A coerência das incertezas
Símbolos e mitos na fenomenologia histórica luso-brasileira
Um livro contra a mesmice
por Antonio Olinto
Era de se esperar que, no século XXI, com a proximidade (vinte anos) do bicentenário de nossa independência, chegássemos a uma avaliação abrangente do que somos, do que representamos, do que poderemos ser. Estava o século XX na sua idade adulta quando um escritor, Gilberto Freyre, nos despertou, em "Casa grande e senzala", com sua análise de uma nacionalidade que poderia parecer amorfa.
Não o era, e Gilberto Freyre no-lo provou. Foi-nos necessário um avanço de oito décadas para que, repito, "uma avaliação abrangente" nos surgisse agora em livro. Falo do extraordinário tratado geral do Brasil de Paulo Mercadante que aparece neste 2002 com o título de "A coerência das incertezas: símbolos e mitos na fenomenologia histórica luso-brasileira".
Filósofo e sociólogo, entregou-se Paulo Mercadante a uma análise em profundidade, com a história do Brasil começando há quase mil anos pois, como explica o autor: "não tomamos o século do descobrimento como ponto de partida". Estamos no segundo milênio de um desenvolvimento, com atlantes, lusitanos, celtas, romanos, visigodos e árabes elaborando um conjunto de símbolos que está conosco nesta aparente babel de raças e símbolos que somos.
A palavra "coerência" usada no título do livro registra a posição de Paulo Mercadante, fiel a uma continuidade que vem de longe e tem até uma data, a de 25 de julho de 1139, quando se travou a Batalha de Ourique, como conseqüência da qual D. Afonso Henriques passou, no ano seguinte, a usar o título de rei.
Aí começa a história do Brasil, com seus mitos e símbolos. A cruz, a lança, o báculo, a espada, o castelo, o palácio, o templo (os templários), mais tarde a nau, e pássaros, flores, árvores, figuras, e o brasão, a bandeira, o estandarte, os símbolos mantinham uma unidade de propósitos que, num determinado momento, explodiu no espírito de "navegar é preciso", que veio colher o Brasil no seu nascimento. Aqui chegando, aqui se plantou uma língua, um idioma, que para sempre vinculou o futuro país ao espírito que ajudou a criar uma civilização no extremo Oeste da Europa.
Sob esse aspecto, isolou-se a Península Ibérica numa reação ao desenvolvimento capitalista do resto do Continente. O "Pecunia pecuniam non parit" de São Tomás opôs-se à ética protestante do lucro, principalmente a do juro, portanto à idéia de que o dinheiro pode parir dinheiro. Era o espírito não-mercantilista que o catolicismo sempre defendeu e que Portugal e Espanha mantiveram.
Foram estes, porém, os descobridores, os navegadores, com Portugal à frente, no seu lema de "Navegar é preciso", mas logo os países mercantilistas se aproveitaram do esforço ibérico e acabaram por dominar uma parte das terras descobertas nelas instalando suas ideologias e seu "way of life". Houve um momento em que os dois mundos se chocaram, numa estranha luta pela conquista do futuro.
Foi por ocasião da presença holandesa no Brasil, quando um povo adepto da nova ética protestante foi derrotado por um grupo cheio de símbolos e representantes de um novo modo de vida nos trópicos, já que as forças bátavas que se encontravam no Nordeste brasileiro foram expulsas por combatentes portugueses, espanhóis, índios, negros, mamelucos, mulatos, além de judeus e árabes que já se haviam instalado na região.
O que Paulo Mercadante faz em "A coerência das incertezas" é uma história do Brasil - uma história econômica do Brasil, uma história política do Brasil, uma história do pensamento do Brasil e até uma história histórica do Brasil. Num mural de traços fortes e novos, recolhe informações de setores múltiplos do conhecimento das gentes, mostra-lhes a coerência no meio de tantas incertezas e apresenta-nos um Brasil que é este mesmo que está aí, que todos conhecemos, de que participamos, de que nos lembramos desde a infância, é o Brasil cujos símbolos entendemos, diversificados nas muitas influências que pousaram sobre o movimento iniciado na Batalha de Ourique.
Temos também a tradição de uma rainha santa, a Santa Isabel, mulher de D. Diniz, em cujo reinado (séculos XIII e XIV) os símbolos portugueses se acomodaram e permitiram que Portugal se firmasse. Outras realidades e outros símbolos - Inês de Castro, Enrique o Navegante, Dom Sebastião - fortaleceriam o instinto de nacionalidade de um povo que, através de outro símbolo, a pedra, construía templos e fortalezas no Recife, no Rio de Janeiro, em Luanda, Malaca, Nagasaki e Macau. É neste contexto que nos encontramos, hoje misturados a muitas e diferentes origens, mas ligados a uma corrente civilizatória que nos marca indelevelmente.
Este, o trabalho que dá um salto de "Casa grande e senzala" e, abarcando um território em que a filosofia, a sociologia, a física, a economia, a política, têm lugar no levantamento de uma verdadeira mundologia brasileira, chega à "Coerência" de vários tipos de opostos que fazem de nós um povo e uma nação.
Livro que recomendo à reflexão e ponderação de todos os que estudam a nossa terra, dos que desejam compreender os caminhos que temos seguido e os que talvez tenhamos de seguir em breve. "A coerência das incertezas: símbolos e mitos na Fenomenologia histórica luso-brasileira" vem destoar - e nada é mais necessário do que isto numa cultura como a nossa - da mesmice da maioria de estudos que entre nós se fazem mais com vistas à mídia do que à história. Lançamento da editora "É Realizações Ltda.". Introdução (ótima), edição de texto e notas de Olavo de Carvalho.
Antonio Olinto
é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras |
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