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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 9
Filosofia Patrística e Escolástica
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

(...) sobre aquele período confuso de decomposição da inteligência grega, o período filosoficamente não tem importância, mas historicamente é muito ilustrativo, mesmo em certos aspectos da própria época em que vivemos. Os últimos cinqüenta ou sessenta anos foram uma época também de decomposição na inteligência filosófica. Isso é bastante visível, assim que se comparar com a efervescência criadora da primeira metade do século XX. Então, o estudo desse período posterior ao apogeu – Sócrates, Platão e Aristóteles – é muito elucidativo para nós. O problema é que as teorias criadas nesses períodos são muito mais difíceis de compreender intelectualmente do que as grandes filosofias, evidentemente, porque sua motivação é muito complexa, não é uma motivação filosófica nítida. Toda filosofia é um esforço que por si mesmo é inteligível. Por ser um esforço em busca da intelecção, o esforço propriamente dito é em si mesmo bastante inteligível: sabe-se por que as pessoas estão procurando isto – estão atendendo a uma necessidade humana fundamental.

Mas quando começam a aparecer teorias esquisitas, como aquela de que devemos viver como um rato solto no meio do deserto, é difícil explicar para si mesmo por que o sujeito chegou a pensar isto. A fundamentação filosófica não é suficiente; então, tem-se que apelar para a explicação psicológica. Essa explicação é bastante conjectural, porque se tem pouquíssimos dados sobre a vida dessas pessoas. E, às vezes, a motivação psicológica também não é suficiente, então parte-se para a psicopatológica, parte-se para a explicação sobretudo noopatológica, a doença espiritual, e assim por diante. No fim das contas, acabamos é não entendendo por que os sujeitos disseram essas coisas – o máximo que chegamos a dizer é que ali não há muito o que entender. Não entendemos, mas também não havia muito o que entender; é anotar que isto aconteceu, ficar um pouco perplexo e passar adiante.

Isso não quer dizer que desses estados patológicos, psicopatológicos ou noopatológicos, nada se aproveita, porque tudo isso faz parte da experiência humana. Não vale como doutrina, não vale como teoria, não vale como idéia, mas vale como traslado. Como testemunho de experiência vivida, às vezes chega a ser fundamental. Creio que muitos seres humanos se sentiram mais como Diórgenes do que como Platão, certamente. Para sentir-se como Diórgenes, basta estar desesperado; para sentir-se como Platão, precisa algo mais.

Todo esse período que estudamos vem desde muito antes do cristianismo e se prolonga depois; mas há outros processos concomitantes. Temos que nos resguardar dessa idéia de continuidade linear na História. Na verdade, tem-se vários movimentos simultâneos que às vezes não apenas se contradizem, mas até se ignoram completamente, passam uns à margem dos outros. E num período de um século anterior ao cristianismo até uns dois séculos já na era cristã, existe um florescimento de movimentos muito estranhos, seitas religiosas, algumas vindas do Oriente, outras improvisadas com a costura de vários elementos, tudo isso denotando uma conseqüência daqueles fenômenos que já dissemos: a decomposição da polis e a angústia generalizada de não ter a que se ater (as pessoas não têm um ponto de orientação na existência). Esse período, evidentemente, não era muito favorável à especulação filosófica, pois esta pressupõe, por um lado, um motivo, e esse motivo é, por certo, uma dúvida, um espanto, uma perplexidade; pressupõe, por outro lado, alguns meios. Os motivos existiam nesse período, quer dizer, a perplexidade não faltava, mas faltavam os meios. Os meios seriam, em primeiro lugar, aquilo que assinalamos já no começo da Filosofia, uma certa elaboração prévia feita em nível retórico; as questões públicas têm que estar mais ou menos articuladas retoricamente para que delas se possa fazer então uma elaboração filosófica. Mas quando as perplexidades são muitas, e a confusão também é muita, essas várias linhas de pensamento não chegam a se articular em discursos retóricos que possam ser de alguma maneira confrontados.

Quando hoje examinamos, por exemplo, algumas doutrinas ditas gnósticas que apareceram nesse período, elas são tão complicadas, e tão estramboticamente mitológicas, que às vezes temos dificuldade em saber do que estão falando. Eles começam a enumerar divindades intermediárias que nos parecem meras figuras de linguagem, que estão tratando como se fossem entidades reais. Mas são entidades esquisitíssimas, que não têm para nós a menor presença, nem mesmo a consistência poética dos deuses da mitologia; então a impressão que temos é estar lidando com figuras de pesadelo.

Aí havia a motivação, mas não havia a condição, não havia os instrumentos. Mas não podemos dizer que esse estado foi geral e que todo mundo foi contaminado por ele. Não, houve nesse período pelo menos um esforço filosófico dos mais notáveis, e que surge de uma situação de perplexidade que é daquelas típicas que geram a motivação filosófica, uma confrontação, uma contradição entre duas correntes de idéias que estão perfeitamente delineadas.

