Aula 27
Schelling
Livro + DVD
Trecho
(10 primeiras páginas)
A apresentação convencional da filosofia de Schelling costuma situá-lo dentro deste período chamado de Idealismo Alemão, mas eu acho que essa classificação não cabe muito bem. A filosofia de Schelling é uma coisa de enorme complexidade e a parte dela que se situa claramente neste desenvolvimento é só uma primeira parte. E tem uma segunda que nós não sabemos situar historicamente ainda porque de fato não foi absorvida até hoje. Porque você só pode localizar historicamente uma filosofia supondo-se que dominou a sua estrutura interna e que você compreendeu as suas implicações, então você é capaz de vê-la de fora e portanto situá-la dentro de uma cronologia, relacionando com as suas antecedentes e as suas conseqüentes. Mas acontece que essas conseqüentes na verdade não apareceram até hoje. Na verdade, foi só a partir – eu creio – dos anos 50 que se começou realmente a prestar atenção nessa segunda parte da filosofia de Schelling que é justamente aquela que ele apresenta já na décda de 40, 1940, na “Filosofia da Mitologia e Filosofia da Revelação” e no livro “As Eras do Mundo”, e que são provavelmente os melhores livros de filosofia que alguém escreveu no Ocidente. Não há nada que se compare a isso aí. É uma coisa tão grande que a gente tem a impressão de que nós ainda estamos dentro de uma época de Schelling e não temos consciência muito clara disso.
De qualquer modo é preciso ver que uma das características de Schelling é que ele próprio se situa historicamente, ele se coloca num ponto determinado do desenvolvimento do pensamento europeu, ele sabe onde ele está com relação aos seus antecedentes, mas nós não podemos ainda situá-lo com relação aos seus conseqüentes porque nós fazemos parte disto aí, ainda estamos dentro da fileira de conseqüências do pensamento de Schelling o qual ainda dará muitos frutos pelos séculos seguintes; me parece a filosofia mais fértil de conseqüências que existiu nos últimos séculos. Mas, ao tentar se localizar historicamente, ele parte exatamente do cartesianismo que ele considera um acontecimento catastrófico na ordem do espírito humano, não que ele se oponha à filosofia de Descartes, não é esse o ponto, é que algo aconteceu ali de muito grave que não pode ser reduzido à biografia intelectual de Descartes, existe realmente uma ruptura com algumas conquistas importantes do espírito humano. E essa ruptura toma a forma, como, aliás, nós já mencionamos de passagem, de uma aporia, um conflito insolúvel que é colocado pela ciência cartesiana na medida em que ela dividindo o ser, o existente, em dois tipos de substâncias, substância dita pensante ou ego subjetivo que se conhece por autoreflexão, meditação; e a substância extensa que é aquela que se caracteriza por ter uma extensão, por poder ser medida de algum modo, nós imediatamente concluímos que nenhuma dessas duas corresponde à natureza no sentido em que nós estamos acostumados a viver nela. O eu não ocupando lugar no espaço, ele sendo constituído apenas da sua própria auto-reflexão, da sua própria autoconsciência evidentemente ele não é um dado da natureza física, ele não tem como ser situado dentro da natureza, pode ser situado no tempo, mas não no espaço. E a tal substância extensa também não corresponde aos entes da realidade física justamente porque ela se define exclusivamente pela sua extensão, quer dizer, pela sua forma mensurável.
Ora, se você somar todas as medições que você pode tomar sobre um ente, você vai saber certamente muita coisa sobre ele, mas ele não constituirá com isso nada de real; porque a realidade que se apresenta a nós se apresenta sempre sob a forma de existências individuais irredutíveis, tudo o que existe, existe como individualidade; já dizia Duns Scott que o ser e o um se convertem mutuamente, quer dizer que no fundo são o mesmo conceito, existir significa ter alguma individualidade. E o fato é que tudo aquilo que num ser pode ser medido é exatamente aquilo que ele tem simplesmente em comparação ou em relação a outros entes. Quer dizer, a existência dele como substância individual não pode ser abarcada pela idéia de medida ou de extensão, então, o que acaba sendo prejudicado aí nesta ciência cartesiana é a própria natureza sensível que fica reduzida aos seus aspectos mensuráveis. A facilidade que isto oferece, de algum modo para os estudos científicos, é bastante sedutora porque justamente as medidas são aquilo que todo mundo pode conferir. Então, uma ciência constituída apenas dos aspectos mensuráveis é de certo modo uma ciência que está ao alcance de todo mundo.
