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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 7
Período Helenístico II
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Como esse período posterior à Academia e ao Liceu, à grande época platônico-aristotélica da Filosofia, é extremamente confuso, muito complexo, existe também, nessa ocasião, uma espécie de florescimento quantitativo. Fica até difícil, num curso destas dimensões, selecionar o que se vai abordar ou não. Naturalmente, nosso estudo acerca desse período vai ter que ser de tipo sintético, tentando pegar mais ou menos algumas tendências ou até cacoetes comuns aos seus pensadores, sem que haja a mínima condição de fazer aqui um estudo de um por um. Mesmo aqueles que a gente destacar, isso não quer dizer que tenham sido realmente os mais “importantes”, mas são citados como sintomas de uma certa maneira de ver as coisas que foi comum a todo esse período.

Já comentei que o surgimento dessa nova coleção de problemas filosóficos, e desse florescimento de escolas um pouco extravagantes por todo lado, teve algo a ver com as mudanças políticas da época, com o fim da democracia e a eliminação, portanto, das discussões públicas. Isso acarretou, então, um refluxo da conversação filosófica para temas que estariam mais próximos da individualidade humana. Mas essa individualidade também já era compreendida apenas no sentido de individualidade corporal, e não de individualidade biográfica, como já começara a se esboçar no tempo de Platão e Aristóteles.

O estudo dessa época é importante para se ver como é terrivelmente fácil que tudo aquilo que a “humanidade” – quer dizer, alguns indivíduos – havia percebido, apreendido num certo momento, conquistado de verdadeiro, de precioso, de profundo, como tudo aquilo pode desaparecer, se dissipar, se dispersar num instante, e como a reconquista desses conhecimentos pode exigir muitos e muitos séculos. É evidente que a importância desse estudo se torna ainda mais enfática quando nós mesmos estamos vivendo numa época desse tipo.

Note bem que seria uma tolice imaginar que a atividade intelectual superior pode decair sem que isto afete em nada a percepção que os demais indivíduos têm das coisas. Uma decadência intelectual é também uma decadência da simples percepção humana. Isso quer dizer que, quando os mais inteligentes emburrecem, os mais burros emburrecem mais ainda, criando uma situação verdadeiramente compressiva e desesperadora. Quando vemos um filósofo desse período lutando com dificuldades elementares que já estavam resolvidas fazia séculos, e os vemos assim tropeçando, esborrachando a cara no chão ante enigmas lógicos absolutamente pueris, chegamos a nos surpreender de como é que foi possível acontecer uma coisa dessas. Nesse período, uma das escolas que aparecem é a chamada escola megárica, por causa do nome da cidade (Mégara), na qual acontece um retorno à idéia de Parmênides acerca da unidade absoluta do ser. Ora, uma vez afirmado que “o ser é” e que “o não-ser não é”, não se tem nenhuma maneira de abordar as coisas que estão numa espécie de transição do ser para o não-ser; não se tem nenhuma maneira de enfocar aquilo que não aconteceu ainda, que está no processo de acontecer ou de “desacontecer”.

Se “ o ser é” e se “o não-ser não é”, ou as coisas existem de uma vez para sempre, são eternas e imutáveis, têm uma forma de existência absoluta, ou elas simplesmente não existem. Isso nos levaria, evidentemente, a negar a existência de tudo aquilo que chega ao nosso conhecimento através dos sentidos – porque praticamente tudo o que conhecemos está em processo de mudança, de algum modo, e através dos sentidos não se tem acesso a nada que seja permanente, eterno, imutável, etc.

Mesmo reconhecendo que há coisas que possam ser eternas e imutáveis, o fato é que elas não chegam ao nosso conhecimento pelos sentidos, só se tendo acesso a isso mediante algum esforço de raciocínio. Se se adotar como premissa que apenas aquilo que existe em sentido absoluto é existente e que tudo aquilo que tem uma existência relativa não existe, isso quer dizer que todo o mundo da nossa experiência simplesmente desaparece do horizonte, e a única coisa existente será aquela faixa superior da realidade na qual estão as coisas de ordem divina e os princípios – por exemplo, o princípio de identidade, as leis da aritmética e da lógica elementar, e assim por diante. Tirando isso, o resto seria inexistente, inclusive nós mesmos.

É evidente que quando Parmênides enuncia isto, ele o faz sob uma forma aforística e poética, e numa espécie de estilo hiperbólico que é bastante característico da linguagem poética. Não podemos nos esquecer de que o livro de Parmênides, o seu relato, é um mito, um mito de uma “viagem celeste”, mais ou menos como aquela que mais tarde seria relatada a respeito do profeta Elias ou de Maomé: um indivíduo é arrebatado da Terra e sobe até o Céu, e ali toma conhecimento de algumas leis eternas.

O poema de Parmênides é exatamente assim, um mito, uma lenda de ascensão celeste, e nessa ascensão é que lhe é revelado que “ o ser é” e “o não-ser não é”.

Ora, essa é uma sentença tão categórica que só pode ter validade numa esfera realmente categórica, nunca na empírica! Mas acontece que essa distinção não pode, ela mesma, ser feita dentro de um quadro de referências parmenídico: se “o ser é” e “o não-ser não é”, e isso é tudo quanto você sabe, então a própria distinção entre o que seria um plano metafísico, eterno, e um plano empírico, ela já desapareceu. Essa unilateralidade, essa ênfase hiperbólica na eternidade do ser, ela deve ser compreendida como uma primeira especulação ainda em linguagem mitopoética – e, portanto, não tem o menor sentido interpretá-la como uma tese científica no sentido atual.

O mesmíssimo se pode dizer das sentenças de Heráclito, que têm mais ou menos o sentido contrário, de que na verdade nada é, tudo está em perpétuo fluxo, etc. É fato que tudo está em perpétuo fluxo, mas se tudo estivesse em perpétuo fluxo o sentido desta frase também estaria, e você não a recompreenderia absolutamente. Portanto, tudo o que é dito por Parmênides e por Heráclito deve ser sempre compreendido como uma figura de linguagem. Não se tinha na é poca uma linguagem filosófica e científica elaborada na qual se pudesse fazer todas as distinções de planos, etc.

O surgimento dessa linguagem aparecera justamente com Sócrates e com Platão, e chegara a um patamar de grande perfeição com Aristóteles. Mas, de repente, tudo isso é perdido, e aparece essa escola megárica reafirmando, com Parmênides, a unidade absoluta do ser. Aí isto já não é afirmado poeticamente, mas como uma sentença filosófica em sentido estrito. Como já se tinha alguma tradição de filosofia técnica, quando o membro da escola megárica afirmava a unidade absoluta do ser, afirmava-a como uma tese que deveria ser válida contra as teses das escolas anteriores (aristotélica, platônica, etc.). Aquilo que em Parmênides era uma percepção poética – e, portanto, uma afirmação unilateral de uma realidade, uma verdade que só poderia ser validada num sentido relativo, pelo menos se confrontada com a experiência real humana –, essa sentença poética, sendo reafirmada agora como tese filosófica em sentido estrito, torna-se uma comédia, não pode ser levada a sério.

Não há propriamente um retorno a Parmênides, mas sim uma caricatura dele. Uma coisa é o indivíduo enunciar em frases muito sintéticas a experiência compacta que ele teve de certas verdades que lhe são reveladas, por assim dizer, por intuição direta; outra coisa é o indivíduo, sem ter tido essa intuição e sem ter, portanto, a linguagem poética suficiente para expressá-la, tomar essa mesma frase já não como expressão de uma intuição, mas como uma tese no sentido lógico geral.

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