mas oculta, como tapete que vemos do lado direito, mas que tem avesso, o qual não vemos. Eis o poder: dete sabemos o que vemos, mas é-nos impossível vislumbrar o que está por detrá dele, como se algo nos fosse ocultado as trevas que sustentam o poder, o exercício do poder. Governamo-nos com símbolos, mas ignoramos quem governa os símbolos.

Eis um livro em que o autor reflecte, a um nível nunca visto antes, na fonomenologia simbólica da história de Portugal e Brasil, em leitura entrosada, de modo que parece não haver duas histórias, mas apenas uma, atinente a uma só nação, ainda que organizada em dois estados. Jamais nos fora dado ler um acto especulativo, como este. É seu autor Paulo Mercadante, de Minas Gerais, onde nasceu em 1923, para se afirmar como principal filósofo da história, ou historiólogo, de língua portuguesa contemporâneo. Deu provas desde esse notável estudo intitulado a A Consciência conservadora no Brasil (1965). A Coerência das Incertezas abrange uma visão da Humanidade segundo o ritmo das incertezas da vida portuguesa e brasileira, onde tudo tem a ver com tudo. Economia e Filosofia, Religião e Política, Artes e Sociedade. Um grande poder nos contempla, e dirige, através do movediço.

É uma grande honra para a Fundação Lusíada apresentar este livro ao público português, na sua originalidade, com poucas mudanças: aportuguesamos a ortografia e a colocação dos pronomes reflexos; mantivemos as notas que o ilustre escritor Olavo de Carvalho escreveu para a edição brasileira (São Paulo, 2001); aditámos algum esclarecimento para serviço do leitor português, e ampliámos a bibliografia com títulos que, portugueses, são convergentes do tema e do problema o mito e o símbolo na fenomenologia da história luso-brasileira. O leitor vai gostar, porque o texto lê-se como quem, tendo sede, bebe água.

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