Aula 29
Genealogia das Ciências
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Trecho
(10 primeiras páginas)
Todo esse ciclo moderno, a partir de René Descartes, é marcado por um desejo muito grande de encontrar um tipo novo de conhecimento que se legitime por si mesmo e que seja marcado por uma diferença radical em relação a tudo o que se tinha como conhecimento desde a Antigüidade até o fim da Idade Média.
A idéia de uma nova ciência, de uma nova constituição do mundo do conhecimento, já se declara com Bacon no “Novo Órganon” e com Descartes nos “Princípios da Filosofia”, nas “Meditações Filosóficas da Primeira Filosofia” e no “Discurso do Método”; é continuamente reafirmada, quando Galileu publica suas observações, ele já publica como duas novas ciências, e assim por diante. A idéia de uma nova ciência, então, se impregna em toda a atmosfera européia desde o século XVI até o século XIX. Depois vão considerar que no século XIX esta idéia está oficializada e ela pode ser considerada triunfante num meio universitário que, aliás, foi criado justamente para isto. Seria inexato você dizer que a idéia da nova ciência triunfa no meio universitário porque ela em parte cria este meio universitário; esse é um processo onde uma coisa fomenta a outra e a outra fomenta a uma. Também seria inexata a idéia de que uma idéia triunfa sobre a outra porque subentenderia que gerações que tiveram acesso ao primeiro tipo de conhecimento puderam confrontá-lo com o segundo e o escolheram, isso na verdade jamais aconteceu.
Desde os pioneiros da nova ciência, como o próprio René Descartes, todas as gerações subseqüentes já são marcadas desde o início por uma adesão inicial ao novo modelo que é o único que conhecem; quando tem alguma referência ao antigo geralmente é uma referência truncada, muito nebulosa, e o conhecimento que tem da filosofia antiga e medieval vai se diluindo com o tempo. Não só vai se diluindo, mas ele já vai sendo re-enquadrado dentro de um conjunto de modelos de certo modo já calculado para assinalar a esse conhecimento antigo um certo lugar numa pretensa evolução histórica já concebida para ter a nova ciência como o pináculo, o cume, da evolução. De maneira que é quase irresistível a gente ver todo este período novo como uma espécie de jogo de carta marcada.
Desde o início a nova ciência se auto-decreta como superior a uma ciência que ela desconhece e em seguida inventa um modelo histórico no qual a humanidade passa de um estágio mítico (pelo modelo do [Augusto] Comte) para um estágio metafísico, e enfim passa para um estágio científico ou positivo no qual o distinto emissor da teoria se encontra. E após ter feito esta opção inicial e ter construído este modelo legitimador, o que se trata é de recortar os dados da ciência antiga para que eles se adaptem a este modelo. Tudo isto quando visto no conjunto é assim, pensando bem, de um ridículo atroz, e é um processo de autoocultação no qual as pessoas escondem aquilo que elas não querem ver. E curiosamente este processo vem junto com um grande orgulho científico, uma idéia de que nós temos o conhecimento objetivo e os antigos só tinham mitos, erros metafísicos, etc., etc., quando justamente o que eles estão fazendo é construir um universo mítico que os coloca no topo da evolução, no topo de uma suposta evolução, e em seguida, suprimir os dados que poderiam ser confrontados com este modelo. Pensando bem, tudo isso é uma historinha para crianças, e o número de pessoas que ainda acredita nisto no mundo, muito tempo depois de entre os historiadores isto já ter sido completamente estourado, ainda é muito impressionante. Nós podemos dizer que a cultura brasileira inteira, a classe superior inteira do Brasil ainda vive dentro deste mito dos três estágios do Augusto Comte, acredita nisso piamente e fica mesmo chocada se alguém contesta isso, eles acreditam que isto é uma atitude muito polêmica. É polêmica para eles porque são caipiras, nunca ouviram falar disto.
