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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 19
Maquiavel e a formação das identidades nacionais
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

[Aluno: Na última aula, o senhor colocou que o que está acontecendo na cultura de hoje é muito esquisito... O senhor falou, por exemplo, que quando Santo Tomás de Aquino se retratava (...), sabia que o pessoal tinha mais ou menos a visão de mundo que ele teria. E depois que o senhor fez essa crítica eu fiz uma pergunta, mas eu poderia fazer de outra maneira. O mundo... Aí o senhor fez uma crítica. Hoje não tem espaço para esse questionamento, para aquela cultura de Santo Tomás, não é? Mas como se fosse uma crítica. Eu fiquei pensando: o mundo hoje não é melhor do que o mundo de Santo Tomás, que só viveu até 49 anos? Quer dizer, a civilização ter esquecido toda aquela cultura, não foi melhor assim para o homem moderno? Aquela cultura, é como se fosse um corte...]

Esse negócio de melhorou ou não melhorou é muito relativo, porque você não pode viver em duas épocas: está na época em que está e ponto final. A comparação é totalmente hipotética, pois o que foi naquele tempo foi para quem estava lá, e o que é hoje é para quem está aqui. Para você dizer que uma coisa melhorou, é preciso que haja uma continuidade do sujeito, não é? Por exemplo, eu posso saber se minha vida melhorou ou piorou porque sou eu mesmo que continuo vivendo.

A idéia de melhorou ou piorou não faz sentido. Ela mesma já é uma noção ideológica que veio junto com o negócio do progresso. No século XIX, se acreditava num progresso... É você fazer uma comparação entre o que aconteceu para um sujeito, entre a situação ruim de um sujeito, e a situação boa de outro. Mas, em qualquer época que se pegue, qualquer civilização, haverá pessoas que numa estavam melhor e na outra ficaram pior, e vice-versa. Basta isto para se ver que essa comparação toda não tem sentido. Mas essas idéias de melhorou ou piorou, o progresso, etc. são desses compactados verbais que expressam uma expectativa que a gente tem, e não uma estrutura da realidade. Nenhum ser humano viveu quinhentos anos para poder comparar uma época com outra. Toda a comparação de melhor ou pior... Primeiro: para quem? Tem que ter um sujeito. Você dizer que a situação melhorou em si mesma, bom, a sociedade humana não existe em si mesma se não considerar os indivíduos que estão lá. (...)

Melhorar os meios, ampliar os meios de curar as pessoas, ampliar os meios de matá-las, não é isso? A Revolução Industrial, por exemplo, cria os instrumentos pelos quais se montou a democracia capitalista, mas com os mesmos instrumentos se montou o nazismo e o comunismo. É um absurdo se achar que certos melhoramentos técnicos ou econômicos por si determinam o curso das coisas. Ao contrário, não há possibilidade de comparação em termos de melhor ou pior. Isso não faz nem sentido. Você pode fazer essas comparações num prazo curto e para um lugar determinado onde haja uma unidade populacional, ali, digamos, de uma geração para outra, em que uma conhece a outra, sabe como a outra viveu. Mas se você pular para três gerações já fica difícil, porque, se mudou o sujeito, então a situação não melhorou nem piorou: estava ruim para um e estava boa para outro. Mas certamente houve pessoas que estavam melhores em outras épocas do que estão hoje.

Esse negócio desses compactados verbais, isso é um grande obstáculo para o aprendizado da filosofia. Você emite certos julgamentos que, quando você vai decompor... A quais realidades corresponde isso que eu estou dizendo? Por exemplo, esse melhorou-ou-piorou, vamos traduzir isso em termos de realidades. Quando você não se deixa levar somente pelas palavras que está usando, mas é capaz de estabelecer a diferença entre a palavra e a coisa, na maior parte dos casos você descobre que está dizendo cinco ou seis coisas contraditórias ao mesmo tempo.

Os juristas gostam muito de acreditar que a humanidade progride porque as leis melhoram. Bem, mas o simples fato de se ter um maior número de leis já é um problema terrível, não é? Quer dizer, as leis melhoraram e, afinal de contas, elas são apenas certas coisas que algumas pessoas dizem que as outras deveriam fazer. Não é isso? Quando você baixa ume lei, não isso que você está fazendo? – “Eu acho que vocês devem agir assim, assim, assim.” É claro que a simples existência da lei expressa algo da realidade do entorno, mas não quer dizer que a lei funcione realmente, que aquilo traduza o estado de coisas real da sociedade. Então o progresso do direito não é necessariamente o progresso da sociedade. Aliás, até o contrário.

[Aluno: (...) Ele disse que nós precisamos de uma nova Idade Média.]

Eu não sei para que serviria uma nova Idade Média. Uma nova Idade Média para depois ter um novo Renascimento, um novo Iluminismo, nova Revolução Francesa, nova Revolução Industrial, novo século XX, e chegar tudo aqui de novo? A expressão não faz sentido, se você pensar bem.

[Aluno: Ele meio que mencionou algo em termos de uma sociedade mais orgânica.]

Berdiaev escreveu um livro que chama Uma nova Idade Média¹. Nikolai Berdiaeff, um filósofo russo – excelente filósofo, aliás. Mas é preciso ver que isto é uma forma de expressão, é uma metáfora.

[Aluno: Do jeito que as coisas estão indo, a gente está chegando nas trevas.]

