Aula 25
Fichte e o Idealismo Alemão
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Trecho
(10 primeiras páginas)
A filosofia desse período que vem logo em seguida a Kant é um dos episódios mais interessantes da história do pensamento mundial. E é um período a que nós devemos prestar especial atenção porque praticamente tudo o que nós vivemos hoje, tudo o que se passou na história, na cultura, na política dos duzentos anos seguintes, é ali que está a raiz, nós ainda não terminamos de colher os frutos tanto benéficos quanto maléficos do Idealismo Alemão. E é uma filosofia que em grande parte reflete uma espécie de característica nacional alemã que se observa evidentemente não só então na filosofia, mas nas artes, na literatura, e que ainda no século XX aparecerá até no cinema, quando aparece o expressionismo alemão, o expressionismo pode se dizer que é o cinema subjetivo por natureza, quer dizer, um cinema que não mostra as coisas tal como elas aparecem aos sentidos, mas tal como o ser humano as imagina. Do mesmo modo, se você observar a cultura alemã desde a Reforma Protestante com toda a sua ênfase na conexão pessoal do indivíduo com Deus, passando por cima duma autoridade eclesiástica estabelecida, você verá que esta espécie de subjetivismo ou individualismo é mesmo uma marca característica da cultura alemã. E também não deixa de ser característico que se trata dum individualismo não-prático e externo como nós poderíamos ver, por exemplo, na cultura inglesa que cultiva a liberdade civil e política, e depois, quando da fundação dos Estados Unidos, a idéia da auto-realização, do homem empreendedor.
O subjetivismo alemão não é nada disso, o individualismo alemão é bem voltado para a vida interior, quer dizer, é um subjetivismo duplamente subjetivo no qual a idéia da liberdade do indivíduo é vivenciada mais como uma liberdade de tipo espiritual assegurada pela sua conexão direta com Deus, e não como liberdade civil e política. Do ponto de vista da liberdade civil e política justamente os alemães foram sempre um pouco deficientes, nunca chegaram a ter uma organização política que assegurasse mesmo a liberdade individual num sentido anglo-saxônico.
Na verdade só a tiveram quando os anglo-saxões entraram lá e os obrigaram a ter, depois da guerra. De certo modo, a própria reivindicação da liberdade espiritual absoluta é de algum modo oposta à organização da sociedade. Então, o fato de que indivíduos que têm um orgulho da sua liberdade interior vivam durante duzentos anos pelo menos sob regimes no mínimo autoritários e na pior das hipóteses totalitários, passando do autoritarismo para o totalitarismo e até às vezes tendo que usar o autoritarismo como único remédio possível contra o totalitarismo, como veio a acontecer na Áustria antes da guerra, esse fato marca muito o espírito alemão e a cultura alemã. O que levava o poeta [Heinrich] Heine a dizer que os alemães eram pessoas tão agradáveis uma a uma e tão horrorosas quando se juntavam, o certo era dizer: umas pessoas ótimas com uma sociedade horrível. Durante este período, a virada que Kant deu no eixo de atenção da filosofia do mundo exterior, do ser externo, do ser objetivo, para as formas do nosso próprio aparato cognitivo, essa torção, ela acaba de se completar e ela é levada às suas últimas conseqüências, até por um efeito impremeditado do esforço de sair de dentro da jaula kantiana. Se vocês entenderam bem as explicações sobre Kant vocês terão a idéia de que nós só conhecemos os fenômenos, quer dizer, as aparências, e não apreendemos as coisas-em-si. Não é isso? Kant criou um universo cognitivo, um universo cultural no qual, se você pensar bem, a verdade objetiva do que você está dizendo já não interessa mais, não se trata mais de verdade objetiva, apenas uma concordância das subjetividades, uma harmonia da intersubjetividade. Até a garantia que Kant dá da validade dos princípios lógicos é o fato de que a garantia até da validade do conhecimento pelos sentidos, etc., só é dada pelo fato de que essas estruturas são universais, isto é, são compartilhadas por todos os seres humanos.
É como se fosse um subjetivismo, mas um subjetivismo coletivo. Nós não vivemos propriamente num mundo real objetivo, mas num universo humano, um universo de criação mental e cultural humana. Não é preciso dizer o quanto esta idéia continua produzindo filhotes até hoje. Por exemplo, quando você lê esse livro do Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, aquilo lá é kantismo puro, ou o [Michel] Foucault com aquela idéia dele das epistemes, de que cada época tem um conjunto de chaves cognitivas que são compartilhadas por todos os cientistas da época e que todo mundo enxerga as coisas daquele jeito precisamente, e que mais tarde essa episteme, essa chave geral muda e as coisas passam simplesmente a ser vistas de outra maneira, tudo isso não deixa de ser kantismo porque a ênfase não está no conhecimento da realidade objetiva, mas no conhecimento das estruturas cognitivas do sujeito, seja individual, seja coletivo. Também, sob esse ponto de vista, não é preciso dizer o quanto a contribuição de Kant foi fértil, por exemplo, para a psicologia, quer dizer, há toda uma linhagem de estudos de psicologia que é diretamente devedora de Kant, por exemplo, a psicologia da gestalt, a psicologia da forma, que vem com aquele [Max] Wertheimer, [Kurt] Koffka e outros, na qual se procura identificar o elemento, por assim dizer, construtivo da percepção, quer dizer, como é que o nosso aparato psíquico estrutura os dados do mundo exterior. Isso aí também é um estilo kantiano de colocar os problemas. Enfim, a influência de Kant na cultural ocidental é imensurável, não dá para medir.
