Aula 6
Período Helenístico I
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Trecho
(10 primeiras páginas)
Logo no começo do curso dissemos que a História da Filosofia não seguia uma linha nítida, muito menos uma linha predeterminada; que não era possível realizar a ambição hegeliana de reduzir todo o desenvolvimento da História da Filosofia a uma espécie de raciocínio único, a uma espécie de macrossilogismo dialético com começo, meio e fim, o qual culminaria no próprio Hegel; e que havia a interferência constante de fatores de ordem extrafilosófica. Um desses fatores entra em cena logo após esse período clássico que já abordamos, isto é, logo após a formação dessas duas grandes sínteses que são o platonismo e o aristotelismo.
Até aí vemos que o curso da História da Filosofia tinha de fato seguido uma linha coerente, mas que isto só aconteceu porque é uma história contínua, quer dizer, havia a conexão entre as gerações e a passagem direta do legado de uma geração para a outra: Platão é aluno de Sócrates, e Aristóteles é aluno de Platão. Temos aí exatamente três gerações. Nesse caso, não é difícil identificar uma evolução contínua – mesmo porque, durante esse período, não houve modificações substanciais do panorama histórico. Isto significa que, dentro de uma situação mais ou menos estável, três gerações puderam prosseguir o trabalho de uma maneira regular, passando do simples enunciado de uma ambição filosófica, de um projeto filosófico, por Sócrates, a todo aquele mundo platônico já estruturado e a todo o sistema das ciências montado por Aristóteles, não como um projeto, mas já como uma obra em pleno curso de realização.
O número de investigações que Aristóteles inaugura e leva a bom termo é muito impressionante. Ele pessoalmente fez a descrição de duzentas espécies animais, e isso supera o que qualquer biólogo trabalhando em tempo integral consegue fazer hoje. Aristóteles acreditava, certamente, que esse conjunto organizado de investigações que ele tinha inaugurado iria prosseguir ao longo dos tempos de uma maneira mais ou menos uniforme, dentro da sua própria escola e nos círculos platônicos de modo geral. Ele sempre se considerou um membro do círculo platônico, e o Liceu aristotélico não é um outro começo independente, mas um simples prosseguimento da escola platônica. É ali que ele envolveu algumas centenas de pessoas – e acreditava muito no trabalho organizado, no trabalho de grupo, nos bons resultados da colaboração.
Existe um livro seu que se chama Questões, que são milhares de perguntas, e nós nos perguntamos por que o sujeito iria fazer um livro inteiro só com perguntas, sem nenhuma resposta, se aquilo não fosse um programa de trabalho. Ele está enunciando questões que acha dignas de serem investigadas, porque seria impossível acreditar que ele mesmo fosse descobrir tudo aquilo em vida. A própria existência desse texto nos mostra que Aristóteles tinha alguma idéia da possibilidade de prosseguimento normal das atividades investigativas – como a de qualquer instituto de pesquisas moderno que dura cem, duzentos, trezentos anos, dentro do qual os conhecimentos adquiridos numa geração são passados à outra e lhe servem de base.
Logo após esse período, vem a intervenção de fatores que não têm absolutamente nada a ver com a filosofia, mas que modificam de tal modo o panorama que tudo isso que estudamos com o nome de platonismo e aristotelismo de repente se torna mais esquisito para os gregos do que o é para nós. Hoje, passados dois mil e quatrocentos anos, somos capazes de reconstituir esses dois edifícios com os elementos que deles sobraram e compreender perfeitamente a intenção com que foram construídos, os objetivos que estavam ali subentendidos e quais as tarefas científicas que eles nos impõem. No entanto, apenas uma geração depois de Aristóteles isso tinha se tornado completamente estranho à mente grega. Esse é um dos casos de esquecimento coletivo e de perda, completa mesmo, de conhecimentos adquiridos. É uma verdadeira catástrofe cognitiva.
Isto acontece a partir das invasões empreendidas por Alexandre, o Grande, que, por ironia, tinha sido aluno de Aristóteles quando criança. Alexandre tinha um sonho: uma espécie de “monarquia universal”, monarquia única, o Império universal. E ele de fato consegue tomar territórios imensos em volta. O Império já estava praticamente assentado em suas bases geográficas quando ele morre. Isso quer dizer que, do seu projeto de construção só foi feita a parte negativa, a parte destrutiva: destruir tudo que tinha em volta para depois lançar novas bases.
