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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 18
Santo Tomás de Aquino
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

O período medieval encontra uma culminação precisamente na obra de Santo Tomás de Aquino, na qual se trata de resolver um conflito cuja solução, embora tenha ocorrido na esfera teórica, acabou se revelando historicamente inútil. Isso quer dizer que a síntese tomista – que se enuncia erroneamente como a articulação de fé e razão, pois não é disso que se trata – procura evitar uma ruptura entre a cultura sacra e a cultura mundana, a qual, no entanto, acontece assim mesmo, nos séculos seguintes, como se nada tivesse sido feito.

É muito espantoso notarmos como é uma obra que consideramos tão importante, como a de Santo Tomás de Aquino, pôde exercer nos séculos seguintes uma influência tão pequena. Na verdade, só existe um movimento tomista a partir do século XIX, quando aparece o famoso neotomismo (que, se for pensar direito, é o único tomismo que existe), tendo sua influência, nos séculos anteriores, ficado restrita a pequeníssimos grupos de intelectuais, a maior parte deles já sem muita capacidade de acompanhar o nível de abordagem que ele estava dando. Portanto, o que se vê na filosofia de Santo Tomás é uma grande oportunidade perdida.

O problema de cultura sacra e cultura profana – como se equaciona a síntese, não como fé e razão, porque dentro da cultura profana existem elementos de fé e dentro da cultura sacra existem elementos científicos e racionais – era colocado não por uma questão dogmática, mas por uma questão muito real, que era a própria função da Igreja na civilização européia. A Igreja, após a dissolução do Império Romano, assume temporariamente certas funções administrativas, tornando-se em certos lugares o único fator de ordem social que existe, e isto a vai sobrecarregando de uma série de funções que não lhe pertenciam originariamente.

É também preciso ver que, se pensarmos numa fórmula política baseada no Evangelho, ela é bem difícil de se deduzir, pois o Evangelho não dá a menor dica quanto a esse ponto. Ao estabelecer o “Dai a César o que é de César”, fica um pouco nebuloso saber exatamente onde é que termina o reino de César e começa o reino de Deus. No entanto, o fato é que, com o desmantelamento da antiga cultura imperial romana, a Igreja cria uma nova síntese civilizacional, dá a toda a população um novo sentido de vida completamente diferente do romano, e de algum modo esse novo sentido de vida tem que se estender a todos os domínios da realidade, incluindo a chamada vida profana.

Na verdade, o conceito de “profano” é um pouco posterior, e é justamente nesse período que começa a se delinear uma distinção entre esses dois domínios. O problema com a chamada “cultura profana” é que a própria influência da filosofia grega, que seria o protótipo do conhecimento racional teoricamente independente da Revelação, vem pelas mãos dos escolásticos – portanto, são os mesmos indivíduos que estão promovendo a cultura religiosa e a chamada cultura profana. Temos, então, por um lado, aqueles velhos problemas, que já enunciei, sobre a articulação racional da doutrina cristã, ou seja, da transformação do fato evangélico ou do mito evangélico (podemos chamá-lo assim com a ressalva de que é um mito que aconteceu de verdade) em doutrina, usando instrumentos que não haviam sido criados para isso, qual seja, basicamente a lógica de Aristóteles; e o outro problema, que é o das relações entre a Igreja e o governo civil. Esses dois problemas acabam de algum modo se confundindo, isto é, a relação entre Revelação e ciência forma um paralelo com a articulação entre a Igreja e o poder mundano.

Santo Tomás de Aquino percebe que é preciso encontrar alguma nova fórmula que já não seja uma simples justaposição das duas coisas, mas que crie uma espécie de um elo orgânico. É por isso que não se pode equacionar essa síntese como fé e razão, como se fossem duas espécies do mesmo gênero ou uma contraposição, ou mesmo uma harmonia, porque de fato não é assim que ele a vê. Para ilustrar isto, a melhor coisa é examinar sua obra Suma contra os gentios – a Suma teológica é dirigida aos próprios estudiosos da religião católica, e a Suma contra os gentios é basicamente uma discussão com os intelectuais muçulmanos. Santo Tomás diz o seguinte: quando discutimos com cristãos, podemos apelar à autoridade do Evangelho; quando discutimos com judeus, podemos apelar à autoridade da Torah; mas quando discutimos com muçulmanos, não temos uma base revelada comum, então precisamos nos reportar à razão.

Acontece que essa palavra “razão”, nesse contexto, tinha um sentido muito diferente do que entendemos hoje – ou seja, basicamente como a capacidade de raciocínio lógico –, e Santo Tomás, no caso, queria dizer muito mais que isso. Ao dialogar com os muçulmanos, ele contava com o fato de que eles tinham uma visão da estrutura da realidade mais ou menos idêntica à dos cristãos, à dos gregos ou à dos romanos, e com a palavra “razão” está se reportando de fato a uma certa estrutura de percepção da realidade que é comum a todos, mas que já não é comum à nossa sociedade. Então, quando lemos essa referência à razão, nós freqüentemente a entendemos mal. Santo Tomás está se reportando, em última análise, àquele mesmo esquema de seis pontas que já comentei e que resumi no artigo “Para uma antropologia filosófica.”1 Quando fala com os muçulmanos, sabe que eles estão de certo modo dentro do mesmo mundo em que ele próprio está, cuja forma total é, em última análise, definida pela pergunta que séculos depois será formulada por Leibniz, quando diz: “Por que existe o ser e não antes o nada?”. 1 Publicado em O Globo, em 19 jul. 2003. Disponível [on-line] em www.olavodecarvalho.org/semana/030719globo.htm.

