Aula 26
Hegel
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Trecho
(10 primeiras páginas)
Vamos ver aqui o [George Wilhelm Friedrich] Hegel. Na verdade, cronologicamente, o [Friedrich Wilhelm Joseph von] Schelling deveria antecedê-lo, mas foi assim um equívoco feliz nosso. Por quê? A ordem cronológica é [Johann Gottlieb] Fichte, depois Schelling e depois Hegel, quer dizer, o Schelling exerce uma grande influência sobre Hegel no começo, e daí o Hegel toma uma outra direção.
Mas acontece que a parte mais significativa do ensinamento de Schelling veio no final da vida. Schelling teve duas carreiras acadêmicas, uma quando era bem jovem, fez um sucesso enorme, depois ele se retira, porque houve uns problemas lá, umas perseguições e tal, e ele se retira, fica fora da vida acadêmica por quase quarenta anos, e no final ele volta com os dois cursos, a “Filosofia da Mitologia” e a “Filosofia da Revelação”. Aquilo também fez um sucesso muito grande na época, mas foi mais um sucesso de manifestação de respeito pela volta do professor, essa coisa toda, ninguém prestou muita atenção no conteúdo do que estava sendo dito ali. De uns vinte anos para cá começou a aparecer estudo sobre isto, então, hoje é possível reconstituir melhor o sentido integral do que Schelling estava buscando naquele tempo todo. Schelling era uma cara assim como [Eric] Voegelin, ele ia um pouco por tentativa e erro, tentava um esquema aqui, não deu muito certo, então, começava de outro, etc., etc., até que no final ele fecha. Isso quer dizer que a parte mais substantiva da filosofia de Schelling é realmente posterior a Hegel; bastante posterior.
Aquela influência mais ou menos episódica que a filosofia de Schelling exerce sobre Hegel no começo pode ser anotada de passagem na exposição da filosofia de Hegel e mais tarde, então, abordaremos o Schelling. Digamos, trinta anos atrás, a idéia de você anteceder o Hegel ao Schelling parecia absurda a qualquer historiador, todos, todos, todos colocam nesta ordem: Fichte, Schelling e Hegel. Hoje em dia esta ordem é até contestável porque a parte final da filosofia de Schelling, Hegel não chega nem a conhecer. Hegel morre em 1831 e esses cursos de Schelling já são posteriores.
Se vocês estão bem lembrados da aula sobre Fichte, vocês verão então que a introdução do método dialético por Fichte tem algo a ver com a idéia de que o processo real, o processo temporal da aquisição do conhecimento é transformado aí numa nova espécie de lógica, quer dizer, a lógica que eles usam não reflete apenas a ordem ideal do pensamento, a ordem ideal no sentido do dedutivo, ir do geral para o particular, mas eles acreditam que na busca da verdade o pensamento percorre um certo número de etapas que são necessárias e são repetíveis. Vocês lembram da formulação que Fichte dá a isso, não é? Ele coloca como ponto de partida, por exemplo, como primeira certeza, como princípio, o eu; e o eu, ao se definir, tem que se definir em face de um não-eu, então, ele mesmo, por assim dizer, constitui um não-eu para ele poder se identificar, e assim por diante.
Muito bem, existem muitas maneiras de você entrar na dialética hegeliana, mas tem uma que é particularmente propícia. Hegel acredita que embora o conhecimento intuitivo e imediato possa ter alguma utilidade ou importância, o verdadeiro plano no qual se move a filosofia é o plano dos conceitos e da pura dedução lógica, tem que ser daí para cima. A filosofia para ele é uma atividade construtiva da mente que vai construindo o edifício dedutivo com puros conceitos sem ter que prestar muita atenção ao lado empírico, e ele tem motivos para proceder assim, não é uma coisa arbitrária, na própria exposição da filosofia isso vai se tornando claro.
Mais ainda, ele acredita que um conhecimento só pode ser dito verdadeiro quando considerado como sistema, como um conjunto integral, quer dizer, não há para ele afirmativas que em si mesmas sejam verdadeiras ou falsas, quer dizer, só inseridas dentro do sistema é que você vai pegar a verdade ou falsidade de uma afirmativa. Isso corresponde mais ou menos ao espírito da filosofia em geral; na interpretação de todos os filósofos, se o que o sujeito está dizendo é verdadeiro ou falso, você vai ter que reconstruir de fato toda a filosofia dele. Isto acontece assim de fato, mas para Hegel isso não é só uma característica do discurso filosófico, isto é uma característica da realidade, da estrutura da realidade como tal, a realidade, para ele, é sistema, é ordem, é totalidade, então, as peças soltas nunca significam nada.
Neste sentido, ele é um anti-empirista e a idéia mesma de fato para Hegel seria uma idéia absolutamente insensata, porque fato seria um dado dos sentidos considerado atomisticamente em separado de qualquer outro. A crítica que ele faz é que nenhum dado considerado assim significa absolutamente nada; e que sempre que nós estamos alegando um fato, nós estamos subentendendo por detrás dele todo um sistema, quer dizer, nós não olhamos para um sistema de relações e conexões que está servindo de chave para interpretação e de fundamento para legitimação desse fato, mas que esse sistema está lá, está! Ele quando fala em conceito verifica em primeiro lugar que existe uma diferença fundamental entre os conceitos matemáticos e os conceitos de qualquer outra coisa.