Quando chegou a hora de lançar as novas bases, Alexandre morreu, muito jovem, então o Império foi um projeto abortado. Já na sua fase de implantação, ele tinha desmontado as várias estruturas políticas de todas as cidades que havia ocupado. Nisso desaparece a polis, a cidade-estado independente, que era a base da organização grega – cada uma delas com as suas leis, com o seu parlamento, em suma, com uma vida política bem organizada. E tudo isso desapareceu já na fase das invasões. Quando Alexandre morre, o negócio piora ainda mais, porque havia uma série de reinos em volta, e cada um tomou para si uma parte dos territórios conquistados por ele. Havia monarquias no Egito, na Síria, etc., e cada uma foi pegando um pedaço, como que dividindo o cadáver da vítima. E, naturalmente, esses reis implantaram, em todos os territórios que tomaram, um tipo de monarquia absoluta, que já era o regime que tinham nos seus respectivos países. Isso quer dizer que, de repente, com a independência, desaparecem as constituições – e com as constituições desaparece, efetivamente, todo e qualquer tipo de atividade política, a não ser a atividade palaciana, quer dizer, do círculo dos camaradas próximos ao governante.
Toda a vida da polis girava em torno da idéia de participação na vida política, a qual seria o escoadouro para onde desaguavam todos os conhecimentos adquiridos no curso da educação do cidadão, incluindo os discípulos de Platão e de Aristóteles. Então a política é uma espécie de campo de teste de todas as idéias que havia em circulação, e vemos, pelos diálogos de Platão, que grande número de seus discípulos eram dedicados à vida pública. Aquilo era praticamente uma escola de estadistas; se não fossem estadistas, pelo menos alguma participação teriam. Graças a essa intensa atividade política havia se desenvolvido, ao longo dos séculos, já antes de Platão e Aristóteles, toda a arte da retórica. Quer dizer, os gregos já estavam bastante afiados nas discussões. Não nas discussões científicas, que começam apenas depois – é só na escola platônica que se vê realmente uma discussão científica organizada, antes não –, mas pelo menos nas discussões políticas. Com o advento da escola platônica se dá um salto: da discussão retórica, da discussão política, para o debate científico, com a introdução da ciência dialética e, depois, com a introdução dos critérios propriamente lógicos. Mas acontece que, desaparecendo a atividade política, desaparece a condição social sobre a qual se erguia tudo isto, e desde logo a própria condição de cidadão desaparece.
O que é o cidadão no sentido grego? É o sujeito que está habilitado a participar da política, e participar não apenas como eleitor, mas como voz ativa: hoje ele é um eleitor, amanhã poderá ser um governante. Naturalmente, a vida da polis era constituída de uma série de filtragens e seleções dos vários pretendentes. Vimos que quase todos os cidadãos atenienses, por exemplo, eram de algum modo políticos – alguns com mais sucesso, outros com menos sucesso, mas virtualmente eram todos políticos e se consideravam todos governantes virtuais, pretendentes às funções de governo, de algum modo.
Quando isso desaparece, some também a condição de cidadão, que é substituída pela condição de súdito. E o súdito, evidentemente, não participa de discussões e muito menos de decisões políticas; ele nem sabe quais são as decisões, pois as ordens vêm de cima e ele não precisa sequer compreendê-las. Aí já se tem uma massa de gente excluída de um modo de vida ao qual tinham se acostumado durante alguns séculos. Desaparecendo a política, é evidente que desaparece também a necessidade da arte retórica – que era o aprendizado no qual os futuros políticos afiavam as suas capacidades argumentativas. Agora não há mais atividade política, então não há mais necessidade desse treinamento.
A arte retórica logo reflui para se tornar uma atividade meramente escolar – a expressão “retórica escolar” designa precisamente o tipo de retórica que se ensinava nesse período – que é a de mero exercício sem finalidade. Vira uma espécie de arte pela arte. O sujeito aprendia aquilo, fazia os exercícios escolares para aprender a fazer exercícios escolares. Nenhum desses discursos treinados na escola seriam jamais testados na vida real. É como se você entrasse para uma academia de boxe, ficasse treinando, treinando, e depois fosse proibido de participar de campeonatos. Na verdade, você nunca vai saber se você sabe ou não.
Como uma espécie de compensação, surge um segundo tipo de retórica, que é a “retórica epistolar”. Tudo aquilo que havia de troca de idéias em praça pública passa a haver mais na esfera privada. Aí se desenvolve muito a arte das cartas, que ao longo do tempo vai se tornar uma coisa muito importante na literatura do Ocidente, com conseqüências de longo prazo que, evidentemente, nessa época, eles nem poderiam imaginar. A cartas, na medida em que são uma troca de informações de ordem particular, vão facilitar cada vez mais a auto-observação das pessoas e as confissões íntimas, etc. Daí vai nascer, mil e setecentos anos depois, o moderno romance psicológico.
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