A Dialética Simbólica
Estudos Reunidos
Nota prévia
A Dialética Simbólica
Estudos Reunidos
Um homem culto não é aquele que volta de um dia desorganizado e febril para uma orgia noturna com Hegel ou Bergson. É antes aquele para quem o espelho mágico diurno, quer suas imagens flutuantes recebam a luz do sol ou naufraguem em sombras, oferecem uma visão do mundo que constantemente vai se tornando mais e mais a sua própria. Filosofar não é ler filosofia; é sentir filosofia.
(John Cowper Powys)
Começo, com o presente volume, a recolher em livros de grossa lombada os escritos menores que ao longo de duas décadas fui deixando, dispersos por este mundo, na forma de apostilas, transcrições de cursos, rascunhos inéditos, livretos de circulação discreta ou nula.
De valor desigual, tamanhos variados e assuntos diversos, não têm outra unidade senão a do olhar que, conservando como pode sua identidade no curso dos tempos, se lança interrogativamente sobre quantas coisas, em torno, lhe vão causando espanto e dando, segundo a máxima de Aristóteles, a ocasião por excelência da busca de conhecimento.
Devo explicar que esse olhar é essencialmente um olhar filosófico? Não crendo no vozerio pedante que faz da sua própria impotência de definir a filosofia um motivo de ostentação vaidosa, mas julgando, ao contrário, ter motivos válidos para ver na filosofia, essencialmente, a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa,1 tenho nisto um critério suficiente para distinguir o que é filosófico do que não é, e um belo jumento eu seria se não soubesse aplicá-lo a meus próprios escritos.
Pois não é filosófico, mesmo quando genial e excelso, o ensaísmo que se compraz na variedade como tal, em que a consciência se dissolve no fluxo das impressões, “ondulante e diverso”, e não faz questão sequer de perceber quando se desdiz. Nem o é aquele que, dando por pressuposto o consenso vigente numa dada área do saber humano, argumenta com base nele, subentendendo que suas razões serão aceitas por quem dele comungue. Nem muito menos aquele que, fundado na opinião pública, usa a linguagem como instrumento de mera persuasão, por inteligente e sutil que seja. Mas é filosófico e não pode ser nenhuma outra coisa o ensaísmo que, na variedade dos temas e problemas, busque ocasião para sondar os princípios fundantes de toda certeza, como quem retorna sistematicamente ao centro desde mil e um pontos de uma circunferência, mesmo escolhidos ao sabor do acaso. É filosófico não por mérito ou falta dele, mas pela natureza das coisas, com a fatalidade inexorável de uma evidência primária ou de uma tautologia.
Se querem saber, foi justamente minha repulsa ao arbitrário, ao modismo avulso e desarraigado, que me fez ir buscar ensinamento bem longe da universidade brasileira. E quando hoje alguém, tendo lido vários escritos meus ou acompanhado meus cursos, desperta de repente para a unidade de intenções que dá forma e sentido a tudo quanto faço e escrevo – e no mesmo ato apreende a unidade e sentido de sua própria busca de conhecimento –, nesse instante agradeço à Providência por me ter preservado da dispersão e do mundanismo universitários, para que eu viesse a ter a suprema alegria de um professor, que é a de poder abrir a seus alunos um horizonte bem maior que a circunferência de um prato de lentilhas.
A busca da coerência é, porém, só um lado da filosofia. O outro é a abertura ao horizonte ilimitado da experiência, com toda a sua variedade e confusão freqüentemente irredutíveis. É bem exato caracterizar a filosofia – complementando a definição acima – como a tensão permanente entre experiência e razão. Mas essa tensão é ela própria uma experiência, e há mais gente disposta a fugir dela do que a aceitar de coração aberto as responsabilidades que ela implica. A modernidade inteira, de certo modo, é uma fuga, na medida em que começa por desativar a tensão cristalizando seus dois pólos em “estilos de pensamento” separados e estanques – racionalismo e empirismo – e termina, inevitavelmente, por sacrificar a inteligência humana no altar de uma concepção diminutiva tanto da razão quanto da experiência, reduzida a primeira à operação mecânica da técnica silogística e a segunda, a um recorte convencional ditado pelo “método científico”.
A tensão é permanente, mas seus pólos mudam de lugar.
De início, a unidade é puramente interna, é a unidade potencial de um eu nascente que se defende como pode da confusão exterior. Aos poucos, ele vai notando que não pode perseverar sem crescer, isto é, sem absorver, digerir e transfigurar em expressão racional aquilo mesmo que o ameaça. Chega um ponto em que o próprio eu se torna o foco da confusão, enquanto o mundo exterior, com suas exigências e disciplinas, o ajuda a rearticular-se. Depois o quadro se inverte de novo, e de novo, até que as inversões periódicas sejam aceitas como a própria dialética da vida. Esse processo é, no fundo, idêntico em todos os seres humanos: a diferença específica do filósofo é que ele anseia por vivenciar conscientemente todos os passos, não como memorialista (se bem que não deixe de sê-lo ao seu modo), mas como testemunha da universalidade dessa experiência.