Ele diz que um conceito de qualquer entidade matemática é sempre fechado em si mesmo e reflete a absoluta imutabilidade do seu objeto. Por exemplo, um número, o conceito de um número, o conceito do número 2, ou do número 3, expõe imediatamente o conteúdo, o quid, o sentido desse número, de tal modo que esse número jamais se converte em outro, não há jamais a possibilidade de o número 2 ser 3 ou de um quadrado ser um círculo.
E ele pergunta: “Essa estabilidade dos entes matemáticos, que já tinha sido constatada e emitida por Platão não é nem um dado da natureza externa, nem um fato da natureza externa, porque você não verifica esta perfeição matemática em fato nenhum da ordem externa, mas ela também pode ser considerada mera invenção da mente humana”. Aí você tem uma terceira ordem de entidades que não são nem mentais (ele diz espirituais, mas eu acho que o termo é inexato), ou culturais, nem naturais. Mais tarde, Edmund Husserl fará a mesma constatação e chamará esses entes de entes ideais no sentido platônico da idéia, quer dizer, são formas que são independentes de toda a realidade física existente, mas que não são de maneira alguma inexistentes, eles são existentes, eles são reais, eles têm propriedades reais que podem ser descobertas pela mente humana, descobertas e jamais inventadas, isso quer dizer que quando você investiga as propriedades de uma figura geométrica, por exemplo, não é você que está inventando a figura, ela tem uma série de exigências internas que provam que ela tem uma substancialidade, ela é alguma coisa em si mesma.
Admitida a existência dessas entidades ideais, quando você pode estruturá-las todas num edifício lógico perfeitamente coerente, que seria justamente a estrutura da aritmética, ela é inteiramente dedutiva e não tem furo, não tem salto nesse edifício dedutivo. Isso quer dizer que quando você está falando de objetos matemáticos existe realmente uma relação lógica entre o fundamento alegado, ou seja, a premissa e a coisa fundamentada, ou seja, as conclusões. Então, a relação lógica seria a do fundamento para o fundamentado.
Ele diz que quando nós abandonamos a esfera dos entes matemáticos ou lógicos — a estrutura lógica seria também desse tipo — e partimos para o exame dos fatos da natureza, nós observamos que não existe uma correspondência exata, porque aquilo que na ordem lógicomatemática era a relação do fundamento para o fundamentado, ou da premissa para a conclusão, se transforma quando transposto para a ordem da natureza numa simples relação temporal que nós dizemos ‘de causa e efeito’. Mas nós percebemos que entre uma causa e um efeito observados na natureza existe um elo, mas não é um elo tão firme e tão inexorável quanto o da fundamentação lógica. Você pode mais ou menos identificar processos causais, mas como houve aí a introdução das variáveis tempo e espaço, então aquelas relações lógico-matemáticas não aparecem na natureza nem com a nitidez, nem com inexorabilidade da relação lógico-matemática.
(Aluno): Seria mais probabilístico?
Hoje nós formularíamos assim, mas isso não quer dizer que você vai poder reduzir a ordem natural ao probabilismo. O que ele diz é mais exato, ele diz que simplesmente não corresponde bem. Já na Antigüidade, Aristóteles tinha dito que o método matemático não serve para a física porque não há correspondência exata entre a ordem matemática e a ordem dos fatos da natureza. Mais tarde se acreditou que havia, Galileu Galilei diz: “Não... Deus escreveu o livro da natureza com caracteres matemáticos”. E hoje se sabe que de fato não é bem assim, de fato quem tinha razão é Aristóteles. Existe um hiato entre um mundo e outro, você tem uma estrutura lógico-matemática da realidade, estrutura dentro da qual a própria idéia de probabilidade é um componente dela, e em seguida você tem a realidade manifesta, a qual depende da anterior, que por sua vez não depende dela de maneira alguma, quer dizer, as leis da matemática e da lógica não dependem da existência deste universo tal como ele está constituído. E no entanto é uma ordem perfeitamente real e existente. Levando isso em conta hoje em dia, se a gente se lembrar disto hoje em dia, nós vemos que todas essas discussões sobre a origem do cosmos, etc., etc., são de um nível metafísico muito baixo porque não levam em conta que a estrutura lógico-matemática é preexistente, independente da existência do universo como tal, e no entanto ela é algo, ela não é um nada. O problema da origem do cosmos está vinculado, está dependente de um outro problema muito maior que é: qual a origem da estrutura da realidade? Não da realidade manifesta, mas da estrutura dela. Mas isso aí, você exigir que as pessoas que discutem o assunto hoje, esses cosmólogos e até do tipo de Stephen Hawking e tal cheguem a conceber isso... isso está tão acima da imaginação deles que nem entra em linha de conta; isso quer dizer que essas abordagens baixaram para um materialismo pueril, um materialismo de criança.
(Aluna): Os fenômenos da natureza então pelo fato de eles passarem por essas duas variáveis eles não têm a mesma perfeição dos fenômenos matemáticos?
(Aluna): Essa perfeição... você usou algum termo aí que...
Veja, a relação dedutiva que de duas premissas segue uma conseqüência necessariamente, ao passar para o processo espaço-temporal, ela se converte num tipo de sucessão que não é exatamente assim, que não tem essa inexorabilidade.
(Aluno): Você não consegue isolar as causas exatas que dão tal efeito.
Não, não é só que você não consegue isolar...
(Aluno): Não existe...
Não conseguir isolar seria uma deficiência do nosso conhecimento.
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