Aristóteles em nova perspectiva
Introdução a teoria dos quatro discursos
Prólogo
ARISTÓTELES
em nova perspectiva
Este livro é velho e é novo: reproduz o texto de Uma filosofia aristotélica da cultura (Rio de Janeiro, IAL/Stella Caymmi, 1994), mas acrescido de quatro capítulos (IV, “A tipologia universal dos discursos”1, V, “Os motivos de credibilidade”, VI, “Marcos na história dos estudos aristotélicos”, e VII, “Notas para uma possível conclusão”), e de um suplemento, Aristóteles no dentista: polêmica entre o autor e a SBPC. Os capítulos acrescentados não são novos, mas inéditos: circularam, até agora, apenas como apostilas de meus cursos. Quanto ao suplemento, que circulou por um tempo num folheto que anexei a alguns exemplares de Uma filosofia aristotélica da cultura, mas não a todos, reúne: (a) o texto com que respondi à inacreditável “Avaliação crítica” que o Comitê Editorial da revista Ciência Hoje2 fez de Uma filosofia aristotélica da cultura; (b) o artigo que publiquei em O Globo em resposta a dois bocós de mola (ou, antes, de borla e capelo), que saíam em defesa do indefensável e aproveitavam para opinar contra uma tese que admitiam não ter lido (tratando-se portanto de um caso de telepatia crítica); (c) algumas das cartas que remeti ao diretor da publicação, Ênio Candotti, tentando conscientizá-lo de suas obrigações, esforço a que ele resistiu com a bravura necessária a me fazer compreender finalmente o que a velha teologia queria dizer com a expressão ignorantia invincibilis.
Na polêmica eclodida em torno de Uma filosofia aristotélica da cultura entre dezembro de 1994 e fevereiro de 1995 na imprensa carioca, o mais curioso foi que meus oponentes, pródigos em opiniões sobre a pessoa de um autor que nunca tinham visto mais gordo nem viram depois da dieta, não fossem capazes de dizer uma só palavra sobre o conteúdo da tese aqui defendida, a qual certamente escapava não somente à sua compreensão como também ao seu círculo de interesses, sendo, como é, inteiramente alheia a conversas fúteis de velhas corocas. Desafiados publicamente a discuti-la, preferiram refugiar-se no terreno dos insultos pessoais, em que suas alminhas trêmulas e rancorosas se sentiam mais protegidas por ser talvez seu habitat natural. Mas, pela coincidência infausta ou fausta de que a essa polêmica em O Globo corresse parelha uma outra, sobre diverso assunto, pelas páginas do Jornal do Brasil, aconteceu que as duas disputas acabaram se confundindo. Não se confundiriam, é certo, se muitas cabeças supostamente intelectualizadas, neste país, não percebessem as coisas menos segundo as distinções categoriais de Aristóteles do que segundo uma pueril superposição eisensteiniana de imagens ou uma “lógica das aparências” de molde epicúrio, método em que um suíno ou galináceo pode revelar certa perícia antes mesmo de atingir a idade madura. E como o assunto da segunda polêmica fosse nada menos explosivo que o julgamento moral da intelligentzia, que, certo ou não, eu acusava de cumplicidade inconsciente com o banditismo carioca,3 aconteceu que muitos membros da classe, sentindo-se atingidos num ponto qualquer vulnerável da sua epiderme corporativa e não sabendo ao certo de onde vinha a pancada, acharam que, por via das dúvidas, era melhor se precaverem também contra o meu inocentíssimo Aristóteles. Para o que, naturalmente, era melhor mesmo não tê-lo lido. O resultado foi efetivamente um imbróglio, no melhor estilo crioulo doido, em que se aliaram má consciência, vaidades classistas, picuinhas ideológicas, uma prodigiosa incultura filosófica e uma firme decisão de não entender nada, para dar combate em cerrada frente única a algo que não tinham a menor idéia do que fosse, mas no qual suas células olfativas, desconfiadíssimas como as de um capiau em Nova York, acreditavam reconhecer o vago odor de uma ameaça temível. Ao ver todos aqueles pintainhos correndo esbaforidos para baixo das asas protetoras da solidariedade corporativa, não pude deixar de conjeturar que, na peça que se encenava em seu cirquinho mental, me haviam atribuído o papel de raposa no galinheiro. Atribuição muito lisonjeira para a minha diminuta pessoa, mas, positivamente, maluquice. Ou talvez não: talvez pressentimento certeiro de que uma voz que fale perfeitamente a sério, com aquela sinceridade que une coração e cérebro, ethos e logos, pode estragar todo o efeito da comédia tão meticulosamente montada em que se transformou a vida intelectual brasileira, pode espantar o público e forçar a troupe de surrados palhaços a buscar outro emprego. Não sei, na verdade nem me interessa: o problema é deles.
