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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 12
Filosofia Islâmica
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

A partir dos caracteres gerais da Escolástica, da constituição do trabalho intelectual na Universidade medieval, normalmente continuaríamos dizendo algo sobre os maiores filósofos escolásticos – São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, Duns Scot, etc. Para não perdermos a cronologia, porém, vamos dar uma espiada no que estava se passando no mundo islâmico, porque houve uma série de contatos entre os filósofos ocidentais e os filósofos islâmicos. Esses contatos tiveram uma grande repercussão no próprio curso que as coisas vieram a tomar no Ocidente. Vejam, por exemplo, que Santo Tomás de Aquino chega a escrever um livro inteiro discutindo com Averróis – o chamado Averróis, Ibn Ruchd –, e há uma série de marcas que ainda são reconhecíveis na filosofia do Ocidente. Praticamente, qualquer História da Filosofia que toque no período medieval mencionará não só Averróis, como também Avicena, Al-Ghazali, às vezes Al-Kindi.

Ou seja, alguns filósofos islâmicos desse período são bastante conhecidos e chegam a ter algum interesse para o Ocidente até hoje. No entanto, considerando-se as coisas desde o ponto de vista do próprio mundo islâmico, a figura que esse panorama toma é tão diferente que a gente tem a impressão de estar vivendo uma alucinação, pois aqueles filósofos, justamente aqueles que tiveram uma influência grande no Ocidente, ocupam um lugar muito modesto dentro da tradição filosófica islâmica. Ademais, justo no momento em que cessam praticamente os contatos intelectuais entre o Ocidente e o mundo islâmico, é ali que está começando um florescimento filosófico fora do comum em vários países islâmicos, sobretudo na Pérsia.

Talvez por não termos tido contato com esse florescimento filosófico da Pérsia é que o termo geral pelo qual os filósofos islâmicos são conhecidos no Ocidente ainda continua sendo o dos filósofos árabes. Vejam que o número de árabes no total é reduzido; se pegarem a totalidade do mundo islâmico, mesmo se medirem a população, os árabes constituem 8%. Hoje em dia, a maioria dos muçulmanos constitui-se de extremoorientais, africanos, etc., e há os árabes, que têm o privilégio de ter sido os iniciadores, mas que numericamente não são nada. Se formos fazer a lista dos filósofos islâmicos, então, acho que os árabes mesmo, propriamente ditos, serão menos de 2%, e os persas, se tomarmos o total, serão uns 80% – quer dizer, a Pérsia deve ser considerada a grande capital da filosofia no mundo islâmico. Não compreenderemos o que causou isso, porque, evidentemente, um florescimento intelectual não tem outra causa a não ser o fato de que as pessoas decidem produzi-lo – ou seja, é a própria liberdade humana e a capacidade que o decidem. Mas existem certas condições externas como, por exemplo, a própria organização do trabalho intelectual, que facilitam ou dificultam.

Desde logo, não encontramos no mundo islâmico nenhum fenômeno parecido ao que entendemos por Igreja, isto é, uma organização centralizada com uma administração burocrática e um corpo de estudiosos encarregados de fixar e desenvolver o que seria a interpretação admitida das Escrituras. Nada disso existe no mundo islâmico, não há uma entidade como essa. Em segundo lugar, também não houve, durante muito tempo – e praticamente só aparecerá no mundo moderno –, uma entidade que pudéssemos comparar à Universidade européia. Em terceiro lugar, toda a distribuição dos papéis que existem entre os vários personagens, os vários atores do cenário intelectual, não corresponde em nada ao que possa existir no Ocidente. Desse modo, para começar a mapear isto, tem-se que começar tudo de novo, partindo do dado fundamental, que é justamente a Revelação corânica, a partir do momento em que o texto do Corão se considera encerrado... O processo de revelação leva 28 anos, vai sendo ditado aos poucos; são versículos ditados pelo Arcanjo Gabriel a Maomé no curso desses anos.

A história desses 28 anos mostra uma espécie de contraponto entre os acontecimentos terrestres e a seqüência da Revelação. Se o sujeito acha que tudo é uma invencionice, que o Islã não é uma religião de maneira alguma, ele faria bem em examinar isso e ver se algum ser humano consegue produzir tantas coincidências ao longo de 28 anos. Isso é absolutamente impossível. Há duas histórias se passando ao mesmo tempo. Aliás, são três histórias: a história do Islã, a vida de Maomé (Mohamed), e há a seqüência da Revelação. Essas três coisas estão tão bem entrelaçadas que se vê que é realmente um enredo, algo que um ser humano talvez conseguisse inventar, mas não realizar.

