Aula 17
Escolástica II
Retorno da articulação do conhecimento
Livro + DVD
Trecho
(10 primeiras páginas)
Na última aula estávamos falando sobre Santo Tomás e o comparando com Xavier Zubiri. Minha idéia hoje é a seguinte: como estamos mais ou menos na metade do assunto, vou fazer um retrospecto de tudo e comprimir essa narração num tempo mais breve, de modo que alguns traços que a gente gostaria de ressaltar aparecessem melhor. Então, antes de sair da Idade Média, porque na próxima já vamos entrar em Meister Eckart, já entrando numa outra atmosfera completamente diferente, vamos fazer um retrospecto, repassar tudo de uma vez.
Se vocês se lembram, a gente começou o curso fazendo aquela comparação entre os vários modelos de História da Filosofia que existiam, resumidos esquematicamente em três, dizendo por que eles não serviam para os nossos propósitos, e que íamos tentar um outro método que, ao mesmo tempo, escapasse da idéia hegeliana de um desenvolvimento contínuo e unitário da história do pensamento, como se fosse pensada por um único Espírito (a idéia desse desenvolvimento interno perpassa toda a filosofia alemã; todos os alemães têm uma espécie de obsessão desse desenvolvimento do Espírito, uma idéia que começa com Meister Eckart e vai até Karl Marx pelo menos), de modo que, por um lado, escapássemos dessa idéia e, por outro lado, escapássemos também da idéia da filosofia como expressão da cultura do seu tempo, coisa que às vezes ela é e às vezes não é. E dissemos que não víamos outra maneira de fazer isto senão captando a filosofia no seu surgimento como uma proposta, um apelo que não nasce realizado, mas que deixa algo para ser realizado pelas gerações seguintes, e que de fato chega a ter uma história porque o projeto não se realiza. Ele não se realiza, mas também não é abandonado – e não chega a se realizar em parte pela própria natureza do projeto.
Quando definimos a filosofia como a unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa, quisemos dizer que, em qualquer etapa da história do desenvolvimento da cultura, é claro que existe uma certa unidade do conhecimento disponível, quer ela seja percebida ou não, quer seja uma unidade apenas objetiva, quer seja percebida como tal, isto é, como uma unidade subjetiva também.
Mas como se articula essa unidade? Existe uma articulação social. Todos nós sabemos que o conhecimento não se encontra em nossa sociedade de uma maneira puramente anárquica, mas que ele tem uma certa forma que a gente vê, por exemplo, nas instituições de cultura e de ensino. A própria divisão, a própria denominação dessas instituições pressupõe que acreditemos numa certa organização do conhecimento – e organização significa, em última análise, unidade. Se você pega uma universidade, ela tem seus vários departamentos, então a chave classificatória desses departamentos, a divisão dos órgãos de pesquisa, etc. subentendem a idéia de uma organização e, portanto, de uma unidade do conhecimento.
Entendemos que essa unidade é apenas classificatória e prática, que ela é baseada não necessariamente na ordem interna do conhecimento, mas apenas na disposição social e administrativa de sua transmissão, de modo que, entre a ordem interna do conhecimento – se ela existe – e essa ordem externa pode haver um hiato total. Nada garante que haja uma relação entre uma coisa e outra.
Em função dessa mesma defasagem possível, o problema da unidade do conhecimento se coloca, então, de geração em geração, do ponto de vista do indivíduo que tenta abarcar o horizonte de sua cultura e compreendê-lo – e que para isso tenta pegar a chave da unidade subjacente, tenta reorganizar aquilo de tal modo que seja abarcável desde seu ponto de vista, desde sua consciência. E é exatamente isso que os filósofos fazem o tempo todo. Quando um filósofo busca os fundamentos do conhecimento existente... Fundamento, o que é? É a chave da unidade, é a explicação de por que as coisas têm esta hierarquia e não aquela. Disto todo filósofo de certa maneira está atrás; é isto que todos buscam, uns com maior sucesso, outros com menor sucesso. E o fato dessas várias chaves encontradas serem diferentes, isso no mínimo é uma fatalidade, porque entre a época de um e a época de outro, entre o lugar de um e o lugar de outro, há mudanças no próprio repertório material dos conhecimentos disponíveis. As situações sociais e culturais também são diferentes. Então existem muitas tentativas de unificação do conhecimento que, por definição, não podem terminar, porque elas refletem uma espécie de necessidade permanente.
[Aluno: Os (...) filósofos procuram isso, mas só os filósofos ou outros tipos também?]
Não, pode surgir a idéia de que haja outras chaves, e de fato elas existem. Por exemplo, a organização de uma universidade, em que medida isso é um problema filosófico? Até um certo ponto é um problema filosófico, mas até (...) obedecerá a outras coordenadas. [Aluno: (...). E uma outra ciência tentar unificar isso?] Não. A partir do século XIX, existe uma certa tendência de fazer que a organização do conhecimento se torne ela própria uma ciência, mas é uma possibilidade entre milhares. Isso nem resolve o problema nem o elimina, isto é, continua existindo como problema filosófico do mesmo modo, mesmo porque, se você fizer uma nova organização do conhecimento que se traduza numa nova estrutura da educação, num sistema total de educação, quem diz que isto vai satisfazer às exigências cognitivas de fulano ou sicrano em particular? Ele pode achar que não é assim; ele pode, por exemplo, exercer a crítica em cima disso. A crítica da organização do conhecimento também é busca da organização do conhecimento.