Meu problema, o único que no caso vinha ao caso, era saber se existe ou não uma unidade dos quatro discursos na lógica de Aristóteles e se dela podemos aproveitar alguma coisa para a nossa busca atual de um saber interdisciplinar. Não entendo como aqueles fulanos chegaram a imaginar que um sujeito metido até a goela numa questão encrencada como esta pudesse ter tempo ou curiosidade de saber a opinião deles sobre a sua pessoa, da qual ele mesmo não se dá o trabalho de pensar coisa alguma desde que, liberto dos conflitos egocêntricos da adolescência, descobriu existir um vasto mundo para lá do seu umbigo. Muito menos penso o que quer que seja a respeito dessas criaturas, cuja conduta no caso, por mais evidentemente estúpida que seja, não me dá elementos para julgar no todo suas respectivas personalidades, que não conheço e que, no sentido mais rigoroso da palavra, não são assunto. Criar opiniões sobre seus semelhantes é uma das ocupações mais ociosas a que um homem pode dedicar sua porca vida. Como dizia Henry James, masters talk about things; servants, about people.
O Capítulo V, reprodução de uma aula do Seminário de Filosofia, ajudará o leitor a apreender a perspectiva histórica em que, na evolução dos estudos aristotélicos no mundo, se insere deliberadamente a minha investigação sobre os quatro discursos; e esta perspectiva, uma vez que o olhar a tenha abrangido ao menos num relance, permitirá enxergar a importância vital que o tema deste livro tem não somente para a História da Filosofia, mas para a concepção de uma cultura global e integrada, de uma educação global e integrada, nas quais se depositam hoje as melhores esperanças da humanidade. O contraste entre a altitude destas cogitações e a mesquinhez das reações que o livro suscitou nesta parte do mundo não me infunde nenhuma revolta, já que minha alma pecaminosa é antes inclinada à gula, à preguiça e à luxúria do que a espumar de cólera, mas sim uma tristeza sem remédio, cheia de presságios sombrios sobre o papel que este país pretende representar na História espiritual do mundo.
Tristeza que disfarço rindo – rindo o riso melancólico do espectador inerme ante uma tragicomédia histórica.
De qualquer maneira, a reprodução desses documentos no presente volume não tem só a finalidade de registrar para os pósteros uma lamentável realidade do presente.
Minha resposta ao “consultor” da SBPC contém alguns desenvolvimentos importantes do argumento central, até mesmo desde o ponto de vista metafísico, que propositadamente se omitira no corpo do trabalho. Se outros méritos não tem o incógnito personagem, não se lhe pode negar este, o de me haver dado a ocasião de explicações que, esperando a oportunidade de receber desenvolvimentos mais minuciosos, talvez não chegassem a dar-se nunca.4
É preciso acrescentar ainda que nem todo mundo, no meio universitário, imita em seu modo de pensar aqueles três neurônios que, segundo as últimas contagens, existem na cabeça do diretor de Ciência Hoje, e dos quais, por medida de economia, ele desfruta em condomínio com os profs.
Gilberto Velho e Carlos Henrique Escobar, não deixando nenhum para o sr. Antonio Callado (o qual os tinha em profusão, mas gastou tudo para escrever o Quarup). O sr. Fernando de Mello Gomide, em carta a O Globo a respeito do episódio, fez observações pertinentes sobre a incultura filosófica das nossas elites científicas. Logo depois a Universidade Católica de Salvador, BA, na pessoa do coordenador acadêmico do seu Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Prof. Dante Augusto Galeffi, tomou a iniciativa de lavar a honra da comunidade universitária brasileira, convidando-me a dar uma série de conferências sobre o tema deste livro, o que fiz em maio de 1995 (sob o título que depois adotei para o presente volume) para uma platéia das mais inteligentes e aplicadas que já vi entre estudantes brasileiros. Quem terminou de retirar a nódoa com que este episódio manchara a reputação do nosso establishment acadêmico foi o prof. Miguel Reale, ao aceitar uma versão abreviada deste trabalho para apresentação no V Congresso Brasileiro de Filosofia (São Paulo, setembro de 1995), no qual finalmente tive a oportunidade de ouvir e responder a objeções dignas e inteligentes, apresentadas por três autênticos homens de saber: Milton Vargas, Romano Galeffi e Gaston Duval.