Na época, havia muitos judeus espalhados por toda a parte do Ocidente, e a religião judaica estava num acelerado processo de dissolução. Estava todo mundo aderindo a outra coisa, mais ou menos como aconteceu também aos judeus modernos nos séculos XIX e XX, uma espécie de debandada geral: um entra para a maçonaria, outro entra para o Partido Comunista, e vai se integrando em outros esquemas sem deixar de ser judeu e ter alguma raiz na comunidade judaica. Nessa altura, havia então entre os porta-vozes, representantes da tradição judaica, uma preocupação muito grande com esta confusão. Eles temiam que as novas gerações de judeus já não conseguissem sequer compreender do que Moisés estava falando – mesmo porque a maioria deles já não sabia falar hebraico, e a educação era inteiramente latina ou grega. E foi justamente um desses camaradas que, não sabendo falar hebraico mas se considerando um judeu de coração, tenta fazer uma confrontação entre a tradição judaica e a filosofia grega, tomando a tradição judaica na sua expressão bíblica e já com todos os comentários tradicionais – portanto, tem-se aí uma doutrina perfeitamente exposta e bem conhecida –, e a tradição grega na versão que aparecia na Academia platônica.

Essa é uma situação de contradição e de perplexidade, mas não de total confusão – a total confusão não pode ser elaborada filosoficamente, tem que ter uma primeira elaboração num nível pelo menos poético-retórico. Neste caso, é uma contradição, uma confusão, mas filosoficamente elaborável. Então aparece esse cidadão, que se chamava Filon, da cidade de Alexandria, que tenta expressar o judaísmo nos termos da filosofia grega, com a idéia de que mais ou menos tudo aquilo que os gregos tinham descoberto e elaborado já estava, pelo menos em germe, dentro da Bíblia. Ele escreve um livro que se chama A criação do mundo segundo Moisés, que é um dos grandes livros filosóficos de todos os tempos, no qual ele usa interpretações simbólicas e alegóricas para buscar a identidade entre as doutrinas bíblicas e o ensinamento de Platão e de Aristóteles, mas particularmente o de Platão, tal como aparece no livro O Timeu.

Essa expressão de uma doutrina bíblica em termos filosóficos gregos ou vice-versa, de uma filosofia grega em termos bíblicos, é uma coisa que vamos ver reaparecer muito mais tarde, dentro do contexto cristão. Durante toda a história do cristianismo, haverá uma elaboração muito profunda da técnica da interpretação alegórica, e o curioso é ver que uma boa parte disso já está em Filon de Alexandria, antes do cristianismo. Filon nasceu uns quarenta anos antes de Cristo e morreu uns quarenta anos depois. Ele não teve contato com o cristianismo – aparentemente não ficou sabendo; pode ser que tenha ficado sabendo, mas na obra escrita não aparece nada disso –, então ele está lidando exclusivamente com o Antigo Testamento e com o material grego.

Existem muitos autores que vêem nessa obra de Filon algum artificialismo, como se ele estivesse fazendo um truque para ajeitar uma coisa à outra. Mas é o tal negócio: o primeiro sujeito que faz alguma coisa nunca faz direito. Essa técnica da interpretação alegórica teve que ser muito aprofundada, criticada e elaborada, e só vamos ver um pleno domínio disso nos grandes escolásticos, como Hugo de São Vítor, Santo Tomás de Aquino. Mas, considerando que Filon estava trabalhando até antes do cristianismo, aquilo é uma coisa de gigante mesmo. Muitas vezes, o historiador com uma excelente bagagem filosófica, mas sem muita compreensão justamente desta linguagem simbólica e alegórica, enxerga contradições na filosofia de Filon. Muitos autores dizem que Filon confunde duas coisas, por exemplo, as hierarquias angélicas com a hierarquia das idéias, que são incompatíveis. Na verdade, não são incompatíveis, não são teorias alternativas – afinal de contas, as idéias eternas são o conteúdo do Logos divino, o conteúdo da Inteligência divina. Elas não têm nada a ver com o modus operandi da ação divina. Dessa maneira, se você explicou todas as coisas existentes a partir de arquétipos eternos que estão na Inteligência divina, ou seja, as famosas formas ou idéias, é como se tivesse exposto a planta da Criação, o mapa da Criação, e não o seu modo de construção. Então, a rigor, não há nenhuma contradição entre a idéia das formas eternas platônicas e as hierarquias angélicas, sejam elas como Filon as descreve, seja de qualquer outra maneira.

Outra coisa também notabilíssima em Filon é que ele sintetiza, de algum modo, a idéia do Supremo Bem platônico (em Platão, a realidade primeira e inicial é o que ele chama de Supremo Bem) com o Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles. Também não são duas idéias antagônicas, não são teorias. O primeiro princípio é o Supremo Bem ou é o Primeiro Motor Imóvel? É o Primeiro Motor Imóvel, o qual é o próprio Supremo Bem. E Filon já diz isso de maneira explícita. Para ele, Deus é o Supremo Bem e, ao mesmo tempo, o Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles. Isso corresponde a se falar de Deus numa linguagem moral ou numa linguagem metafísica, mas, no fim, se está falando da mesma coisa. Essa obra de Filon (creio que era lida até a década de 1930 ou 1940 do século XX) parecia uma coisa, mas, nos anos que se seguiram, houve um progresso imenso da interpretação dos textos sacros, graças a autores como Henry Corban, Fritjof Schuon, Seyyed Hossein Nasr. E quanto mais isto progride, mais se vê que aquele universo de Filon faz muito sentido.

Trata-se, então, de uma época de extrema decadência filosófica, de confusão, de degradação. Mas tem ali um camarada que não participa inteiramente do ambiente de degradação, porque pertencia a uma outra comunidade. Ele não podia se considerar um indivíduo que estivesse desorientado apenas por causa da queda da polis. Ele não estava desorientado coisíssima nenhuma, estava com a Lei de Moisés debaixo do braço, sabia perfeitamente o que estava fazendo, então não padece pessoalmente da confusão ambiente.

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