Aula 16
Xavier Zubiri e a Escolástica
Livro + DVD
Trecho
(10 primeiras páginas)
Tenho a impressão de que não vai ser necessário a gente se estender muito sobre Santo Tomás de Aquino, porque toda a problemática da Escolástica que a gente veio expondo é justamente o que conflui nesse sistema dele e ali encontra uma formulação mais ou menos estável. É importante apenas ressaltar que, quando se diz que o grande esforço de Tomás de Aquino foi conciliar a filosofia de Aristóteles com a religião cristã, as pessoas então imaginam que isso é um trabalho meramente externo, que não há propriamente uma obra filosófica nisso, e aí se iludem pelo nome. Partir de duas doutrinas recebidas e encontrar seus pontos de concordância parece mais um trabalho de arquivista, de compilador. Mas isso é uma impressão brutalmente errada que se tem, porque os problemas ali eram enormemente difíceis. Na verdade, muitos deles eram insolúveis. E, pensando bem, todo e qualquer filósofo não fez nada mais do que dar um jeito em idéias que já vinham de antes. Aristóteles já dizia que todo conhecimento novo vem de algum conhecimento antigo. Sempre se pode, na obra de qualquer filósofo, desmembrar os elementos herdados que chegam até ele e que, ou ele absorve uma parte, absorve por concordância, ou absorve sob a forma de problemas a resolver. E, no caso de Aristóteles, ele trouxe mais problemas, na verdade, do que soluções.
O primeiro dos problemas era, evidentemente, a própria questão da eternidade do mundo. Não devemos esquecer que o conceito de Deus de Aristóteles é somente o de um primeiro motor imóvel – a expressão que até hoje é muito mal compreendida, porque se entende o motor mais ou menos no sentido mecanicístico, de uma causa física, e de fato não é isso. Aristóteles explica que este primeiro motor imóvel move tudo por uma espécie de atração, como se fosse amorosa. Não é uma ação mecânica. O primeiro motor não é uma primeira bolinha, que bate na segunda bolinha, que bate na terceira bolinha... Não é assim. O primeiro motor é primeiro na série temporal. Mas não se pode esquecer que é uma série que não é composta de entidades do mesmo gênero. O primeiro motor abrange tudo o que vem em seguida, e de certo modo nada está fora dele. Como diria São Paulo Apóstolo: “Nele vivemos, nos movemos e somos”. O primeiro motor não é uma causa eficiente apenas, mas é o instaurador da própria realidade de tudo. Ele é o doador de realidade. Nesse sentido, o primeiro motor imóvel de Aristóteles pode se identificar com o Ser. Mas como é que você ia fazer para puxar deste primeiro motor imóvel a doutrina da Trindade, a Encarnação, a Salvação, etc.? Tudo isto é tão fora do universo aristotélico que não foi fácil encaixar uma coisa na outra!
Um segundo problema era o da eternidade do mundo. O fato de um mundo existente ter um primeiro motor imóvel não quer dizer que existisse algo antes dele. Esse “primeiro” significa primeiro na ordem da hierarquia. É a realidade fundante, mas não necessariamente a realidade anterior em sentido cronológico. Aristóteles em nenhum momento concebe algo anterior à existência do Universo tal como conhecido. Então esse primeiro motor é um primeiro motor permanente, ele é o fundamento constante e permanente de tudo o que existe. Isso também não se coadunava de maneira alguma com a idéia de uma criação ex nihilo, de uma criação do nada, o que supõe uma espécie de um pré-mundo divino que seria anterior a toda a existência do Universo conhecido. Isso significa então que a noção do Deus transcendente, em Santo Tomás, é imensamente mais complexa do que em Aristóteles. Um terceiro problema era o da unidade do intelecto. Aristóteles não tinha a menor noção da questão da imortalidade da alma individual, e isso também colocava para Santo Tomás de Aquino um problema terrificante, que ele vai tratar através de uma polêmica com Averróis. Este subscreve literalmente a tese de Aristóteles de que toda a alma humana é mortal, de que tudo que existe no ser humano é mortal, e de que somente o intelecto é imortal. Mas o intelecto não se pode dizer propriamente que pertença a este indivíduo ou àquele indivíduo. Aristóteles é, na verdade, obscuro quanto a esse ponto. Não é que ele afirme que só existe um intelecto para todos. Ele não afirma propriamente isso: deixa mais ou menos implícito sem resolver o problema. Averróis interpreta isso no sentido de uma afirmação da unidade do intelecto – então só haveria na verdade uma única alma que subsiste, e todas as outras almas são mortais. Isto aí também não se coaduna em nada com a doutrina cristã, e Santo Tomás escreve toda uma polêmica com Averróis para demonstrar a impossibilidade disso.
A coisa característica de Santo Tomás é justamente o senso de unidade que ele consegue dar a uma visão do mundo que começa em Deus e que, através das potências angélicas que ele chama “substâncias separadas”, cria e move todas as criaturas, inclusive a criatura humana, dentro de um esquema unitário no qual o livrearbítrio humano se encaixa de uma maneira quase mágica. E a coisa mais curiosa desse sistema de Santo Tomás de Aquino é a sua imensa flexibilidade. Ele praticamente se adapta a qualquer inovação científica que tenha aparecido depois disso. Não tem um único ponto do sistema de Santo Tomás de Aquino que você possa dizer que tal ou qual descoberta científica impugnou. O negócio é de uma flexibilidade realmente assombrosa, o que torna até mesmo difícil a exposição do “sistema” de Santo Tomás. O sistema é muito simples, e suas bases são exatamente as mesmas de Aristóteles, só que para tudo aquilo que em Aristóteles era problema e era falha de repente aparece alguma solução.
