Aula 21
Filosofia Anglo-Saxônica
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Trecho
(10 primeiras páginas)
Quanto mais você se aproximar da modernidade, mais difícil será manter uma linha cronológica estrita, porque existem várias linhas de desenvolvimento simultâneo e não há simetria alguma na coisa. Você tem vários movimentos que começam, depois são interrompidos, depois reaparecem em outro lugar. E também aparece o fenômeno das filosofias nacionais. Começa-se a delinear um certo estilo nacional de filosofia, que vai mais ou menos do século XVI até o século XX e se delineia de uma maneira cada vez mais clara. Nós não sabemos como é que vai ser isso daqui para diante. Essas características nacionais também acabam por ser mescladas depois de um certo tempo. Hoje em dia, já não seria tão fácil você caracterizar nacionalmente, mas na primeira metade do século XX isso ainda era bastante nítido.
Dentre essas tradições nacionais, tem uma que é particularmente interessante – não tanto pelo valor intrínseco dos filósofos que a compõem, mas pela grande influência que teve no mundo –, que é justamente a filosofia anglo-saxônica. Existe um momento inaugural ali, com Thomas Hobbes, que cria uma série de problemas, entre os quais, de algum modo, nós ainda estamos vivendo.
A partir de René Descartes, sobretudo com o sucesso da nova física, da nova ciência, acaba surgindo uma certa confiança generalizada no método matemático, no método dedutivo – e não só confiança como método de investigação, mas de certo modo uma confiança de que o próprio mundo era constituído matematicamente. Galileu dizia que Deus escreve o universo em caracteres matemático. E, por outro lado, junto com esse matematismo, surge também a idéia do experimentalismo com o próprio Bacon, ou seja, a experiência é que seria o juiz do conhecimento. Note que, no programa da ciência experimental, Bacon se limita a fazer um apelo para que se crie uma nova ciência, baseada num método totalmente diferente do aristotélico. Mas, curiosamente, se você olhar na obra de Bacon, no Organon, vai ver que ele enuncia o programa, mas, quando começa a expor as regras do novo método, elas são em tão grande número e tão confusas que são absolutamente impraticáveis.
Isso quer dizer que, quando a gente fala no método de Bacon, está falando no método que ele propôs, não naquele que ele formulou. Bacon criou um programa – “Esse tem que ser assim, assim, assim...” –, e esta parte, este apelo geral teve uma influência muito grande, mas quando você vai entrar na massa mesmo, no assunto do método de Bacon, daí vê que aquilo é uma confusão enorme. E, pior ainda, esse método não difere tanto do método aristotélico quanto ele imagina. Ele imagina que está fazendo um negócio totalmente novo, mas de fato não está.
Essa dupla tendência – por um lado, ao matematismo e, por outro lado, ao experimentalismo – acaba evidentemente convergindo em algum ponto, e esse ponto é justamente Thomas Hobbes. Ele, por um lado, subscreve integralmente o programa racionalista, isto é, da ciência organizada matematicamente, da ciência lógico-dedutiva, na base cartesiana; por outro lado, difere de Descartes e da tradição racionalista num ponto muito importante.
Toda a ciência que seja baseada num método matemático supõe a validade universal dos princípios aritméticos e dos princípios da lógica; então, de algum modo, reconhece que existem princípios inatos e que são independentes da experiência, como o próprio princípio de identidade, a não-contradição, o terceiro excluso e os princípios da aritmética elementar. Isso quer dizer que Descartes acreditava piamente que esses princípios são inatos e que o conhecimento deles não depende da experiência, mas, ao contrário, que eles são uma espécie de moldura dentro da qual nós podemos abranger e compreender toda a experiência, sem os quais a própria experiência não poderia ser ordenada.
A partir daí surge toda a discussão sobre se há idéias inatas ou não, e Thomas Hobbes chega à conclusão de que não há idéias inatas de maneira alguma, de que tudo vem da experiência. Então, por um lado, ele quer uma ciência que seja organizada de maneira dedutiva e matemática; por outro lado, ele não acredita que haja princípios universais inatos, independentes da experiência. Ora, aí nós temos um imbróglio, temos um problema. Hobbes, que não era nada burro, percebeu que havia um problema. Bom, se nós não temos princípios inatos da matemática, então como é que a matemática pode valer a ponto de ela poder dar uma forma racional à experiência?
Tendo percebido este problema, Hobbes propõe uma solução que não resolve nada, mas que, de certo modo, acabou entrando no subconsciente das gerações seguintes. Eu acredito que até hoje é a crença que a maioria das pessoas no fundo tem. Ele diz o seguinte: Os princípios da aritmética e da lógica não são princípios universais válidos e muito menos inatos; eles também dependem da experiência, ou seja, são meras suposições que nossa mente faz. Então, não são eles que dão validade ao conhecimento; eles também têm que ser validados pela própria experiência.
Aí nós temos dois problemas. O primeiro é que a experiência opera sempre por indução, e a indução é sempre um raciocínio meramente probabilístico, não vai levar a uma certeza jamais. Mas se o próprio padrão lógico-matemático que vai estabelecer a certeza do conhecimento é também probabilístico em si mesmo, então isso é a mesma coisa que dizer que não vai haver mais nenhum conhecimento certo, daí nós caímos no reino do probabilismo.
