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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 4
Aristóteles
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Perto do mundo de Aristóteles, o de Platão ainda apresenta muitos aspectos nebulosos ou míticos que o tornam de certo modo estranho à especulação filosófica posterior.

Mas Aristóteles de certo modo já é um de nós. Não podemos esquecer que 70% ou 75% de sua obra é constituída por estudos de ciências naturais: ele era um cientista no sentido moderno do termo. Creio ter razões suficientes para acreditar que tudo o que veio a ser conhecido como método científico a partir de Claude Bernard, abrangendo mesmo as mais recentes elaborações do Karl Popper, já estava em Aristóteles. Eu nunca vi nada nessa área que não fosse uma simples reexposição consciente ou inconsciente de algo aristotélico.

Com Aristóteles já entramos num mundo de questões que poderiam ser objeto de disputa acadêmica hoje, ao passo que não imaginamos muito discussões acadêmicas em torno dos temas das conversações socráticas. Não se vai espremer um sujeito para que ele diga o que é a justiça, o que é a moral, o que é o bem – sobretudo o que é o bem –, mas em Aristóteles existem muitas investigações que são de uma atualidade impressionante. Talvez seja interessante saber que quem mais se interessou por Aristóteles nas últimas décadas foram exatamente os biólogos – e isso acontece a partir do momento em que alguns autores descobrem o óbvio, isto é, que a Física aristotélica não é uma física, mas uma metodologia geral das ciências, uma filosofia geral das ciências, e que assim estudada pode contribuir para recolocar em ordem uma série de campos de investigação.

Nós nunca podemos esquecer que Aristóteles começa a sua vida como um estudante da escola platônica e que a primeira atividade de nível mais alto a que ele se dedica é de professor de retórica dentro da Academia. A retórica tinha ali uma tradição já de alguns séculos. Isso quer dizer que não era mais apenas um empirismo, mas já uma técnica mais ou menos consolidada, desenvolvida pelos sofistas – que eram em última instância professores de retórica, professores itinerantes que passavam de cidade em cidade, responsáveis pela formação da elite política grega, da juventude grega...

Os sofistas fizeram algumas descobertas importantes: primeiro, a consciência sobre a continuidade do discurso, continuidade lógica através de uma discussão. Quer dizer que, quando duas pessoas estão falando, quando uma idéia está se contrapondo à outra, as duas juntas formam, de certo modo, um raciocínio único. Essa é uma descoberta que nós devemos a eles – e eles desenvolveram várias técnicas para levar essas discussões a um bom resultado, subentendendo- se por “bom resultado” a vitória do orador sobre o seu oponente.

A retórica, a rigor, é uma espécie de psicologia do discurso, que vai estudar as várias situações do discurso. Os conceitos básicos da retórica são: o conceito da situação do discurso; o conceito do juiz, quer dizer, o ouvinte, o perfil do ouvinte, ou seja, a quem é feito o discurso; o da finalidade, quer dizer, onde se pretende chegar, qual a alteração que se pretende desencadear no ouvinte; e, por fim, a seqüência de meios verbais empregados para isso, ou seja, o próprio discurso. Situação, juiz, propósito ou meta, discurso: tudo isto está muito bem articulado, muito bem organizado dentro do mundo retórico. Só que o estudo das situações do discurso acaba levando toda essa tradição sofistica a esboçar uma espécie de tipologia dos públicos. Há vários públicos a quem você pode se dirigir, e, portanto, várias situações nas quais você pode se dirigir a ele.

Dentro da retórica antiga encontra-se, então, uma classificação de gêneros de discurso conforme a situação, conforme o propósito e conforme o juiz ou ouvinte. Só para dar um exemplo, considerava-se um dos tipos mais difíceis o discurso que se dirige a um juiz inepto, quando a platéia que vai julgar está abaixo da complexidade da questão. Conseguir persuadi-la é considerado uma grande realização. A esse gênero de discurso, eles chamavam gênero admirável. O retórico que conseguisse isso era um grande artista. Também é difícil o discurso para o juiz hostil, para o juiz preconceituoso, para o juiz estrangeiro, e assim por diante.