O fato de que ela não tenha nada a ver com a realidade substantiva da natureza parece que não afeta a ninguém. Porque a idéia de que o processo do conhecimento deve se ater aos aspectos fenomênicos, isto é, aqueles aspectos que são mais aparentes, e que estão mais ao alcance do conhecimento humano, essa idéia se impregnou de tal modo na mente humana que passados três séculos e meio já ninguém se dá conta de que quanto é anormal você acreditar que vive num mundo que é constituído apenas de aparências onde não existe nenhuma substância, onde não existe nenhuma realidade. É claro que a própria consciência humana repugna profundamente a idéia da sua própria irrealidade. E não vejo como se poderia escapar disso uma vez que você decretou que tudo se constitui apenas de aparências mensuráveis. Mas ao mesmo tempo em que se desenvolvia esta filosofia de Descartes havia ainda um conflito que se desenvolvia desde algum tempo antes que é o surgimento das novas ciências, ciência de Galileu, de Newton, ele repentinamente coloca de lado todo o universo alquímico, astrológico e simbólico da ciência medieval. Esse universo ao qual nós ao longo desse curso não dedicamos atenção suficiente, mas que talvez deveríamos ter feito, ele encarava a natureza essencialmente como sendo uma manifestação do Espírito divino ou do Logos, da fala divina, então, o universo é constituído de unidades significantes em permanente e universal intercomunicação, quer dizer, tudo tem alguma relação com tudo, tudo significa algo, tudo diz algo, e o universo de algum modo pode ser lido.
Hoje em dia nós temos uma certa dificuldade de compreender o grau de exatidão em que essa leitura podia ser feita. Claro que o que sobrou disto na nossa cultura foram apenas algumas técnicas divinatórias que tentam, por exemplo, prever um acontecimento a partir de algum indício que nos parece não ter nenhuma relação causal com aquilo. E evidentemente este é só um resíduo deixado no fundo quando a substância daquele universo cultural já se desfez. Com o surgimento das ciências modernas o mundo da natureza passa a ser encarado apenas como um objeto de medição e comparação, quer dizer, ele perde toda a substancialidade própria, e evidentemente o mundo que a ciência física estuda não é propriamente o mundo no qual nós vivemos, mas é um conjunto de abstrações selecionado para este fim especificamente. E isto talvez tinha que ser necessariamente assim pelo fato de que cada ciência só pode abarcar uma determinada seção da realidade, desde que ela queira proceder de maneira organizada, ela vai ter que recortar o seu objeto mais ou menos de acordo com as possibilidades de investigação que ela tem, quer dizer, existe uma certa comproporcionalidade entre o objeto da ciência e o método que a investiga. Então, é evidente que a tendência de recortar o mundo de acordo com o método, quer dizer, fazer com que o método seja de certo modo mais real do que o próprio objeto, essa tendência também é quase irreversível, é difícil de você deter. E o fato é que à medida que as ciências modernas conseguem alguns avanços impressionantes nos séculos que se seguem ao Renascimento, nesta mesma medida, o mundo da natureza tal como elas o descrevem não se parece em nada com o mundo da experiência humana. Isso quer dizer que aqueles dois pólos que justamente na ciência medieval apareciam unidos, quer dizer, na idéia da analogia e da simbolização mútua entre as várias partes do cosmos que era considerado uma totalidade vivente na qual todas as partes reagem umas às outras e dialogam umas com as outras, de repente esta totalidade desaparece sendo substituída por um conjunto de esquemas matemáticos, por um lado, que são objetos da ciência física e, do outro lado, por uma idéia de um eu incorpóreo que miraculosamente, não se sabe como, se vê dentro deste cenário de entes matemáticos que lhe são completamente heterogêneos, que não tem nada que ver, quer dizer, você não consegue reduzir o eu a uma formulação matemática. E as formulações matemáticas, por sua vez, só podem ser conhecidas pelos métodos matemáticos, pela medição. Isso quer dizer que a auto-reflexão do eu não ajuda você em nada também a compreender a natureza.
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