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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 24
Kant
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Todo este período da história da filosofia, do século XVIII até pelo menos metade do XIX, nós temos condições de saber que toda a visão que se tem disso no ensino universitário e na bibliografia consagrada, é totalmente errada, quer dizer, esse talvez seja o período mais desconhecido na história do pensamento universal. Quanto mais se pesquisa, sobretudo nas últimas duas ou três décadas, quando o pessoal começou a abrir a caixa preta do esoterismo europeu, ocultismo, sociedades secretas, cada dia que passa se descobre mais coisa que interfere de tal modo na interpretação dos filósofos da época que nós podemos dizer que em alguns casos a interpretação consagrada chega a ser o inverso da realidade.

E particularmente o menos estudado nesse empreendimento arqueológico tem sido Kant, então à respeito de Kant não se descobriu ainda nenhuma novidade, mas também, ninguém procurou. As pesquisas se centraram mais no período propriamente romântico, então seriam Fichte, Schelling e Hegel. A respeito desses se tem hoje nos círculos estudiosos uma visão muito diferente daquela que está consagrada nos livros de história da filosofia. A história da filosofia é uma disciplina de progressão muito lenta, porque como é uma disciplina de conjunto, ela depende de que milhares de problemas tenham sido resolvidos primeiro na escala monográfica, problema por problema. Então, depois que todo mundo já está sabendo de alguma coisa, aquilo ainda demora um tempo para entrar nos livros de história da filosofia, quer dizer, os estudos sobre este ou aquele filósofo, sobre este ou aquele tema em particular, são muito mais velozes e é natural que seja assim, primeiro você tem que resolver as partes para depois resolver o conjunto. Não existe nenhuma história da filosofia atualmente que apresente desta época uma imagem que esteja à altura do que hoje se sabe a respeito na área dos estudos monográficos. Nós podemos dizer que esse novo campo também não é tão recente, ele começa, creio que em 1923 com a obra de Auguste Viatte, “Les sources occultes du Romantisme”1 (As fontes ocultas do Romantismo) em que ele vai rastreando a influência que doutrinas esotéricas, alquímicas, teosóficas, etc., tiveram no Movimento Romântico considerado mais do ponto de vista literário, mas também pegando alguns filósofos aí no caminho. A partir dessa sugestão inicial o pessoal começou a rastrear, na década de sessenta saiu o livro do Jacques D’Hondt que eu citei no Jardim das Aflições, Hegel secret (Hegel secreto), e isso foi somando, somando resultado, daí, tudo isto converge para este livro, “Hegel and the Hermetic Tradition”, de Glenn Alexander Magee, que é um livro que eu nem acabei de ler ainda, mas que já dá para perceber tudo o que foi estudado nessa área. Para você chegar a uma conclusão nesse ponto com relação a um filósofo, já são vinte ou trinta anos de trabalho e até isto depois se incorporar na história da filosofia, são mais vinte ou trinta anos, de modo que vocês podem dar por seguro que tudo o que se lê hoje nas histórias da filosofia atualmente existentes, mesmo nas melhores, a respeito deste período, vai ser muito mudado nos próximos vinte ou trinta anos quando este material todo for incorporado nas histórias da filosofia. Para vocês terem uma idéia das conclusões a que o sujeito chega eu vou ler uns parágrafos aqui para vocês, depois mais tarde nós vamos ver isso direitinho quando estudarmos Hegel, mas só para se ter uma idéia do período.

O livro começa assim: “Hegel não é um filósofo, ele não é um amante ou buscador da sabedoria, ele acredita que a encontrou. Ele escreve no prefácio da Fenomenologia do Espírito: “Ajudar a trazer a filosofia para mais perto da forma da ciência com o objetivo de que ela possa deixar de lado o título de amor à sabedoria e tornar-se conhecimento efetivo, este é o objetivo a que eu me propus”. No fim da Fenomenologia Hegel afirma ter chegado ao conhecimento absoluto que ele identifica com a sabedoria.

A afirmação de Hegel de ter atingido a sabedoria é completamente contrária à concepção grega original da filosofia como amor à sabedoria, isto é, como a busca continuada, sendo antes uma busca continuada do que a posse final da sabedoria. Essa afirmação no entantoé plenamente coerente com as ambições da Tradição Hermética, uma corrente de pensamento que deriva o seu nome da chamada hermetica ou corpus hermeticum, uma coleção de tratados e diálogos gregos e latinos escritos no primeiro ou segundo século d. C., e provavelmente contendo idéias que são muito mais amplas”.

E assim ao longo do livro ele vai buscando as fontes herméticas, alquímicas, esotéricas e ocultistas de praticamente cada linha de Hegel. Então, ele diz:“Interpretar Hegel como um autor, como um doutrinário hermético não é uma das interpretações possíveis de Hegel, é a interpretação obrigatória, fora disso você não entende nada do que ele está dizendo.”

Então você imagina que Hegel na história da filosofia é tido assim como uma espécie de culminação do racionalismo clássico. Isto, depois deste estudo, não se sustenta mais, isso vai cair. Por mais escandaloso que pareça, a bibliografia acumulada a respeito é muito grande.

Uma disciplina como a história da filosofia, que é uma disciplina de conjunto, de síntese, não vai se permitir ser afetada por uma ou outra descoberta particular, mas quando as coisas começam a acumular chega uma hora que não dá mais para segurar. Muita gente pode tentar ainda continuar lendo Hegel e Fichte e Schelling dentro da linha costu8 meira. E se isso demora um tempo para chegar na história da filosofia, você imagina o tempo que isso vai levar para chegar ao Brasil. Nós podemos quase profetizar que no Brasil as pessoas jamais chegarão a saber disto.