Um ponto que me parece fraco no sistema de Santo Tomás é sua polêmica com os agostinianos no concernente à origem do conhecimento, em que ele adere à teoria aristotélica da abstração negando, então, a idéia agostiniana da iluminação divina. Santo Agostinho dizia que como nós só temos, pelos sentidos, acesso ao conhecimento de substâncias individuais, então o fato de podermos ter idéias universais é um milagre. Você nunca viu uma espécie, só vê um exemplar, outro, outro... De onde você tira a idéia de espécie? De onde tira esses universais, a ponto de conseguir montar raciocínios inteiros com eles sem ter imediatamente nenhum apoio na experiência, exceto esse apoio muito fraco que é a indução, e no final chegar a conclusões que a experiência confirma? Esse é um negócio quase miraculoso. Então, entre a experiência sensível e a formação dos universais, Agostinho via a intervenção de uma iluminação divina. Ele dizia: “A inteligência abstrata humana, o fato de se conseguir raciocinar com universais, já é algo miraculoso”.
Santo Tomás de Aquino não aceita isso e apela à teoria aristotélica da abstração. Que é isso? Significa que cada ente, cada substância individual traz na sua própria presença, na sua própria manifestação, sua própria forma inteligível, que é a forma da espécie. Então basta que na memória você consiga separar o que é a presença, o substrato físico individualizado, e pensar somente na forma essencial, e essa forma essencial do indivíduo já é a forma da espécie.
Isso me parece altamente problemático, porque, primeiro, implica já não um milagre, mas dois milagres. Pela teoria da iluminação, a inteligência divina socorria a inteligência humana fazendo uma espécie de upgrade, e você conseguia criar conceitos que estavam infinitamente além da sua experiência. Então o milagre se operava na inteligência. Mas o fato de que a forma essencial esteja manifesta na própria presença física dos entes já é um milagre que se dá não na inteligência, mas nos próprios entes. Há uma miraculosa coincidência aí de que a inteligência, quando olha os entes, não vai captar apenas a infinidade de acidentes que o cercam: vai captar esses acidentes em torno de uma forma essencial. Se você pensar bem, isto é ainda mais miraculoso. Por que nós temos que fazer isso? Por que a inteligência vai acertar exatamente neste ponto?
Eu já dei o exemplo de que, se você fosse obter os conceitos universais por comparação de substâncias particulares, jamais conseguiria. Porque você olha uma substância, olha outra, olha outra... E o que de uma você vai comparar com o que de outra? Por exemplo, se você tiver uma multidão de gatos, no primeiro gato você repara na cor, no segundo repara no formato, no terceiro repara no tamanho, no quarto repara na posição, no quinto repara que está miando, no sexto repara que está mamando na mãe, e assim por diante. O número de acidentes é infinito, e na verdade é isto que você recebe como dado sensível. Isso quer dizer que, se na primeira vez você já não captasse diretamente a forma essencial, não teria o que comparar com o segundo, com o terceiro ou com o quarto... Então é claro que não é por comparação; basta um único exemplar para que você pegue a forma essencial. Mas isto acontece sempre? É claro que não! Numa infinidade de casos, você pega apenas os acidentes e não capta forma essencial alguma. Percebe mais ou menos o que está acontecendo, mas não percebe para quem está acontecendo, quem é o sujeito da ação. Então o fato de que não haja um número muito maior de erros, o fato de que, por um lado, os entes manifestem tão claramente a sua forma essencial, tão ingenuamente, tão honestamente a sua forma essencial, ao invés de escondê-la, isso já é um milagre. Nada impediria o mundo de ser um amálgama de acidentes e que você custasse muito para captar alguma forma essencial lá embaixo. E, em segundo lugar, existe o milagre de que a inteligência consegue fixar a atenção na forma essencial. A teoria da abstração me parece que, longe de impugnar a idéia da iluminação divina, ela a subentende.
Muito mais tarde, Xavier Zubiri, que não é propriamente um escolástico, mas um herdeiro de toda a problemática escolástica – que ele elabora e transcende infinitamente –, dirá que só o ser humano apreende as coisas como realidade, os animais apreendem apenas como estimulidade. Então, no exemplo que ele dá, diz: “Um animal percebe, por exemplo, se está sentindo calor ou frio, mas nós percebemos que o calor é quente, mesmo que não esteja fazendo calor”. Ele diz: “Isso que nós chamamos ‘realidade’ é a formalidade que corresponde ao modo de apreensão, ao modo de percepção sensível do ser humano. Perceber realidade é próprio do ser humano”. Então a realidade, no sentido objetivo, realmente só existe para o ser humano. Isto é a mesma coisa que dizer que os universais em sentido pleno só o ser humano apreende, porque os universais são abstraídos de uma percepção de realidade e não de uma percepção de mera estimulidade.
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