Não posso aqui deixar de agradecer a todos os que me apoiaram nessa batalha, que não procurei nem rejeitei, contra a ignorância estabelecida. Evandro Carlos de Andrade abriu as páginas de O Globo para que nelas eu me defendesse, tornando menos desigual o combate que se travava entre um ilustre desconhecido e a galeria inteira dos cardeais reunidos em concílio sob as bênçãos apostólicas do papa Ennius I. Elizabeth Orsini fez a excelente reportagem que trouxe o assunto a público. Bruno Tolentino, com a veia satírica que herdou de seu antepassado Nicolau, comprou a briga, saiu em campo e tornou os figurões da SBPC objeto de riso nacional. E, entre os muitos que escreveram a mim e aos jornais cariocas em minha defesa, devo uma menção especial ao filólogo Daniel Brilhante de Brito. Umas semanas antes de a encrenca eclodir na imprensa, eu havia mandado um exemplar de Uma filosofia aristotélica da cultura a esse respeitado helenista, pedindo-lhe que inspecionasse com rigor minhas elucubrações sobre o vocabulário de Aristóteles. Fiz isso tremendo de medo, consciente de que meus conhecimentos de língua grega não estavam muito acima do nível da cultura filosófica do “avaliador” sbpecéico. Só eu sei o alívio que senti quando o mestre, em vez de me chamar a um canto para me passar um sabão, escreveu ao Jornal do Brasil para me elogiar em público, na hora mesma em que os filosofófagos procuravam me assar vivo.
Não é necessário dizer que todo este episódio da SBPC me impressionou profundamente, mostrando-me que a inépcia das nossas classes letradas podia ser muito mais vasta do que as amostras casuais que dela me haviam chegado até então podiam ter-me levado a suspeitar. O impacto desta experiência foi, num primeiro momento, deprimente, como no caso de um professor que, tendo dado o melhor de si para explicar durante meses um determinado tópico, de repente se desse conta de que a classe não entendera absolutamente nada. A percepção da inocuidade de seus esforços pedagógicos viria aí, como veio para mim, acompanhada de um terrível sentimento de solidão, de estar numa terra estranha, rodeado de desconhecidos. Lembrei-me então do Diálogo da conversão do gentio, onde o Pe. Manoel da Nóbrega, falando de seu contentamento inicial com as primeiras conversões de índios, relata a triste decepção que sofreu em seguida, ao perceber que se haviam convertido por mero comodismo e sem captar o menor sentido na pregação que aparentemente os cristianizara. Imagino a solidão desse homem, a milhares de quilômetros de casa, ao perceber que falara para as paredes, ou melhor, não havendo paredes no Novo Mundo, para os coqueiros e os tatus-bolinha. Foi isso precisamente o que senti ante o parecer da SBPC: a vida intelectual no Brasil era realmente um parecer, sem nenhum ser por dentro, e eu era um idiota perfeito que me dirigira a seus protagonistas na ilusão de estar dialogando com criaturas vivas. Foi nesse instante que nasceu, de início obscura e indefinida, a inspiração do livro O imbecil coletivo, como a de uma espécie de tratamento de choque para despertar o moribundo. E, hoje, quando ouço essas mesmas criaturas proclamarem que o escrevi para chamar atenção sobre mim, noto que estão ainda mais longe da realidade do que mesmo o episódio da SBPC me fez julgar que estavam; pois nem suspeitam que o escrevi unicamente para chamar sua atenção sobre si mesmas.
Ao reeditar agora estas pacíficas especulações que deram origem a tantos combates, e ao contemplar a agitação furiosa dessas pobres criaturas que me recusam a condição de filósofo só para dar a si mesmas a ilusão de que teriam o poder de me outorgá-la, tenho vivo em mim o sentimento da ironia da situação. Lembra-me a cena do filme de Woody Allen, em que o herói sem nenhum caráter, Zellig, internado num hospício e recebendo em seu quarto a visita diária da psiquiatra, acredita ser o terapeuta que recebe a paciente em seu consultório. Não por coincidência, Zellig era, na sua universidade imaginária, catedrático de masturbação.
Rio de Janeiro, setembro de 1996. |
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