Além disso, isso não significa que o conhecimento socialmente organizado se organize numa forma que seja propícia à sua absorção pelo ser humano real. Você pode perfeitamente imaginar uma época em que exista uma grande acumulação de conhecimento disposto nas bibliotecas, nos institutos de pesquisa, nos museus, nas universidades, etc., e que aquilo seja inabarcável por qualquer ser humano concreto. Aliás, esta é uma situação que existe hoje. Então, a simples existência desta situação colocaria o problema de se isto, afinal de contas, é conhecimento, porque uma multidão de mistérios inabarcáveis... O Universo, antes de a gente começar a estudá-lo, já era uma multidão de mistérios inabarcáveis, e agora existe outro de nossa própria fabricação, que chamamos “cultura”. Então a cultura mesma se torna um problema, daí o desenvolvimento, desde o século XIX até hoje, de toda uma filosofia da cultura.
Que significado tem isso para nós? Isso quer dizer que a simples existência de uma massa de conhecimento, bem como a existência de uma organização externa, social, do conhecimento, não garante sua inteligibilidade, não garante sua significação, não garante sua possibilidade de absorção. Pensar sobre isto, então, é exatamente o que os filósofos fazem, continuando a fazer o que sempre fizeram. Isso quer dizer que o conhecimento nasce como um impulso da alma humana. É alguém que o busca, ele nunca nasce coletivamente, é sempre algum indivíduo. Não é possível uma busca coletiva do conhecimento. É sempre alguém que está atrás de alguma coisa, e mesmo que haja vários empenhados a responsabilidade individual é total. Mas o conhecimento encontrado e expresso vai se objetivando em obras, documentos, monumentos, etc. e cria uma espécie de camada de objetos que têm que ser, por sua vez, reinterpretados.
Isso quer dizer que o conhecimento não se transfere a outras pessoas na forma de conhecimento, mas na forma de objeto. O sujeito que escreve um livro diz: “Temos aqui as obras completas de Eric Voegelin”. O que isso quer dizer? Que ele vai transmitir a você o conhecimento que ele tem? Isso não: vai transmitir o registro disso. Ele não tem como inocular o conhecimento direto na sua cabeça, então você tem uma dupla decifração: tem a decifração dos problemas de que o sujeito tratou, dos objetos que lhe interessaram, e tem a decifração do objeto sobre o qual ele colocou o registro do que captou. Nessa simples passagem você já tem alguns problemas. Agora imagine quando não é um sujeito que está registrando o conhecimento, mas são milhares. Então você sempre terá duas camadas de problemas: primeiro, os problemas diretos, que seriam os assuntos; segundo, as formas de transmissão.
Para chegar a uma situação dessas, não é preciso nem esperar uma época histórica tardia, com sociedades tão complexas como a nossa. Isso aí numa tribo de índios já acontece. Basta ter uma certa quantidade de registros acumulados. E os registros passam a ser um problema também. Você tem que aprender primeiro a decifrá-los para depois entender do que eles estão falando. Isso quer dizer que, se o ser humano se dedica à busca do conhecimento, é porque ele tem o desejo da inteligibilidade, e a inteligibilidade significa a assimilação daquilo pela pessoa concreta dele. Não adianta estar muito bem organizado socialmente se ele não entende, se aquilo não tem significação para ele.
Existe também, em razão dessa dupla camada de conhecimentos, uma dupla atividade de decodificação – uma social, outra individual. Se você tem aqui uma matéria, o conteúdo de uma disciplina científica transmitida – por exemplo, História da Filosofia –, tem lá os princípios de organização desta matéria, então o professor vai transmitir de acordo com aquilo que ele sabe. E como é que você vai absorver aquilo? Vai ter que absorver nas suas estruturas, não nas do professor.
Esse trabalho da decodificação e da reorganização, da reunificação do conhecimento na mente do indivíduo, existe então de geração em geração, nunca pára. Quando isto se aprofunda a ponto de se tornar um estudo sistemático, de ter uma certa importância por si mesmo, temos o que se chama filosofia. Vejam que os primeiros filósofos de que temos notícia, dos pré-socráticos até Sócrates, todos eles estavam lidando com um legado de conhecimento que já havia circulação na sociedade: eles estudavam matemática, estudavam música, astronomia, retórica... Tudo isso já era um depósito social de conhecimento. Eles absorviam isso e, ao absorver, surgiam problemas – problemas não para a cultura, mas para o indivíduo que estava tentando entender aquilo. Na cultura aquilo não era um problema, era um legado que estava sendo transmitido.
Isso quer dizer que existe um desajuste entre o conhecimento socialmente acumulado e a inteligência do indivíduo. Existe sempre um hiato entre uma coisa e outra. Esse hiato pode ser preenchido apenas por meio de técnicas pedagógicas, etc., mas chega um momento em que o problema parece que não está na transmissão, mas no conteúdo mesmo do conhecimento. Este contém problemas que ele mesmo não consegue resolver, então é aí que entra a atividade do filósofo.
É por isso que não pode existir uma filosofia definitiva, isso é uma contradição de termos. Uma filosofia definitiva é como uma ginástica definitiva que uma geração faz e a seguinte não precisa mais fazer, pois já nasce musculoso, ou então a alimentação definitiva: uma geração come e a seguinte não precisa mais comer. Quer dizer, é uma atividade de assimilação e reorganização que tem que ser contínua. E o fato de que, ao longo do desenvolvimento da História da Filosofia, se chegue às vezes à solução de determinados problemas – e a isso eu chamo justamente esses “patamares”, e você não pode mais voltar para baixo deles –, bem, o problema continua, pois na geração seguinte você já vai ter outro problema.
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