Sem dúvida, é o exame dessa questão que coloca Aristóteles na pista de uma teoria mais geral do discurso humano. É daí que ele vai partir para a elaboração da dialética e, mais tarde, da analítica. Não creio que aquilo que se compreendeu como “lógica de Aristóteles” possa realmente ser compreendido se for amputado das suas raízes na retórica. Ao mesmo tempo que Aristóteles se dedicava a esse estudo comparativo dos vários tipos de discurso, dos seus vários graus de eficácia, não podemos esquecer, porém, que ele, como filho de um médico, era um sujeito que já tinha um certo treino de ciências naturais desde moleque, que estava acostumado então a examinar o corpo humano, animais e plantas. Ele desenvolve um certo senso do que podemos chamar “unidade orgânica”. Este deve ser, provavelmente, o conceito que mais marca seu estilo: encarar o mais possível o objeto que está dentro de si, e a realidade como um todo, como uma unidade – mas não uma unidade de um simples, ou uma unidade de tipo geométrico, mas uma unidade de tipo orgânico, como se fosse um animal vivente.

Podemos dizer, então, que Aristóteles é sobretudo um biólogo que olha tudo biologicamente, mas que vai expor isso tudo por uma teoria da linguagem. A própria teoria da linguagem que ele desenvolve, creio que ela segue o modelo de uma árvore. Ele nota que a linguagem humana, que as formas cultas de expressão lingüística, elas têm uma certa raiz no corpo humano, na capacidade de percepção humana.

Nota, por exemplo, que uma boa parte da eficácia do discurso dos poetas e do teatro reside em um efeito físico. Por exemplo, no ritmo, na métrica, essa reiteração acompanha certos ritmos orgânicos, colocando o ouvinte numa disposição favorável àquilo que ele vai ouvir. Na medida em que o discurso acompanha, ou repete, ou ele mesmo modula as batidas do coração, praticamente todo o funcionamento orgânico do indivíduo é mandado para uma espécie de pano de fundo – e o espírito do camarada está inteiramente livre para absorver o que está sendo dito para ele.

Essa harmonia entre o som e o estado físico, as reações físicas do ouvinte, de certo modo elas são repetidas nas formas mais complexas e menos físicas, por assim dizer, do discurso.

São repetidas analogicamente. Isso quer dizer que há algo de parecido com a métrica e a rima na retórica, na dialética e na lógica, que são os discursos que vão progressivamente se afastando do sensível em direção ao inteligível.

Sei que nunca ninguém pensou, por exemplo, na organização do silogismo – duas premissas das quais se tira uma conseqüência –, que é o módulo básico do discurso lógico em Aristóteles. Nunca ninguém pensou em fazer uma associação entre isto e a métrica da poética. No discurso lógico você tem um módulo repetível: premissa maior, premissa menor, conseqüência. Esta vira de novo uma premissa maior, que se junta a outra premissa menor e gera outra conseqüência.

Então você tem um passo ternário, que não deixa de ser uma espécie de métrica. Quando Aristóteles vê que a eficácia do discurso poético está muito ligada aos ritmos orgânicos, não duvido nada que ele tenha procurado algum equivalente disso nas formas mais abstratas de discurso, formas que eram menos sensíveis e mais inteligíveis.

A eficiência do discurso retórico, por exemplo, é um pouco diferente da do discurso poético, mas pode ser tão intensa quanto. Isso quer dizer que o discurso do poeta no teatro e o do orador no senado (numa circunstância política qualquer) deviam ter pontos de afinidade, pontos de identidade e de diferença. E essa identidade e essa diferença sempre chamaram muito a atenção de Aristóteles. Uma de suas primeiras preocupações é distinguir as várias modalidades de ação verbal que o homem exerce sobre o homem. Como é que uma mente age sobre a outra através da palavra? Que tipos de modificação você pode sugerir ou introduzir na mente do seu ouvinte?