Em segundo lugar, há o problema de que Hobbes aceita que existe, então, dois tipos ou duas camadas de conhecimento: por um lado, existem esses conhecimentos incertos, os supostos princípios da lógica matemática, que são suposições, no entender dele; por outro lado, existe o conhecimento certo e bem estabelecido, que é o conhecimento cientificamente demonstrado exatamente por meio da lógica e da matemática.
Só que os princípios da lógica e da matemática não valem apenas como axiomas que estão no começo da dedução, como, por exemplo, os axiomas de Euclides (no começo do livro de Euclides, ele dá os postulados, e daí começa a dedução). Os princípios da lógica aritmética não são apenas postulados que estão no começo do raciocínio; eles são princípios que estruturam o próprio raciocínio. Na própria cadeia silogística, um silogismo só vale porque vale o princípio de identidade. Se você diz: se A=B e B=C, então A=C. Bom, isto aí só é válido se A=A. Isto quer dizer que os princípios não estão colocados somente no começo da dedução; eles são a própria trama da dedução, na própria estrutura interna.
Se os princípios não têm validade, se são apenas suposições, então toda e qualquer prova matemática ou lógica do que quer que seja será sempre suposição. Você continua usando aquilo apenas por uma conveniência prática, e acha que elas vão funcionar, mas não acredita que são princípios universalmente válidos ou, pelo menos, não os espreme até o fim para saber se são universalmente válidos ou meras suposições.
Hobbes cria, então, esse procedimento circular em que a validade dos princípios depende da experiência, e a validade da experiência depende dos princípios. Este tipo de confusão, de circularidade, na prática científica funciona, por incrível que pareça, porque é exatamente assim: uma coisa prova outra; a outra prova uma. E a questão mesmo da validade dos fundamentos não tem que ser colocada na prática. Então nós podemos dizer que toda a classe científica mundial, no exercício da sua função prática, continua até hoje na incerteza dos princípios, mas continua usando os mesmo princípios para dar validade à experiência. Por sua vez, a experiência evidentemente acaba sempre comprovando, de algum modo, senão a validade, ao menos a eficácia dos princípios. Com isso se vai empurrando o lixo para baixo do tapete indefinidamente.
Eu digo isso para vocês perceberem que somos até hoje mais hobbesianos do que nós mesmos imaginamos. Mas quando vemos esse grotesco rombo bem no meio da filosofia de Hobbes começamos a observar uma certa diferença constante entre as filosofias antigas e medievais, por um lado, e as filosofias modernas, por outro. Quando se pega a filosofia de um Platão, de um Aristóteles, de Santo Tomás de Aquino, elas têm evidentemente uma quantidade de erros muito grande, mas sua estrutura básica não contém nenhuma autocontradição e nenhuma absurdidade. Já nas modernas, praticamente todas elas têm uma contradição que está bem no centro, tem uma absurdidade ali no meio que não se resolve, que é jogada para baixo do tapete, mas a partir da qual o sujeito faz uma série de observações interessantes sobre uma infinidade de problemas entorno.
É como se disséssemos que a filosofia antiga vale por sua estrutura central, por seus princípios e por seu núcleo de significados, embora possa estar errada numa infinidade de detalhes. E na quase totalidade das filosofias modernas vai acontecer exatamente o contrário. Dificilmente se encontra uma que se sustente internamente como sistema que não implique uma autocontradição, e nunca é apenas uma contradição lógica. A contradição lógica não é problema, pode ser um simples erro de raciocínio que o sujeito cometeu ao enunciar uma coisa que, em si mesma, está perfeitamente verdadeira. Estou falando de uma contradição estrutural – quer dizer, é como uma máquina que vai para frente e para trás ao mesmo tempo, então não sai do lugar.
Quando eu enuncio esse problema em Hobbes, estou dizendo que a filosofia de Hobbes não é praticável. O que quer que você tente fazer com ela, ela não vai deixar você fazer. Qualquer conhecimento que você tente validar pelo método de Hobbes será invalidado, ou pelo menos será posto entre parênteses internamente.
Quando vemos algo desse tamanho, um problema dessas proporções, e vemos que o indivíduo errou já no primeiro passo que ele deu, que o fundamento cognitivo da filosofia dele já está errado, nós nos perguntamos: Como é possível isto? Ficaram todos idiotas de repente? O que aconteceu?
Daí é que, às vezes, nós temos a felicidade de perceber que na verdade esses princípios da teoria do conhecimento de Hobbes não estão na mente dele, colocadas no fundamento do seu edifício, porque tudo o que Hobbes fez na vida, assim como todos os filósofos ingleses das gerações seguintes farão, será constatar uma situação entorno, uma situação sociopolítica e cultural intolerável, e tentar oferecer uma solução para ela. Isso quer dizer que o vislumbre dessa solução, a proposta dessa solução, é a primeira coisa que eles pensaram; e depois, para tentar fundamentá-la, vão retornando desde a sua proposta política até certos fundamentos filosóficos. Mas estes fundamentos filosóficos não são verdadeiros fundamentos. É como se o sujeito colocasse o teto da casa, mas o teto não pode ficar sozinho ali, então tem que colocar alguma coisa embaixo. Quer dizer, ele não constrói desde os fundamentos, coloca uma finalidade (que no caso do raciocínio messiânico toma a forma duma previsão, mas que não precisa necessariamente ser assim; há uma proposta política, no caso do Hobbes, a proposta do Estado monárquico absoluto, que supostamente colocaria ordem no caos da sociedade inglesa dividida pelas guerras de religião), e após ter tido essa idéia ele começa então a procurar fundamentos para ela.
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