Quanto mais a gente descobre essas coisas, mais a gente fica inseguro com relação à visão costumeira que se tem. Por exemplo, nós não sabemos direito as ligações esotéricas, maçônicas do próprio Kant, não temos idéia disso, o pessoal pegou muito o Hegel, mas depois que descobriu tanta coisa a respeito de Hegel e Fichte, a gente já fica com um pé atrás com relação ao próprio Kant. Você veja que entre as influências esotéricas importantes da época estava o tal do Swedenborg.

Emmanuel Swedenborg era um ocultista sueco que é um dos tipos mais extraordinários da história, porque ele teve três vidas, ele primeiro fez um sucesso enorme como poeta e ficcionista, era considerado um dos maiores da Suécia. De repente ele largou tudo isto para se dedicar inteiramente às ciências naturais e à tecnologia. Na área da tecnologia a sua realização máxima, única na história certamente, foi um trilho que ele construiu para transportar por terra toda a Marinha Sueca, atravessou a Europa, isso em 1810 mais ou menos. Você imagine uma obra desta na época, a dificuldade que teria para fazer, o cara conseguiu transportar, levou toda a Marinha por terra. E fez uma série de descobertas importantes, de maneira que ele por volta dos cinqüenta anos (a carreira literária foi até os vinte e cinco anos, aos vinte e cinco anos ele parou e começou a carreira científica) estava no auge da glória científica, era considerado o maior homem de ciência da Suécia, ele também parou tudo e começou a terceira carreira, de místico, e escreveu uma série de livros muito impressionantes com descrições de visões do céu e do inferno.

Quando Kant leu isso ficou indignado e escreveu então um escrito chamado “Sonhos de um Visionário”, no qual ele impugna as visões de Swedenborg. Eu tenho a impressão de que essa leitura de Swedenborg deve ter sido muito importante para o Kant, porque “Sonhos de um Visionário” é um dos poucos escritos de Kant onde ele muda de tom, você vê que ele está realmente indignado, que ele está bravo; imaginar Kant bravo é impossível, você não vê isso em parte alguma, é um homem normalmente tão frio, e ali você vê que aquela coisa realmente mexeu com ele e se tornou para ele importante provar de algum modo que aqueles conhecimentos esotéricos trazidos pelo Swedenborg eram não apenas falsos, mas impossíveis. De algum modo nós podemos interpretar toda a obra de Kant como uma tentativa de provar a impossibilidade do conhecimento de Deus, do infinito, da vida após a morte, etc. e ao mesmo tempo uma tentativa de criar uma religião que fosse independente desses conhecimentos. Ou seja, uma religião que já não seria baseada no conhecimento dos fatos de ordem espiritual, mas seria baseada inteiramente em considerações e exigências de ordem moral, ou seja, Kant é o inventor da transformação da religião em moral. Um processo que certamente acabou afetando todas as religiões ocidentais, ao ponto de que a redução da religião a exigências morais está impregnada na opinião pública. A idéia mesma da religião, qualé a noção que ela evoca imediatamente? A idéia de uma disciplina moral que você tem que seguir. Isso está tão distante da idéia originária da religião que, conforme eu creio já lembrei neste curso mesmo, o sistema da teologia moral católica só ficou pronto no século XVIII, quer dizer, até lá você tinha uma grande diversidade de critérios morais, é Santo Afonso de Ligório que junta tudo e coloca ordem. Ora, a religião pôde passar dezoito séculos se expandindo, ocupando a Europa inteira, chegando até às Américas, educando os índios, sem ter um sistema moral pronto, quer dizer que esse sistema moral não era tão vital assim para a vida cristã. O aspecto da fé, do rito, do simbolismo, do imaginário e tal era certamente mais importante. Nós podemos dizer que o aspecto cognitivo predominava, a religião era sobretudo o acesso a certas realidades. Por isso o Evangelho se chamava “boa notícia”. O que é uma boa notícia? É o comunicado de um fato e não a emissão de uma ordem ou de um mandamento moral. Você vai ter o mandamento moral também, mas ele faz parte de toda uma história, de algo que aconteceu.

As primeiras discussões que aparecem sobre o cristianismo no século I e II não são de maneira alguma de ordem moral, quer dizer, aquiloé uma doutrina, uma visão do mundo que está sendo apresentada e que as pessoas discutem para saber se o sujeito concorda ou não concorda, se ele vê as coisas daquela maneira ou não. A ênfase moral é uma coisa muitíssimo recente. Por exemplo, a partir do século XIX começa a haver muito a expectativa de que o seguidor de uma religião aja na sua vida pessoal precisamente de acordo com aquilo que ela manda. E até então e durante a Idade Média inteira ninguém tinha esta expectativa porque sabem que isto é muito idealístico, sabem que as pessoas realmente não são assim. A ênfase estava muito mais colocada no fato de que a religião era um meio de limpar as culpas dos pecadores e não uma espécie de camisa de força que eles tinham que vestir para todos eles se comportar direitinho até então. A diferença da sensibilidade moderna para a antiga nisso aí é tão grande que ela chega a ser inimaginável para o cidadão contemporâneo. Normalmente, como existe a visão da religião como sobretudo um código moral na modernidade, a tendência (é quase que automática) o sujeito imaginar que este conjunto de exigências morais deveria ser ainda mais rígido e mais pesado nos séculos anteriores. Quando na verdade todo o moralismo cristão, pelo menos na esfera católica, é uma coisa bastante nova na história.

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