Acho que nós estamos muito mais próximos da Idade das Trevas hoje do que em qualquer outra época, porque o número de pessoas que podem entender mais ou menos o curso da História hoje em dia é reduzidíssimo em relação à população. É reduzidíssimo e não tem influência pública.

[Aluno: Acho que o grande problema (...).]

Qualquer raciocínio é independente da realidade sobre a qual você está raciocinando. Se você aprendeu um negócio chamado álgebra, sabe que é possível fazer uma conta sem saber quais são as quantidades que estão envolvidas ali. O raciocínio é um esquema formal que não tem nenhuma ligação intrínseca com a realidade. Essa ligação tem que ser estabelecida no momento da formação dos conceitos. À medida que você pega os dados da experiência e os transforma num conceito, é aí que está a ligação com a realidade. Depois, quando você vai raciocinar, o raciocínio prossegue operando somente com os conceitos, sem novas referências à realidade. Aí você acaba tirando, a respeito da realidade, uma série de conclusões que se aplicam somente aos seus conceitos abstratos, ou mesmo até aos termos que estão ali usados.

Acho que o maior problema na aquisição da técnica filosófica é você estar sempre de olho no abismo entre o que você está falando e a experiência. A gente nunca se põe em xeque, perguntando: “Mas a que realidades estou me referindo? A realidades da minha experiência, isto é, coisas que eu sei, que eu presenciei, porque eu estava lá? São coisas que você apenas leu num livro, mas que não correspondem em nada, nem analogicamente, a dados da sua experiência. Então você não sabe realmente do que está falando. E, em geral, quando as pessoas fazem essas ligações, essas analogias, elas fazem errado: aproximam coisas que não têm ligação.

[Aluno: Tem uma palavra que o senhor colocou (...)]

A analogia é válida porque existe uma estrutura humana comum. A espécie humana não mudou substancialmente nos últimos sessenta mil anos. Nós vivemos no mesmo lugar do cosmos, há mais ou menos a mesma condição cósmica, ecológica, etc. Quer dizer, tem uma estrutura básica da experiência humana que permanece, que é definida justamente por aqueles seis pólos que eu pus naquele artigo.²

Não importa em que época, em que cultura você está, a estrutura básica da experiência é a mesma, e por isso mesmo eu posso compreender a experiência de um sujeito que viveu numa outra época. O que atrapalha isso são erros de linguagem, porque a experiência, o cenário da experiência é o mesmo. O cenário da experiência é o mesmo e a estrutura é a mesma, mas o modo de simbolizá-la e de expressá-la varia localmente, varia até de uma geração para outra. Quando você ensina uma criança a falar já vê que ela adquire uma série de termos que não estavam no vocabulário da família, que ela mesma inventou ou ouviu de outra pessoa.

É então um erro apenas de comunicação. Como nós estamos numa época em que as pessoas comunicam muito, falam muito, escrevem muito, publicam muito livro, fazem muito programa de televisão, etc., a circulação de símbolos é muito grande, e a troca desses símbolos não tem liquidez. Eles não podem ser trocados pelas realidades correspondentes, mesmo porque não dá tempo, então é realmente uma inflação semântica. Você tem muitos símbolos em circulação e eles valem pouco. Daí a pessoa consegue juntar três ou quatro símbolos, três ou quatro conceitos, e faz um raciocínio que a ela lhe parece perfeitamente sensato – só que, quando você vai no caixa e tenta trocar aquilo por uma realidade para saber do que o sujeito está falando, vê que é um absurdo.

Lembra daquele famoso raciocínio do Norberto Bobbio: contra os males da democracia só tem uma solução, mais democracia? Que seria mais democracia?³ Seria estender os direitos democráticos para além da esfera que eles abrangem hoje. Seria democratizar outros setores da vida: a cultura, a arte, etc. Você vai democratizando e daqui a pouco acabou com a democracia, só pelo fato de aumentá-la. Isso é uma coisa óbvia. Democracia é uma qualidade do sistema político-juríco, não é uma qualidade da sociedade. Fala-se em sociedade democrática, mas, pensando bem, é um absurdo. Nenhuma sociedade pode ser democrática. O que pode ser democrático é o sistema político-jurídico; a sociedade em si mesma, não.

[Aluno: As pessoas não entendem isto.]

A sociedade não é democrática, assim como não existe, por exemplo, o lá bemol cor de abóbora. É um conceito que não se aplica, não tem nada a ver.

[Aluna: Não existe mais nada democrático, a não ser as instituições políticas?]

As instituições políticas e o sistema jurídico, só isto é que pode ser, o resto não pode ser democrático. Até falar de democracia econômica devia ser outro absurdo. Por exemplo, se você disser assim: “O que é democracia no sentido econômico?” — “É o igualitarismo. Eu luto pela igualdade”. Então você pergunta: “Mas é igualdade em sentido estrito e literal? Isso quer dizer que todas as pessoas devem ganhar a mesma quantidade de dinheiro? É disso que ele está falando?”. O sujeito diz: “Não, não é. Deve ser proporcional”. — “Proporcional a quê? — “Proporcional aos méritos ou ao trabalho.” — “E quem mede os méritos e o trabalho?” E outra coisa: “O sujeito que mede o mérito ou o trabalho do outro, ele ganha mais ou menos do que o outro?”.

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