Essa pergunta é fundamental, está presente em todas as civilizações, é a chave de abóbada de toda visão mais ou menos normal da existência, isto é, saber que o conjunto do Universo manifestado, conhecido ou cognoscível, se tomado como totalidade, é um ponto de interrogação, e cuja explicação tem de estar de algum modo para além dele. Hoje essa pergunta se tornou tão incompreensível que, quando a colocamos para uma mentalidade moderna, nos respondem: “Mas isto é fácil: houve um big bang, havia um grãozinho de matéria do tamanho de uma cabeça de alfinete onde a lei da gravidade operava com todo seu impacto, então ocorreu, por um motivo qualquer, uma suspensão momentânea da lei da gravidade e deu-se a expansão do Universo”. É difícil pôr na cabeça do sujeito que esse grãozinho de matéria não é um nada, já é alguma coisa, já é Universo. Então digo: “Eu pergunto qual é o fundamento, qual é a explicação, qual é a razão de ser do Universo, e você me responde citando uma época em que o Universo era pequenininho. Você está confundindo a expansão do Universo com a sua criação”. Sendo assim, a explicação cosmológica moderna não é uma explicação do fundamento ou mesmo da origem do Universo, é apenas uma narrativa da sua infância remota.

[Aluno: Hoje já têm físicos que estão avaliando que antes desse big bang houve outros anteriores.]

Que tenha havido um bilhão de big bangs! Todo big bang tem que acontecer a alguma coisa, então essa alguma coisa existia, não era um nada. Tem uns que dizem: “Era um fluxo de energia que se parecia com o nada”. Bom, parecia mas não era o nada, já era alguma coisa. A pergunta é: “Por que existe o ser e não antes o nada?”.

[Aluno: Mas, como o senhor disse numa aula passada, como é que se definia o nada, uma vez que, caso se definisse esse nada, ele já seria alguma coisa. O senhor colocou o nada como uma espécie de matéria indiferenciada.]

Não, confundir o nada com a matéria-prima, calma lá! A matéria indiferenciada é alguma coisa, é matéria indiferenciada, e nós estamos falando da total ausência de ser sob qualquer aspecto.

[Aluno: Ausência inclusive de potencialidade?]

No sentido material da coisa, sim.

[Aluno: E nem o caos corresponde a essa pergunta?]

Não, claro que não, pois é disso que estamos falando. Começou assim? Mas por que começou?

[Aluno: Talvez a gente devesse questionar o conceito de “começou”. Será que existe (...)?]

As pessoas não compreendem a pergunta “começou?”.

[Aluno: Tem que existir um “começou”? Por que tem que existir um “começou”? (...) A gente é que está perguntando. A pergunta é que está errada.]

Este é o raciocínio positivista: “Não tem que ter começado”. A idéia do tempo ilimitado diz que o tempo nunca começou. Aristóteles pensava que o tempo era ilimitado, que ele nunca começou e nunca terminaria, então a pergunta sobre a origem se transforma na pergunta sobre o fundamento. Além disso, não é pelo fato de a linha de tempo não ter um começo no próprio tempo que ela é infinita. Vamos supor que você entenda o tempo como uma lei, uma ordem de sucessão. Mas qual é o fundamento dessa lei? Por que é assim? Então você não precisa entender tempo no sentido temporal, você pode, por exemplo, perguntar até mesmo sobre a origem do tempo no sentido de qual é o seu fundamento, de qual é aquele fator independente de tempo que fundamenta a existência de tempo.

[Aluno: A impressão que eu tenho não é tanto que eles não entendem, mas sim que fogem deliberadamente da pergunta. Eu já tive ocasião de expor a questão em detalhes para esse pessoal neocético, aí, quando entendem qual é a pergunta, eles se saem negando a lógica, dizendo, por exemplo: “Mas isso daí é um conceito de causa e efeito, isso é um raciocínio humano...”.]

Você tem que responder: “Então o seu raciocínio é sobre-humano. Você está se reportando a uma outra esfera de realidade, à realidade divina, à qual você teve acesso, então me diga o que tem lá dentro, é isso mesmo que eu estava perguntando. Se você conhece esse suprahumano a ponto de condenar o meu raciocínio como humano, então me conte alguma coisa a respeito, porque é exatamente isso que eu estava perguntando”.

[Aluna: No caso dos historiadores, há o risco até de eles não entenderem a questão.]

A maior parte dos intelectuais modernos não entende a questão, eles a entendem apenas em termos de evolução temporal quando se pergunta pelo fundamento. Quando você fala “a origem do Cosmos”, está querendo dizer “a origem de tudo o que existe”, e eles estão querendo dizer “a origem dessa estrutura tal como a conhecemos agora”, estão apenas contando a história desde uma etapa mais remota. Aí eu digo: “Por mais que você remonte no tempo, a pergunta vai continuar a mesma. Eu não estou perguntando por que chegou ao capítulo 45, e você diz que chegou porque teve o 44. Eu estou perguntando por que a história começou, por que teve o capítulo 1”.

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