(Aluno): Tem uma frase da Anaïs Nin em que ela fala: “não vemos o mundo como ele é, vemos o mundo como somos”... Isto é kantismo, isso é Kant! Nós vemos assim porque nós somos assim. E como as coisas são mesmo, jamais saberemos. Então, seria quase impossível você mapear a influência de Kant na sua totalidade. Essa influência vai desde a filosofia propriamente dita até a história da cultura onde o estudo dos quadros perceptivos das várias épocas faz um imenso progresso, por exemplo, com Wilhelm Dilthey até, por exemplo, na Teoria do Direito, onde toda a teoria do [Hans] Kelsen, a “Teoria Pura do Direito”2 é também menos uma teoria pura do que um kantismo puro. Nós temos esta influência aqui, toda a corrente culturalista dominante no direito brasileiro, durante um tempo com Miguel Reale, isto é Kant também.
Enfim, Kant foi um arraso. Quando ele dizia que operou uma revolução copernicana na filosofia, quer dizer, virando o eixo de atenção, ele teve razão do ponto de vista histórico, quer dizer que ele operou realmente esta torção na visão que os filósofos das gerações seguintes tiveram das coisas. Mas que isto representasse, como a revolução copernicana, uma correção de um erro anterior, isto pode ser um pouco duvidoso, porque afinal de contas o kantismo não é nada mais do que certa maneira de ver as coisas, elas podem ser estudadas sob este ângulo, nós podemos estudar, por exemplo, toda a cultura de uma época como um conjunto, um sistema de formas subjetivas independentemente da sua relação com o mundo exterior. Porque, qualquer que seja o contato com o mundo real, só tem contato com aqueles pontos que a cultura enxerga, então, o retrato que ela faz do mundo deste ponto de vista tanto faz que ele seja correspondente com uma realidade objetiva ou não, porque é naquele mundo que as pessoas acreditam que vivem e ponto final.
Do ponto de vista metodológico, por exemplo, o kantismo simplifica muito as coisas porque, por exemplo, contar a história de uma ciência é contar um conjunto de esforços para apreender uma determinada realidade, então, teoricamente você teria que contar esta história desde o ponto de vista do conhecimento que você tem daquela realidade, por exemplo, você pega a geologia, você pega o conjunto de conhecimentos atuais do que sabemos da geologia atual, então, contaremos a história anterior, das sucessivas visões que as pessoas foram tendo deste objeto à luz do que nós sabemos dele.
Quando a abordagem é kantiana, o problema da objetividade ou da maior ou menor aproximação com a realidade não existe, quer dizer, você conta aquilo como se fosse uma sucessão de imaginações que as pessoas tiveram. Porque tanto faz você contar a história de uma ciência ou a história de uma sucessão de alucinações, vai dar mais ou menos na mesma. Que isto simplifica as coisas metodologicamente, é claro que simplifica! E daí o tremendo sucesso do Kant nas ciências humanas. Naturalmente um segundo efeito que Kant teve é que como você não pode mais definir a ciência pela constituição objetiva do seu assunto, pela constituição ontológica do objeto dela, então, naturalmente o critério de constituição da ciência inverte, você tem o método científico que é a sua abordagem, que é a estrutura da sua visão, e ele determina o objeto. Isso acontece, por exemplo, na Teoria Pura do Direito. O Kelsen definirá o objeto dele como tudo aquilo que pode entrar na sua metodologia, quer dizer, o método predomina sobre o objeto.
É como se dissesse: o olho passa a predominar sobre o objeto visto. Como método isso tem uma grande utilidade prática porque elimina uma porção de problemas, mas também introduz alguns que terão conseqüências devastadoras. Porque, quando o objeto é recortado segundo o método e o problema portanto da verdade objetiva do que você está dizendo já não interessa mais, a própria ciência fica meio sem critério, a não ser um critério intersubjetivo, na hora em que o sujeito propõe um outro método, você não tem como rejeitar o outro método, então Kant é um dos culpados da proliferação cancerosa de ciências. Cada sujeito que inventa um novo método, enfoca as coisas de uma nova maneira, pronto, ele constituiu uma nova ciência com um novo objeto, que por ser definido metodologicamente diferente do objeto da ciência anterior passa a ser realmente um novo objeto.
Quantos mais pontos de vista você inventar se tornam novas ciências independentemente de esses pontos de vista terem uma adequação objetiva com o seu assunto ou não, isso já não interessa mais; interessa somente a adequação à lógica interna do método. Mas a prazo mais curto, o efeito que Kant teve sobre a consciência dos filósofos que o rodearam foi a seguinte: é que eles acharam que quando Kant estabelece os famosos Prolegômenos a toda metafísica futura, o que ele está declarando em última análise é que a metafísica doravante não terá como objeto o ser e sim o conhecimento. Não é isso? Quer dizer, a metafísica se torna teoria do conhecimento, a teoria do conhecer. E alguns filósofos acham que isso não é suficiente, que nós, uma vez que seja aceita essa série de restrições e precauções kantianas, nós temos que sair de dentro da jaula do conhecimento e chegar a obter um conhecimento sobre a constituição real do ser.
A primeira reação notável é de um sujeito chamado Johann Gottlieb Fichte. Fichte era um tipo muito extravagante porque além de ter todo este subjetivismo alemão característico, ainda era um sujeito de origem muito pobre, Fichte era realmente um proletário, um dos poucos filósofos de origem proletária que nós conhecemos.
E ao longo da sua carreira, da sua ascensão, ele em vários momentos deixa expressar o fundo do seu ressentimento e da sua revolta contra aquela mesma sociedade que de algum modo o estava acolhendo e aceitando. Fichte foi beneficiado por uma bolsa de estudo no começo da vida e ele jamais perdoou aqueles que lhe deram essa bolsa. Então, tem aquele ditado, aquele negócio do “por que você me odeia se eu nunca te ajudei?”
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