Saiu na Mídia
Sala de Imprensa Acompanhe nossas novidades no Twitter Acompanhe as novidades pelo Facebook Veja nosso Canal no YouTube
Preencha os campos abaixo e receba nossa newsletter.
Nome

E-mail *
< Voltar | Home
Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 20
Filosofia na Idade Moderna
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Esse conceito de Renascimento foi inventado primeiro para o domínio das artes, por um estudioso chamado Giorgio Vasari. Mais tarde, o conceito foi ampliado, sendo transformado numa ferramenta de interpretação histórica por Jacob Burckardt, no fim do século XIX. Mas, quanto mais avançam os estudos, mais a gente vê que, como não houve renascimento algum, houve um montão. Mas ainda esses vários processos, longe de ter uma unidade de sentido, muitos deles vão em direções exatamente opostas, sendo realmente impossível você traçar um perfil de conjunto, mesmo que se atenha só ao domínio da história do pensamento.

Mesmo ali se observam tendências bastante antagônicas, linhas de desenvolvimento histórico bastante antagônicas ou então heterogêneas, que não tem nada a ver uma com a outra. Por exemplo, o fato de dizer que nesse período a Europa abandona a filosofia escolástica e assume novas direções, nem isso corresponde à verdade, a não ser que nós expulsemos da Europa a Península Ibérica, que justamente no período era a sede de um dos Estados mais poderosos do mundo, a Espanha. Então, justamente no período em que havia na França, na Holanda e na Inglaterra uma ruptura com a filosofia escolástica, na Península Ibérica ela alcançava algumas de suas melhores realizações – as quais, devido ao fato de que a opinião franco-britânica se tornou dominante no século seguinte, foi colocada durante um tempo entre parênteses e permaneceu como que à margem do processo da História da Filosofia. Notem bem que não existe materialmente um fenômeno chamado “história da filosofia”. A História da Filosofia foi uma disciplina que as pessoas inventaram e que estuda mais ou menos numa clave cronológica algumas idéias que algumas pessoas tiveram. Não existe um fenômeno material identificável chamado “desenvolvimento histórico da filosofia”. Isso é uma síntese mental que operamos em cima de acontecimentos às vezes bastante inconectos e heterogêneos. De modo que existem muitas maneiras de se montar esse desenvolvimento, conforme o ponto que se tome como referência. Geralmente, tomamos como referência a moda presente, quer dizer, aquilo que parece dominante no momento presente. Mas mesmo isso seria muito difícil, porque durante todo o século XX, por exemplo, houve três centros de referência: (1) um centro de referência marxista-leninista, colocado em todo o mundo soviético, o mundo sob domínio soviético, em que teria que se contar toda a história da filosofia como se fosse uma antecipação ou preparação do advento do marxismo; (2) um bloco continental franco-germânico, dominado pela fenomenologia, pelo existencialismo, etc.; (3) e um bloco anglo-saxônico, dominado por filosofia analítica e lógica matemática. Cada um desses três se acreditava no direito de se considerar o topo da evolução histórica e, portanto, de explicar tudo o que se passou antes em função do seu próprio posto de observação. Na etapa seguinte, existe uma dissolução desses blocos, e hoje em dia seria muito difícil caracterizar, ver que estilos coletivos de filosofia existem, sobretudo na primeira metade do século XX. Há filósofos individuais sem nenhuma conexão em torno; há fenômenos como Xavier Zubiri, por exemplo, que é absolutamente inclassificável, não se sabe onde colocá-lo, cuja obra aparece toda postumamente; há o fenômeno de Eric Voegelin, que é provavelmente o filósofo mais importante do período, mas que continua amplamente desconhecido (como, por exemplo, no mundo francês).

Para a segunda metade do século XX e o período que vem até agora, já não se tem mais esses pontos de referência, já não se tem mais algo que se possa dizer que é uma filosofia dominante e que forneça um ponto de orientação, mesmo fictício, mesmo hipotético e fictício para se articular o passado histórico. Então, isso naturalmente cria uma certa desorientação, mas, por outro lado, essa desorientação pode ser benéfica, porque nos ajuda a ver o caráter provisório, relativo – para não dizer falso – das outras articulações que tínhamos antes. Por exemplo, essa mesma divisão de Idade Média e Renascimento, Idade Moderna e Pós-Modernidade, ela é feita desde um ponto de vista que toma como centro alguns desenvolvimentos específicos desta filosofia que, mais dia menos dia, podem ser considerados absolutamente irrelevantes. Tudo o que nós chamamos hoje de “pós-moderno” pode ter sido esquecido amanhã ou depois. Não temos um chão firme ou nem mesmo uma aparência de chão firme no qual possamos nos apoiar para criar uma visão retrospectiva, na qual pareçamos estar orientados. [Aluno: Como foi criada essa segmentação da Idade Média, Moderna?]

Isto vem do próprio início do que nós chamamos de Idade Moderna, quando há no Período Iluminista um certo grupo de intelectuais que se definem como o cume da evolução humana e começam a medir tudo o que veio para trás como se fosse ou uma preparação ou um obstáculo para chegar até onde eles estavam. Hoje nós temos até uma certa dificuldade de conceber uma espécie de sentimento triunfalista que a intelectualidade européia tinha nessa época – sentimento inspirado, vamos dizer, por um sentimento muito pouco justificado pelas realizações, pelas conquistas intelectuais da época. Na verdade, foi uma época de mediocridade filosófica que chega a ser assombrosa, assustadora, quando vemos que a grande figura da intelectualidade européia no período foi Voltaire. Está certo que Voltaire era pouco mais do que um jornalista, um divulgador, mas como um filósofo era muitíssimo deficiente.]