O elemento fundamental da Revelação é, evidentemente, o próprio texto do Corão, o qual é um fenômeno extraordinário em si mesmo, pelo fato de que o portador da Revelação, o receptor da mensagem, é totalmente analfabeto. E o Corão é não só uma obra-prima da língua árabe: é a obra-prima e a obra modelar da língua árabe, praticamente funda a língua árabe. Não existe um fenômeno literário similar a que a gente possa comparar. Mais ou menos, mutatis mutandis, guardadas as devidas proporções, diríamos que o Corão tem para a língua árabe a função inaugural, fundante, que a tradução da Bíblia em alemão teve para a cultura alemã – a tradução de Lutero. Mas, mesmo assim, a comparação é falha, porque o Corão realmente fixa os padrões gramaticais, estilísticos, semânticos, etc., que até hoje vigoram na língua árabe. O fenômeno em si já é tão esquisito!... Como é que um sujeito que não sabe escrever consegue pegar uma coisa dessas e ditar? A possibilidade de que ele tivesse inventado tudo aquilo é praticamente nula. E, segundo, o texto do Corão tem uma série de propriedades estruturais internas que são realmente muito estranhas. Por exemplo, existe toda uma arte da correspondência entre letras e números: somando-se os algarismos correspondentes a uma certa frase, obtém-se um outro versículo, que sempre tem alguma correspondência com ele, uma resposta, uma complementação, etc. Em terceiro lugar, existe todo o aspecto musical, rítmico da obra (chega a ser assustador quando se ouve a recitação).

O mínimo que a gente pensa é que quem escreveu isto não foi gente não. Tem alguma coisa ali. Não sabemos exatamente o que, mas que tem, tem. E precisamos levar em conta também que, se no mundo cristão o centro da Revelação são os acontecimentos reais – isto é, vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo –, no caso islâmico a vida de Maomé não é objeto de Revelação. É o contrário: ela é apenas o canal por onde virá a Revelação propriamente dita, que é constituída de um Livro. A vida de Maomé, esses 28 anos de história islâmica, é apenas o canal terrestre pelo qual o texto do Livro terminou de se manifestar. Concluída então a Revelação (e Maomé faz um discurso anunciando, depois do último versículo: “Olha, agora se completou, acabou, esta é a religião que está aí para vocês”), aos poucos começa a se formar dentro do mundo islâmico uma certa tradição de interpretação do Corão. Nas primeiras décadas, tal como acontece também no mundo cristão, não há muitos problemas de interpretação, porque ainda se tem o impacto da experiência histórica direta que parece sugerir imediatamente o sentido da Revelação; o texto ainda está muito imbricado com os acontecimentos históricos que o manifestaram. Se juntarmos o texto, o personagem e a situação, então certamente não há grandes problemas hermenêuticos ali – e durante a vida de Maomé havia de fato muito menos esse problema, pois, em caso de dúvida, se não se entendesse um versículo, ele mesmo se incumbia de esclarecer.

De todos os profetas conhecidos na história humana, Maomé é aquele do qual mais se sabe. Sua vida foi praticamente documentada minuto a minuto, o que o torna enormemente diferente dos profetas hebraicos, dos quais se só sabe aquilo que eles mesmos disseram. Não adianta pegar um livro da Bíblia para obter informações sobre o outro profeta, porque praticamente não se tem outra fonte. Mas, no caso de Maomé, havia um número muito grande de testemunhas, todos os seus seguidores, que ainda tiveram o cuidado de anotar: anotavam o que ele fazia, o que ele dizia... Foram compondo uma espécie de biografia em vida, com ênfase nas coisas que ele declarava, porque funcionavam como interpretação ou como explicação do Corão. Mas acontece que seus atos, incluindo os atos cotidianos, também eram interpretados assim – pois, se ele era o primeiro que havia recebido, supunha-se que seu modo de vida, seus hábitos, etc. eram uma espécie de tradução viva da norma corânica. Então, tudo o que ele fazia era anotado, inclusive os hábitos aparentemente mais banais, e isso forma um corpo de documentação enorme.

É claro que, com o tempo, aparecem também os depoimentos falsos, do sujeito que não viu nada, mas que, como quer ser importante, fala: “Eu vi, ele falou tal coisa...”. O primeiro grande problema que surge no mundo islâmico – problema teológico, por assim dizer – é então o da própria seleção do que seriam os depoimentos válidos. Não tenho nenhuma prova disso, mas já li em vários lugares que existem aproximadamente quarenta mil desses depoimentos. É lógico que, destes, há edições que circulam com dois mil, três mil, mas parece que somam quarenta mil. Mais ainda: existem outros depoimentos que dizem respeito aos sucessores e aos descendentes imediatos de Maomé, como seu sogro, seu genro (que depois vem a desempenhar um papel muito importante para o mundo persa) e sua filha Fátima. Tudo isso faz parte, seria a documentação que cerca o Corão. O Corão não tem mais de 280 a trezentas páginas. Claro que essas 280 estão escritas em uma das línguas mais sintéticas do mundo (a língua árabe é enormemente comprimida; na tradução, um termo vai dar dez palavras em português), mas, afinal de contas, é um livro pequeno. Já a documentação em torno é enorme.

A situação começa a se complicar também a partir da morte de Maomé, pois o Corão, que é tão meticuloso no que diz respeito à constituição da sociedade civil (lá existe todo um código civil, correspondente ao nosso: as leis do comércio, do casamento, da agricultura, da educação, etc.), não traz uma palavra sobre a constituição da sociedade política, ou seja, do Estado. Não existe, e por mais que se tente tirar dali uma concepção do Estado, o máximo que se tem são certas normas gerais que teoricamente deveriam ser seguidas por quaisquer governantes, qualquer que fosse o regime, qualquer que fosse a concepção do Estado. Seriam normas morais ou normas relativas à própria sociedade civil.

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