Trata-se, pois, de ensaios de filosofia. Peço apenas que, nesta expressão, o termo ensaio não seja entendido apenas como vaga designação de um gênero literário, mas no sentido estrito de esboço e tentativa. Cada um dos trabalhos aqui reunidos aponta e caminha, de fato, na direção de certas evidências de princípio, que, organizadas e hierarquizadas, compõem uma filosofia, mas cuja expressão plena não se encontrará neste volume, pela simples razão de que se trata de filosofia in fieri e de que não poderia ser de outro modo, sendo seu autor um homem de sessenta anos – precisamente a idade em que, após décadas de ensaios e tentativas, um filósofo começa a penetrar no território que será definitivamente o seu, se viver para ocupá-lo, com a graça de Deus.
Não existe, de fato, precocidade em filosofia, como existe em poesia, em música, em física, em religião. Todo suposto jovem gênio filosófico acaba por desmentir suas idéias de juventude, isto se, antevendo-se incapaz de dominá-las, não estoura logo os miolos aos vinte e um anos, como Otto Weininger. E, da República de Platão até a Krisis de Husserl, todas as obras-primas da filosofia são feitos de maturidade e velhice.
Filosofia é reflexão, e não há reflexão que valha sem a experiência que a antecede. Como bem disse Hegel, a ave da filosofia só levanta vôo ao entardecer – um princípio que vale tanto para os indivíduos quanto para as civilizações.
Por isso mesmo, a descida para a velhice, que para a maioria dos mortais nada mais é que a sombria antevisão da decadência após uma escalada triunfante, para o filósofo se anuncia como a jornada final em direção à terra prometida após uma vida de trabalhos e padecimentos; como o ingresso numa redoma de luz ao fim de décadas de luta contra as trevas.
Daqui de onde estou, do alto deste mais de meio século de existência, posso enxergar, num só relance intuitivo, todo o horizonte de evidências que busquei desde a primeira juventude. Mas enxergá-las não é possuí-las ainda, de vez que, por uma curiosa fatalidade inerente à constituição da mente humana, quanto mais intuitivo e evidente é o conteúdo de um conhecimento, tanto mais ele requer, para expressar-se, as minuciosas distinções da dialética e da lógica. Fatalidade que, por ser desconhecida daqueles que ainda padecem do dualismo do pensar e do perceber, lhes torna impossível compreender a filosofia como forma simbólica e como arte magistral arquitetônica que, tendo por matéria bruta e quase sensível não palavras ou sons e cores, mas sim aquilo que para o vulgo é o que há de mais abstrato, isto é, o puro esquema eidético do discurso, tem como forma interior e meta derradeira aquilo que, por supremamente evidente e luminoso, está para além de todo discurso.
É pois natural que o filósofo, antes de se aventurar a dar às suas idéias a expressão formal e sistêmica em que adquirirão sua identidade definitiva, acerte as contas com as primeiras etapas de sua vida e de sua obra, como o pintor que revê e ordena seus esboços antes de iniciar o quadro.
Não é outro o sentido da coletânea de Estudos reunidos que este volume inaugura. Para o escritor, para o crítico, para o ensaísta, um volume deste gênero é coroamento de uma vida. Publicá-lo aos sessenta anos seria prematura aposentadoria. Para o filósofo, é apenas a hora de fazer a avaliação final dos ensaios para poder iniciar o espetáculo.
Toda a minha obra publicada até o momento, que esta coletânea conclui, deve portanto ser vista como um longo prefácio à História essencial da filosofia, ao Breve tratado de metafísica dogmática, à Filosofia política e a outras exposições que se seguirão, algumas das quais se encontram a meio caminho de sua forma final, outras dispersas e informes em notas de aulas, outras apenas in nuce.
Pedindo a Deus que me dê forças para concluir a tarefa empreendida, apresento nesta coletânea a prestação de contas das primeiras etapas, não como quem contempla vitorioso a casa construída, mas como quem, vendo os materiais reunidos e organizados, a pilha de tijolos, o monte de areia, os renques de tábuas, arregaça as mangas para dar início à construção. Reunidos e organizados, entenda-se, só no que concerne à validade das idéias, pois não houve a menor preocupação de cronologia ou ordenação de temas no arranjo destes escritos. Preferi mesmo selecionar para este primeiro volume alguns dos mais recentes, por mera comodidade, porque me pareciam menos necessitados de revisões e acréscimos, e não me inibi de colocá-los ao lado de um trabalho como “A dialética simbólica”, de 1983, porque neste julgo ter alcançado prematuramente uma expressão que me parece adequada às minhas exigências atuais; e, se é dele o nome que vai na capa, isto sinaliza a especial alegria que senti ao escrevê-lo, e mais ainda ao subscrevê-lo agora.2
Ao apresentar este volume ao público, agradeço de coração a todos os que me ajudaram na conservação destes textos, especialmente a Meri Angélica Harakava, Stella Caymmi, Ana Maria Santos Peixoto, Maria Elisa Ortenblad, Fernando Carneiro, Henriete Fonseca, Marcelo Albuquerque, Denny Marchesani, Eduy César Ferro, Luciane Amato, Guilherme Almeida, Roseli Podbevsek e minha esposa e cúmplice, Roxane. Se esqueci alguém, foi sem querer.
Richmond, VA, 25 de março de 2007.
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