Aula 1
História das histórias da filosofia
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Trecho
(10 primeiras páginas)
O título deste curso já é, de algum modo, o enunciado do problema que trataremos de resolver no curso das aulas. Este título contém duas expressões que enunciam pólos opostos de uma realidade. Quando falamos de História Essencial, por um lado nos referimos a algo que é história e, por outro, a algo que é essência. Essência, como se sabe, é aquilo que uma coisa é, conforme sua natureza ou sua constituição íntima, considerada desde o ponto de vista lógico e independentemente das transformações temporais que ela possa sofrer e até de sua existência ou não. Pelo ponto de vista essencial, Napoleão Bonaparte já era Napoleão Bonaparte antes de nascer, continuou sendo enquanto viveu e é Napoleão Bonaparte até hoje, ou seja, sua morte não o transformou em outra pessoa.
O ponto de vista da essência é, por excelência, supratemporal, portanto, supra-histórico. A palavra história, ao contrário, designa várias coisas. Designa desde logo a sucessão temporal dos acontecimentos, considerada materialmente. Designa, em segundo lugar, a ciência que estuda esta associação e também a própria dimensão temporal da vida humana. Designa, enfim, as obras, os livros escritos com a narrativa dos acontecimentos históricos. Em todos esses casos, é evidente a referência à idéia de que algo sucede no tempo e de que o suceder é necessariamente o aparecimento de fatores que não existiam antes e a desaparição de outros que existiam. É, portanto, uma dimensão de mutação estranha à esfera da essência à qual nos referimos na primeira expressão.
Escolhi propositadamente a expressão "História Essencial" justamente para dar a idéia dessa tensão entre dois pólos, a tensão que nos mostra, de um lado, algo que permanece irredutivelmente igual ao que era no começo e que, por outro lado, muda de aparência, muda de figura. Quase que poderíamos dizer, com um pouco de exagero, que muda de identidade ao longo dos tempos. Essa tensão, a meu ver, é insolúvel; é uma das muitas tensões que definem polarmente a própria existência humana. Existem inúmeras dessas tensões, e veremos, no próprio curso da História da Filosofia, que muitas filosofias às vezes procuram resolvê-las mediante a amputação de um dos pólos, criando então uma visão um pouco artificial ou exagerada de uma faceta da existência. Todo nosso esforço será, ao contrário, para conservar todos os pólos opostos cuja tensão não possamos resolver, porque às vezes é essa tensão mesma que nos coloca de pé, nos faz ir para frente e, em última análise, marca toda a dignidade e a força da inteligência humana.
Uma vez enunciado, explicado mais ou menos esse título, temos que ver que essa disciplina, a História da Filosofia, tem sido tratada de um certo número de maneiras. Há uma quantidade definida de estilos de História da Filosofia. Faremos uma breve resenha desses estilos para mostrar por que eles não nos satisfazem e, portanto, por que achei que deveria narrar a História da Filosofia de acordo com uma outra maneira, que não se enquadra em nenhuma das três modalidades costumeiras que vou passar a descrever.
A primeira amostra de História da Filosofia que temos está nas obras de Aristóteles. Ele nunca escreveu uma obra chamada "História da Filosofia", mas cada problema filosófico que atacou, ele sempre começou por abordá-lo desde a narrativa das tentativas anteriores, feitas pelos seus antecessores, e com isto, evidentemente, quase sem querer, inaugurou essa disciplina chamada História da Filosofia. O modo como Aristóteles fazia essa resenha histórica dos problemas, antes de oferecer a solução que ele próprio achava a mais adequada, consistia em colocar todas as doutrinas, todas as alternativas na mesa, umas ao lado das outras, como se fossem contemporâneas. Quer dizer, são várias as respostas possíveis para um mesmo problema - e estas podem ser, sob o ponto de vista aristotélico, cotejadas, comparadas umas com as outras, armando-se, portanto, uma dialética e uma discussão.
Desses primeiros esboços aristotélicos surgem, bem mais tarde, nos séculos XVII e XVIII, algumas resenhas narrativas de História da Filosofia, que, na verdade, não fazem senão expor várias doutrinas, não sobre um problema particular, mas sobre doutrinas filosóficas inteiras, também as colocando todas mais ou menos no mesmo plano, como se fossem respostas ao mesmo problema, e como se os vários filósofos estivessem reunidos em torno de uma mesa discutindo contemporaneamente. É evidente que isto tem a vantagem de nos colocar dentro da discussão, porém, de certo modo, é a própria dimensão histórica que se perde.
Embora uma obra assim organizada possa ostentar o título de História da Filosofia, na verdade não é história nenhuma: há apenas uma coleção de doutrinas que, estando organizadas cronologicamente, não estão coeridas entre si por nenhum laço temporal, mas apenas por seus pontos de encontro e desencontro lógicos, isto é, pelo acordo ou desacordo de seus respectivos conteúdos - o que não impede que essas obras sejam, do ponto de vista da exposição de cada uma das doutrinas, muito fiéis e meticulosas e de consulta necessária até hoje. Algumas delas são às vezes acompanhadas das apreciações que o autor da história julga dever fazer sobre cada uma das doutrinas, como se fosse o mediador ou o juiz do debate que está ali montado.
