Aula 28
Kant e Hegel
Origem do positivismo e marxismo
Livro + DVD
Trecho
(10 primeiras páginas)
Schelling tal como eu expus na última aula é algo que quase não chegou a acontecer historicamente, não teve repercussão na época, não entra na corrente das idéias. Aquela idéia é lançada e ela fica ali guardada esperando para só no século XX ter uma continuidade. O que realmente teve efeito, o que veio a entrar e engrossar a corrente das idéias no século XIX foi justamente o que veio antes que é Hegel e Kant. Então, praticamente todo o desenvolvimento da história da filosofia e de modo geral da história das idéias, talvez até da história da cultura em geral, no século XIX vai partir desses dois pontos, Kant e Hegel. De cada um vão derivar correntes que prosseguem até hoje e que de algum modo modelam não só as idéias dominantes na sociedade, mas se impregnam tão profundamente na cultura que chegam a determinar e dar forma à percepção individual das coisas. Ou seja, as pessoas enxergam as coisas realmente dentro de uma estrutura kantiana ou hegeliana ou uma mistura das duas coisas. Se nós perguntarmos assim: então, nesse sentido, o que sobra realmente de Kant e Hegel nessa herança? É claro que não é o sistema inteiro, nem a sua obra inteira, nem o conjunto daquilo que eles deram, mas apenas um certo núcleo, e esse núcleo se impregna na cosmovisão das gerações seguintes e é transmitido até nós. Então, esse núcleo não precisa necessariamente coincidir com o núcleo da intenção que esses filósofos tiveram. Talvez eles mesmos examinando as conseqüências históricas que eles próprios desencadearam1 tivessem que retificar alguma coisa, ou se corrigir em algum ponto, ou chamar a atenção dos seus continuadores por os ter interpretado não muito exatamente, etc., etc. Tudo isso não vem ao caso para nós, quer dizer, o que nos interessa não é a partir desse momento o que Kant e Hegel realmente disseram, mas tal como eles foram interpretados pelas gerações seguintes, quer dizer, não aquilo que eles quiseram fazer, mas aquilo que foi feito com as idéias deles. Eu acredito que existe uma boa relação entre uma coisa e outra, não acredito que eles tenham sido traídos ou deformados, mas também não acredito que a herança deles coincida exatamente com o que eles pretendiam fazer. Ninguém consegue controlar de tal modo a sua própria influência nas gerações seguintes.
Mas olhando Kant e Hegel então sob esse aspecto resumido e enxertando os dois dentro de uma corrente evolutiva que já vinha antes, nós vamos ter que situá-los em relação à situação anterior, a uma longa tradição filosófica que vai dos gregos até eles e em seguida situá-los em relação aos seus sucessores.
Com relação aos antecessores, a diferença básica que separa Kant e Hegel do que vem antes, a maneira mais simples de ver essa diferença é comparar por um lado com Platão, por outro lado com os escolásticos, ou São Tomás de Aquino, sob um certo ponto de vista que é o mais importante, e esse mais importante é justamente o das relações entre o conhecimento humano e a estrutura objetiva da realidade. Platão tinha a idéia de que o homem é uma espécie de intermediário entre os animais e os deuses, quer dizer, essa idéia que ele tem da metaxi (metaxi) mostra, que o homem é um ser que não está nem totalmente bem instalado no mundo terrestre, no mundo dos sentidos, e que nem chega a ascender completamente ao mundo dos deuses. Então, ele vive nesse entremeio, portanto a estrutura do conhecimento humano é uma estrutura problemática e tensional, por assim dizer, nós nem chegamos a tomar posse plenamente do mundo dos sentidos e nem do mundo dos deuses. Isso quer dizer que nós estamos o tempo todo traduzindo um nos termos do outro e o outro nos termos do um. O que faz com que toda a estrutura do conhecimento humano tenha uma natureza simbólica. Quer dizer, o que é neste sentido é um símbolo? Um símbolo é na verdade um signo com significado inesgotável, quer dizer, onde o significante não corresponde perfeitamente ao seu significante, quer dizer, o signo tem uma natureza alusiva, ele aponta numa direção, mas no enunciado de significado ele não chega a cobrir perfeitamente o seu objeto, quer dizer, o objeto transcende de muito o significado; o objeto, não; a essência do objeto considerado transcende de muito aquilo que o significado está lhe indicando. Então, isto é a mesma coisa que dizer que não existe para Platão um conhecimento literalmente verdadeiro, todo conhecimento só é simbolicamente verdadeiro, quer dizer, o conhecimento é verdadeiro quando ele o indica na direção de uma realidade que depois você por seu esforço próprio pode chegar a conhecer por experiência pessoal, ou seja, não cabe à filosofia propriamente dizer a realidade, exprimir verbalmente a realidade, mas cabe à filosofia indicá-la para que o ser humano concreto que está ouvindo aquilo saiba em que direção está aquilo do qual você está falando e ele também olhe para lá.
