Aula 13
Filosofia Cristã
Livro + DVD
Trecho
(10 primeiras páginas)
Como não acredito muito no ensino puramente expositivo de Filosofia – simplesmente expor uma doutrina tal como ela está nos livros que a apresentam, esvaziando portanto seu problematismo, que é uma característica de toda filosofia –, adoto sempre o método de discutir ao máximo e tentar de algum modo argumentar, justificar as filosofias na medida do possível. O inconveniente disso é que a gente acaba às vezes se concentrando muito em algumas e perdendo vários detalhes que vão ficando pelo caminho, esquecendo vários autores, sendo depois obrigados a voltar um pouco atrás.
É exatamente isso que vou fazer hoje: farei um retrospecto da filosofia cristã, pelo menos até chegar a Santo Anselmo, de modo a costurar os vários pedaços. Na aula passada, nós nos aprofundamos tremendamente na questão da individuação de Duns Scot – sem dúvida, uma questão importantíssima –, mas com isso deixamos de lado vários passos importantes da história, então hoje vamos voltar um pouco atrás.
Eu não sei se esse conceito de “filosofia medieval” está muito certo, porque existe uma continuidade da filosofia cristã, desde os primeiros padres até pelo menos São Boaventura. É com a entrada dos escritos de Aristóteles (que eram desconhecidos, porque até então se conhecia apenas uma parte, a outra retorna através dos árabes) e só a partir daí que, com Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino, já em pleno século XIII, a coisa toma uma direção nova e diferente.
Posso estar errado, mas vejo uma perfeita continuidade da filosofia cristã desde a Patrística até pelo menos as vésperas da chegada dos escritos aristotélicos. Nesse sentido, o conceito de “filosofia medieval” perde um pouco de substância. Ademais, temos ainda o problema de que, durante os séculos em que a atividade filosófica ficou praticamente em suspenso no Ocidente, havia intensa discussão em Bizâncio, e essa filosofia bizantina também mais tarde vai fecundar todo o mundo islâmico através da Pérsia. É então difícil ou impossível, ou até inconveniente, dividi-la em períodos. É mais fácil dividi-la em certas linhagens de pensamento, que continuam às vezes por cima das eras e, pelo menos intelectualmente, as descaracterizam um pouco, apagam um pouco as fronteiras entre elas.
O chamado período da Patrística, por exemplo, que iria até o século V, culmina evidentemente em Santo Agostinho, mas continuará havendo uma linhagem agostiniana (na verdade, existe até hoje), da qual uma das expressões maiores é São Boaventura, um contemporâneo de Santo Tomás de Aquino. Se havia um agostinismo, então era a própria Patrística que de certo modo continuava viva ali dentro.
A diferença entre a Patrística e a Escolástica será mais de ordem filológica do que filosófica. Começamos a falar de Escolástica a partir do momento em que existe um ensino organizado, e a preocupação de expor sistematicamente a doutrina cristã começa a tomar forma em dois gêneros literários bem característicos. Um gênero são os chamados livros de sentenças. Sentença é a conclusão de uma discussão, portanto, aquilo que era admitido como conclusão válida; seria, então, a formulação válida da doutrina. Existem vários livros de sentenças elaborados durante toda a Idade Média, sendo um dos mais famosos o de Pedro Lombardo, que servirá de base para muitas discussões. O segundo gênero literário são as sumas, a respeito das quais já expliquei. A partir do momento em que se tem esses dois gêneros caracterizados – livros de sentenças e sumas –, é aí que se fala de Escolástica. Mas isto não quer dizer que haja uma diferença substantiva de conteúdo filosófico entre o período patrístico – principalmente Agostinho – e o período escolástico, sobretudo quando se trata de São Boaventura, que é sem dúvida uma segunda edição de Santo Agostinho.
Nesse período chamado “patrístico” – e sei que não é uma distinção filosófica, mas filológica –, existe uma grande diferença entre a chamada Patrística grega e a Patrística latina, que se expressa justamente na discussão das relações entre o cristianismo e a filosofia. Os padres gregos preferiam enfatizar uma continuidade do mundo grego para o cristão, no sentido que, mais tarde, dirá Clemente de Alexandria: “a filosofia é o pedagogo que leva a alma até Jesus Cristo”. Já a Patrística latina – sobretudo com Tertuliano, Arnóbio, Minucio Félix e outros – tomará uma direção francamente antagônica à filosofia, que chega a ser considerada por Minucio Félix a “mãe de todas as heresias”. É uma discussão interna dos padres.