Diz Aristóteles: “O discurso poético realmente não lhe ensina nada, não afirma nada”. Mas ele diz também: “ele deixa em você uma funda impressão”. Desta impressão, evidentemente, você não pode tirar nenhuma conclusão quanto à veracidade ou à falsidade do que lhe foi relatado, mesmo porque, diz ele, “o gênero poético não trata jamais nem do real nem do irreal, mas apenas do possível”. Ele conta histórias, expressa situações que não aconteceram, mas que são possíveis, e mesmo quando lida com assuntos históricos, isto é, com algo real que aconteceu, lida não enquanto real, mas apenas enquanto possível, partindo do princípio de que tudo o que é real é também possível.

Isto significa que a ação básica do discurso poético é torná-lo aberto a uma possibilidade. Como é que ele realiza isto? Realiza não só pela natureza dos fatos narrados, dos fatos mencionados, mas também pela harmonia entre a seqüência de sons e os ritmos corporais. Essa harmonia o predispõe a se abrir àquela narrativa, que de outro modo talvez não lhe interessasse ou não o persuadisse. Mas no instante em que você se abre àquela possibilidade e a vivencia durante a audição ou o espetáculo, como se fosse uma realidade (embora sabendo que não é), a finalidade do discurso poético completa-se. Ele não pode ir além disso.

Se, além de infundir no ouvinte ou espectador essa impressão geral de uma possibilidade, você quiser transmitirlhe algo mais, ou seja, se quiser infundir uma opinião ou levá-lo a tomar uma posição, os recursos poéticos já não bastarão, então você puxa os discursos da retórica. Isso quer dizer que o discurso retórico se completa, se perfaz, no instante em que a platéia toma uma decisão, quando ela aprova ou desaprova alguma coisa, decidi fazer ou não fazer alguma coisa. Aí a influência sai daquele fundo imaginativo quase inconsciente e tem que se expressar numa decisão, numa adesão ou numa repulsa consciente. Ora, é fácil perceber (embora Aristóteles não o diga, mas está implícito) que se o fundo imaginativo, aquele em que o discurso poético trabalha, for hostil ao que o discurso retórico pretende convencer, isso não vai pegar. Isso significa que todo o mundo do discurso retórico não surge no ar; surge já em uma atmosfera social e lingüística tornada propícia pelo discurso poético.

Caso não se tenha um fundo de tradição verbal ou literária que torne toda uma comunidade sensível mais ou menos aos mesmos ritmos, aos mesmos jogos semânticos, etc., a persuasão racional se torna muito difícil; ela vai apenas pegar uma predisposição que já existe no fundo dos sentimentos, do inconsciente, da imaginação e trabalhá-la para que vire uma decisão. Aí, evidentemente, existe uma passagem de um tipo de discurso para outro. A retórica, então, não poderia jamais ser uma ciência independente. Não se pode fazer uma ciência dos discursos persuasivos se não se tem antes uma ciência dos discursos impressivos, que seriam os poéticos.

Examinando os textos que Aristóteles consagra a esses vários tipos de discurso, vê-se que os termos que ele usa para definir os mecanismos de cada um dos estão associados, não são coisas separadas – eles formam realmente uma gravação. No ponto em que ele encontra a ciência da retórica, ou seja, já como uma técnica altamente desenvolvida, ali praticamente já havia meios articulados para persuadir qualquer pessoa de praticamente qualquer coisa que pudesse interessar ao indivíduo. Se você quisesse persuadi-lo que sim, tinha a técnica, se quisesse persuadi-lo que não, também tinha a técnica. Isto, evidentemente, colocava um problema: quanto mais esta técnica evoluía, mais ela se neutralizava, porque, se todos os discursos são igualmente persuasivos, nenhum é persuasivo.

Na evolução de Aristóteles, está bem claro que ele ainda muito jovem domina completamente a técnica da retórica e percebe que ela chegou a um beco sem saída, e que é preciso dar um passo à frente. Esse passo à frente de algum modo já estava dado pelos seus dois mestres, Platão e Aristóteles, com a arte da dialética. A arte da dialética era também uma arte da confrontação de discurso, e não apenas em vista da persuasão, mas de uma subida de grau na busca da certeza.

Isso quer dizer que, quando terminava uma discussão dialética – seja socrática, seja platônica –, era preciso ter pelo menos um pouco de certeza a mais do que quando esta tinha começado...

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