À medida que se produzem histórias desse primeiro tipo - que chamaremos simplesmente de "histórias expositivas" -, a simples comparação de doutrinas acaba sugerindo a idéia de que umas saem de dentro das outras, ou seja, de que uma teoria aparece para responder a uma anterior, para confirmá-la, para continuá-la, para aperfeiçoá-la, para impugná-la, e assim por diante. Portanto, não existe somente a possibilidade do cotejo lado a lado, mas uma espécie de ligação interna entre as doutrinas. À medida que se vão percebendo essas conexões, vai-se formando com mais clareza a noção de escolas e de tradições que se prolongam no tempo, que são confrontadas ou impugnadas por outras escolas e tradições, as quais, por sua vez, também como respostas ou como alternativas, saem de certo modo de dentro das primeiras.
A verificação da existência dessas conexões acaba por sugerir a idéia de se obter uma visão unitária do conjunto da evolução filosófica até aquele ponto em que está o próprio sujeito que faz esse exame. Surge, então, a idéia da História da Filosofia como uma disciplina filosófica ela própria, ou seja, como uma interpretação filosófica dessa seqüência de acontecimentos históricos que se chama "A História da Filosofia". O próprio nome passa a ser usado em dois planos: por um lado, para designar o desenvolvimento temporal e dialético interno da Filosofia e, por outro, o estudo reflexivo, a interpretação global que se faz, a posteriori, desse movimento tomado como um conjunto. O modelo, o protótipo das histórias desse tipo são as famosas Lições sobre a História da Filosofia, de Hegel.
Hegel entendia que o conteúdo da Filosofia era a própria História da Filosofia, ou seja, que o desenvolvimento temporal da História da Filosofia era uma dialética interna pela qual essa dimensão filosófica ia se revelando no tempo, como uma espécie de tomada de consciência do espírito por si mesmo. Então, a História da Filosofia já passa a ser a manifestação externa de um fenômeno de ordem interna ou espiritual. Aquela série de produtos objetivados do espírito, que são os livros, as doutrinas, as idéias etc. vão se exteriorizando ao longo do tempo, mas como manifestações de um fenômeno único e a própria unidade do espírito humano. Os filósofos individuais - funcionando aí mais ou menos como bonecos de ventríloquo nas mãos da própria razão ou do próprio espírito que fala através deles - tornam-se elos de uma cadeia contínua da qual eles não precisam necessariamente ter consciência, mesmo porque a unidade dessa cadeia só se revelaria nas suas etapas finais, das quais justamente o próprio Hegel acreditava ser a testemunha e o porta-voz. Isso quer dizer que a filosofia de Hegel se apresenta como uma espécie de conclusão do movimento global da História da Filosofia até aquele ponto.
A objeção que podemos apresentar a esse tipo de História da Filosofia é a de que a idéia de desenvolvimento temporal unitário só se aplica, a rigor, a seres que têm uma existência contínua do ponto de vista orgânico, como, por exemplo, um animal ou uma planta. Um animal, desde seu nascimento até sua morte, conserva integralmente a sua forma intrínseca. Ele pode mudar um pouco na sua aparência exterior, mas continua funcionando de acordo com as mesmas regras. Isto significa que a mesma fórmula de funcionamento que faz um animal se alimentar e crescer quando é pequeno, esta mesma fórmula o fará definhar e morrer quando ele for velho. Então, evidentemente, quando estamos falando de fenômenos da natureza, existe uma continuidade óbvia na história dessas entidades ou desses organismos tomados como individualidades, e nós podemos captar essa unidade justamente porque a existência de todos os seres da esfera do campo orgânico é uma existência limitada no tempo; não existe nenhum ser destes que dure indefinidamente, não existe nenhum animal eterno ou perene, nem animal nem planta. Como existe um término definido para a existência do bicho, podemos, evidentemente, raciocinar sobre ele concebendo começo, meio e fim, porque esta é sua vida ou sua biografia.
Quando nos transpomos para a dimensão histórica - seja a História em geral, seja a História da Filosofia em particular -, o processo não tem término temporal definível, não sabemos quando isso vai terminar. Ou seja, em nenhum ponto da História da Filosofia jamais alguém pôde assegurar com plena certeza se a Filosofia era jovem, madura ou velha, se ela estava nascendo ou morrendo, se estava terminando ou começando, porque esta afirmação exigiria uma previsão do término da própria existência humana - não da existência do indivíduo filósofo, mas da existência da espécie humana ou pelo menos do término da sua capacidade filosofante. O fato é que nenhum de nós tem essa capacidade.
As Lições sobre a História da Filosofia, de Hegel, terminam mais ou menos artificialmente nele próprio, considerado como término e coroamento do processo filosófico, devendo a Filosofia, logo em seguida, desaparecer ou ser transformada numa coisa totalmente diferente que não pudesse ter pontos de conexão com a sua origem primeira. O fato é que isso não aconteceu; continuou havendo atividade filosófica, algumas dentro da linha de transformação que Hegel havia previsto, outras completamente fora disso. A sobrevivência da História da Filosofia em relação ao tempo de Hegel é um simples fato, que não temos como negar.
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