Entendemos, então, que nesse período houve uma espécie de ampliação do público debatedor, do público pretensamente filosófico. Isso dava a impressão de que a cultura estava se disseminando e de que as pessoas estavam chegando. Dava a impressão de um progresso, em suma, mas era apenas uma ampliação quantitativa. E justamente o maior filósofo do período que a nós hoje interessa mais – que era Leibniz – permanece à margem do seu século. Os sujeitos mais interessantes do século XVIII eram Leibniz e Giambattista Vico, para nós hoje. Leibniz foi totalmente incompreendido, caricaturado até por Voltaire na figura do Dr. Pangloss1; e Gianbattista Vico não foi nem isso, ninguém nem ouviu falar do sujeito.

Então, tudo aquilo do qual a intelectualidade se orgulhava na época, a nós hoje parece totalmente irrelevante, mas, na época, eles tinham realmente a impressão de ter rompido com milênios de obscurantismo e chegado enfim à descoberta da verdade. Não que se considerassem pessoalmente merecedores dessa qualificação, mas, pelo menos a partir de Isaac Newton, o sistema do mundo newtoniano pareceu na época uma coisa tão assombrosa e tão revolucionária que era como se, de fato, milênios de ignorância tivessem sido rompidos de repente por um raio de luz.

Existe um poema de William Blake que diz assim: “Deus disse: façase Newton e tudo virou luz”. Era então um entusiasmo, uma idolatria fantástica! Quando se vê que, três séculos depois, o sistema de Newton alcança o seu limite e é substituído por um florescimento extraordinário de doutrinas contraditórias dentro da física, de modo que hoje já não se pode mais ter certeza de nada, então nós entendemos que esse sentimento de vitória que se infundiu na intelectualidade européia da época era um fenômeno ideológico, era uma auto-imagem; não era uma descrição de uma realidade, mas a expressão do sentimento de um certo grupo de pessoas enormemente vasto. 1 F.-M. A. de Voltaire, Cândido. São Paulo: Scipione, 1991. [Aluno: Isso justificaria considerar o que veio antes como o mínimo para tudo no mundo (...), não é? Aquilo era o passado e agora estamos no presente...]

Certo, é certamente a primeira coisa que acontece. Veja, quando você descobre uma coisa nova, em vez de ela se acrescentar ao acervo dos seus conhecimentos, ela o encobre, de modo que você dá um passo para a frente e dez para trás, isso é muito comum. [Aluno: É a utilidade da divisão tripartite? Porque o Voegelin comenta que isso é uma característica gnóstica típica.] Sem sombra de dúvida. A idéia de que o conjunto da história humana vai até o conjunto da história cósmica como uma evolução em três etapas já vinha de longe. Há o conceito de Joaquim de Fiori, a Era do Pai, depois a Era do Filho, depois a Era do Espírito Santo, existia uma infinidade de doutrinas tripartites, isso entrou profundamente no subconsciente europeu. Existe o conceito do Mestre Eckhart, no qual há também uma etapa inicial em que Deus está centrado em si mesmo e manifestado, depois há a etapa da precessão, quando Ele se manifesta, e depois há uma etapa do retorno a Deus. Tem, por exemplo, a lei dos três estágios de Comte, etc., etc. Mas não precisa ser necessariamente tripartite.

A simples idéia de que o conjunto da história humana possa ter uma figura é algo realmente muito esquisito. Como é que você vai estabelecer uma linha única de desenvolvimento entre culturas e sociedades que não tiveram a menor conexão entre si, não tiveram nenhum contato? Se existe uma figura única, ela foi criada por mágica. Mas eu acho que é mais um efeito desses como quando você olha nuvens e vê um cavalo, um dragão. É uma aparência. Olhando de uma certa maneira, de uma certa distância, parece que houve três etapas ou quatro etapas, e parece que a coisa forma uma evolução única.

Não é necessário dizer também que as tentativas de elucidar cientificamente esse tipo de problemas são na verdade muito recentes. Quando se vê que a primeira teoria unificada da história aparece no século XVIII com Giambattista Vico e, mesmo assim, ainda demora muito tempo para entrar em discussão, isso quer dizer que a humanidade simplesmente não tem prática desse negócio. Então, quando não se tem prática, ainda não se tem um senso crítico aprimorado de quais são os conceitos adequados para discutir aquilo, quais são os métodos possíveis, qual é o alcance possível do estudo que se está fazendo. Como é que se começa a investigação do que quer que seja? Começa com o discurso poético, começa quando você conceber uma forma imaginária que lhe parece unificar uma multidão de fenômenos. Ou seja: você cria um mito. Não que o mito seja uma coisa maligna. Ele é o começo da investigação, e a possibilidade da investigação depende disso aí, depende de que haja uma articulação imaginativa do conjunto dos dados. Dentro dessa articulação, supondo que ela tenha sido bem feita, é que podem sair depois as perguntas apropriadas, as hipóteses e os métodos de investigação, etc.

Nós podemos dizer até que a idéia dessa cronologia de atar Idade Antiga, Média e Moderna é uma síntese imaginativa. É como você transformar a história do pensamento num drama com primeiro ato, segundo ato, terceiro ato, e que deve chegar a uma resolução depois. Quer dizer, tudo o que a gente tenta imaginar, compreender, tem que dar uma forma qualquer. Esta forma pode ser totalmente imaginária no começo, contanto que a forma imaginária não seja tão fechada que não permita uma análise interna daquilo. Se permite, então ela vale como começo da investigação.

....................................

Rua França Pinto, 498 - Vila Mariana - São Paulo/SP - CEP 04016-002  |   (11) 5572-5363
Estúdio É @2011