Isto é só para dar uma idéia de como esta crença de que existia um pensamento cristão monolítico até a Renascença é cultura de almanaque, é uma bobagem sem tamanho. Houve mais discussão, houve muito mais antagonismos lá do que entre os enciclopedistas, por exemplo. Os enciclopedistas do século XVIII estavam todos muito mais em acordo sobre pontos fundamentais do que os padres da Igreja. Uma questão como esta: “Qual é a posição que tomamos com relação à Academia, a Platão e a Aristóteles?” Há aí posições opostas de 180°, que vão sendo elaboradas até que se chega mais ou menos, com Clemente e Orígines, a uma espécie de síntese.
O mais curioso dentro da Patrística latina é que, com sua preocupação extrema de evitar a contaminação da heresia, ela mesma acaba produzindo heresias. O horror aos heréticos não lhe preserva de ser um deles, então a proteção do Espírito Santo não vem necessariamente para aqueles que são mais zelosos na ortodoxia. Vê-se que Tertuliano e Minucio Félix estavam perfeitamente de acordo nisso: que todas as heresias nascem da filosofia, que nada do que a filosofia diga tem a mais mínima importância, o que importava era a tradição.
O que se entende por tradição aí? É fácil perceber que, no século II, quando esses acontecimentos se passaram, a palavra “tradição” deve ter tido um sentido bem diferente do que terá dezoito séculos mais tarde. Hoje, a tradição nos evoca sobretudo uma coisa antiga e de origens imemoriais. Mas não era isso, evidentemente, o que eles tinham em vista; o que eles tinham em vista era a transmissão direta do testemunho oral. Vocês não podem esquecer que os quatro Evangelhos – que a Igreja aceitou como versões definitivas, porque eram coerentes entre si – não contêm tudo a respeito do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Existe uma parcela imensa que foi transmitida por ensinamento oral a partir dos primeiros testemunhos. A confiabilidade desses testemunhos é a base da tradição.
Como expliquei da outra vez, o cristianismo não é uma doutrina, ele aparece como um fato. E um fato não se expõe, mas se narra, então a doutrina será obtida a partir de uma elaboração racional dessa experiência vivida, espremendo-a dialeticamente para que nos diga o que significa. Nesse esforço, evidentemente, a margem de erro é muito grande. É claro que mais importante do que obter o sentido doutrinal é preservar o próprio testemunho dos fatos, porque eles são a própria base da discussão.
Também era bastante evidente a esses primeiros padres que muitas pessoas puderam se beneficiar do acontecimento cristão sem ter uma clara compreensão da doutrina – então a clara compreensão da doutrina era desejável, mas não tão urgente assim. A exposição da doutrina se tornava mais importante à medida que apareciam as objeções, os adversários, e que, dentro da própria área cristã, surgiam as heresias.
Não se esqueçam de que heresia não é qualquer doutrina anticristã; mas, para ser uma heresia, é necessário que seja uma doutrina cristã, quer dizer, uma doutrina que surge de dentro do cristianismo. O budismo, por exemplo, não é uma heresia, é simplesmente outra coisa, é outra religião. Uma heresia é uma doutrina que se apresenta como uma exposição dos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e que, no entanto, não o é – não o é inteiramente, ou não o é exatamente.
Surgem, então, por um lado, os antagonismos e, por outro lado, as heresias. É isto que vai tornando necessárias a elaboração e a exposição doutrinais. Ou seja, a doutrina tinha mais uma finalidade polêmica e de ensino do que propriamente religiosa. Se puderam chegar até o século II sem doutrina, talvez desse para ficar mais ou menos assim durante algum tempo, bastando narrar os acontecimentos, narrar a boa notícia (“evangelho” quer dizer exatamente isso), de tal modo que os benefícios espirituais se alastrassem por outras pessoas, mesmo elas não tendo uma clara compreensão doutrinal do que se passava, porque na verdade ninguém tinha nesta época.
Hoje, os historiadores expõem esta polêmica como uma polêmica doutrinal. Não vejo assim de maneira alguma, porque aqueles que se opunham à filosofia não estavam se opondo a uma doutrina, mas a um tipo de discussão, a uma discussão. No fundo, o que eles estavam dizendo é o seguinte: “Não é a discussão que interessa; o que interessa é a transmissão da experiência vivida, a transmissão do fato”. O testemunho interessa muito mais do que a discussão; o testemunho salva, cura, e a discussão é no mínimo ambígua, pois ela tanto pode levar para um lado como para o outro. Então, se você achar que existia uma doutrina que era pró-filosófica e outra que era antifilosófica, não vai entender coisa alguma. Os que são antagônicos à filosofia – como Tertuliano, Minucio Félix, Lactâncio – não têm uma doutrina para opor à filosofia: são contra a própria discussão filosófica.
....................................
|
|