Então, isto é uma coisa assim absolutamente fundamental não só em Platão, mas em toda a tradição ocidental e oriental. Se você olhar direitinho, você compara, por exemplo, esta idéia com os seus similares que aparecem no taoísmo, no budismo, nos vedas, etc., etc., você vai ver que nunca ninguém na humanidade, nenhum dos grandes sábios ou filósofos teve a pretensão de que o seu discurso fosse uma tradução exata da realidade, porque se o discurso fosse uma tradução exata da realidade, ele seria por assim dizer verdadeiro em si mesmo independentemente de quem está ouvindo. Ora, nós sabemos que todo discurso só se torna verdadeiro de acordo com a compreensão que o ouvinte tem dele. Quer dizer, se eu aprendi uma verdade e a digo para vocês, eu digo: a verdade do que eu apreendi pode estar no meu discurso porque eu tentei colocá-la lá, mas isso só vai se perfazer, só vai se completar na hora em que você entender aquilo. Quer dizer, todo discurso necessita de um ser humano que efetive os conhecimentos que ele está transmitindo. Por isto se a efetivação da verdade depende de um ato humano daquele a quem a verdade está sendo transmitida, então, isso quer dizer que nenhum discurso em si mesmo pode ser tido como verdadeiro. Ele vai depender sempre de uma efetivação. Ou seja, toda ciência nesse sentido ou toda filosofia é um processo educativo, quer dizer, ao instrutor cabe menos ele dizer a verdade do que ele criar as condições que permitam que o aluno perceba esta verdade. E neste sentido todo discurso humano é evidentemente simbólico, quer dizer, eu não posso pegar a verdade que eu apreendi e traduzi-la tão eficazmente para vocês de modo que ela esteja presente, porque o discurso versa sobre o universo, sobre a realidade, sobre Deus, etc., etc., nenhum ser humano tem a capacidade de presentificar fisicamente essas coisas através do seu discurso; na hora em que você diz a palavra elefante, o elefante não se materializa ali. E o conhecimento efetivo se dará não somente na compreensão do discurso pelo seu ouvinte, mas na hora em que esse ouvinte é capaz de reconhecer aquilo na própria realidade da sua experiência. Então, o hiato entre discurso e realidade sempre foi considerado uma coisa quase banal. Quer dizer, o conhecimento não se perfaz no discurso, mas se perfaz no ser humano que o ouve. Então, você tem quatro elementos aí na verdade, você tem o emissor, o receptor, o discurso e o mundo; e o mundo é a chave que vai fechar tudo isso aí. E como ninguém pode ter a pretensão de abarcar o mundo com o seu discurso, então, você usa o discurso como um indicador, como um símbolo, de modo que o seu ouvinte ouvindo o discurso ele veja o mundo.
Durante milênios os seres humanos foram capazes de viver nessa figura quadrangular, tentando sempre se aproximar da realidade, da verdade, através do discurso, sabendo que o discurso não era suficiente para isso, e sabendo que sempre para além do discurso você ia ter que abrir para uma perspectiva de experiência ilimitada. E curiosamente isso não incomodava a ninguém, as pessoas achavam que assim era muito natural, acontece que a partir de um certo momento que é marcado justamente pela época de Descartes, Galileu, etc., etc., aparece a pretensão de prender a realidade dentro de um sistema que enuncie tão bem a estrutura íntima desta realidade que seja possível prever a conduta da realidade com exatidão daí para diante. Quer dizer, é a tentativa de olhar a realidade como se ela fosse uma máquina da qual você conhecendo a estrutura e o funcionamento, você pudesse operar a máquina de modo perfeito. Não precisa dizer que a idéia em si mesma é imbecil, mas também não precisa dizer que sempre haverá partes da realidade que funcionam realmente assim, a começar pelas próprias máquinas. Quer dizer que se você lendo, vendo o diagrama e o manual de instruções de um equipamento qualquer, você não consegue fazê-lo funcionar exatamente como está no manual de instruções é porque algo deu errado. Mas a idéia de fazer da ciência uma espécie de manual de instruções do conjunto da realidade e de chegar a expressar a realidade em fórmulas matemáticas perfeitas e definitivas que permitissem ao homem adquirir um poder sobre o conjunto da realidade, esta é uma idéia que aparece justamente na Renascença com Galileu, com Bacon, com Descartes, etc., etc. Então, você vê que neste momento, quando aparece essa proposta, existe uma ruptura do equilíbrio anterior. Antigamente você tinha uma espécie de equilíbrio tensional, quer dizer, nós sabemos que nós não podemos saber tudo, nós sabemos que nós não podemos fazer o conjunto da realidade caber dentro do nosso discurso como se fosse o infinito em ato, mas nós sabemos que através de símbolos bem articulados nós conseguimos remeter o nosso ouvinte e nós mesmos a uma realidade de modo que nós sempre sabemos do que estamos falando, embora não consigamos dominar aquilo completamente.
Então, vamos dizer que até essa época chamada Renascimento o objetivo do conhecimento era situar o homem dentro da estrutura da realidade. A partir do Renascimento surge a ambição de que a realidade deve ser contida dentro do discurso de tal modo que conhecendo o discurso você domine a realidade.
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