Desde o começo do século XX não existe nenhum historiador profissional que acredite nesta seqüência de acontecimentos tal como aparecem na lenda comteana. Eu digo comteana porque o Comte foi o sujeito que fez a formulação expressa mais simples dessa mitologia, mas não podemos dizer que o Comte a inventou, é uma coisa que foi se formando ao longo dos séculos, e quando Comte enuncia a lei dos três estágios ele não faz outra coisa senão dizer algo no qual todo mundo já estava acreditando fazia dois séculos. Um aspecto curioso dessa lenda é que tão logo ela alcança uma expressão simples e declarada como na lei dos três estágios do Comte, imediatamente ela já começa a ser desmoralizada. Desmoralizada, não no plano da discussão, no plano das teses filosóficas, mas desmoralizada pela maneira mais simples que é a documentação. Porque também esta efusão de entusiasmo pela ciência produz de fato algum efeito positivo; e um dos efeitos positivos é que isso fomenta muito a investigação histórica. Quer dizer que as pessoas que ouvem aquela propaganda toda da idéia de ciência, aquela idealização da idéia de ciência, algumas se entusiasmam pela coisa com toda a sinceridade e levam o negócio a sério e acreditam que é para fazer ciência mesmo, e acabam até fazendo. Essa é uma das características da linguagem demoníaca, é que quando ele parece falar a verdade, está mentindo, e quando parece que está mentindo, está falando a verdade, e você se atrapalha justamente por causa disso. Se fosse a mentira simples, a mentira simples é simplesmente humana; agora, a mentira dupla e concordante, dupla e complementar, já é uma artimanha do Demônio. A gente pode dar um exemplo: no “Fausto”, de [Johann Wolfgang von] Goethe, o Demônio - [quando] se confronta com a frase bíblica, a frase de São João: “No princípio era o Logos” ou “No princípio era o Verbo” 1 - diz: “Não, não é nada disso, no princípio era a ação [am Anfang war die Aktion]”. O que quer dizer isso? Por um lado se é a ação, então, a ação como efetividade se opõe ao que é mera potência, está dizendo que o ato precede a potência. Isso é exatamente como está em Aristóteles, então, não tem novidade, isso é perfeitamente verdade, e isto não é de maneira alguma o contrário do “No princípio era o Logos”. Então, no princípio era o ato divino e em Deus não existe nada potencial, tudo é perfeitamente em ato porque Deus é eterno, Deus não tem a passagem da potência ao ato. Nesse sentido está certo, mas quando Mefistófeles diz isso, ele sabe que as pessoas não sabem, não conhecem a “Metafísica” de Aristóteles e que vão entender esta “ação” no sentido de força física, uma espécie de força no sentido galileano [de] força física. Ele diz a verdade porque ele sabe que eles vão interpretar erroneamente e cair na mentira.
Também dentro do desenvolvimento histórico você vê que muitas vezes uma óbvia mentira é interpretada no sentido da verdade e assumida positivamente, quer dizer, a mentira acaba funcionando como verdade, não no sentido de que as pessoas acreditam, mas no sentido de que dão um outro sentido, e este sentido por sua vez é verdadeiro. Então, o enorme estímulo que a idealização da ciência deu à pesquisa histórica no século XIX acaba por justamente mostrar a falsidade desta mesma concepção evolutiva que coloca os cientistas do século XIX no topo da evolução. E isso acontece principalmente porque começam a aparecer todos os textos de todas as civilizações e este material imenso colocado à nossa disposição, pela sua simples presença, já mostra que a idéia de uma evolução em três estágios, a evolução que passa do estágio mítico, vai do estágio mítico até o estágio científico é totalmente furada. A idéia de uma infância da humanidade, quer dizer, uma época em que as pessoas pensavam só por imagens míticas e acreditavam em histórias da carochinha ou quando tinham uma lógica primitiva como a idéia do Lucien Lévy-Brühl, antropólogo que escreveu o livro “A Mentalidade Primitiva”2 tentando mostrar que a lógica dos primitivos não era a nossa lógica. Estas mesmas idéias, à medida que aparecem os textos e documentos, são demolidas automaticamente e a gente vê que não existe nada disso e que é absolutamente impossível você falar de uma evolução linear neste sentido. Mesmo porque você acaba vendo que até mesmo a idéia da evolução em três estágios já tinha sido enunciada na etapa que Comte diria metafísica, pelos três estágios do Joaquim de Flora, a era do Pai, a era do Filho, e a era do Espírito Santo. Então, quando Comte acredita que está enunciando uma lei científica e superando os mitos metafísicos, ele está apenas repetindo um outro mito que já foi enunciado seiscentos anos antes dele. E esta idéia também da evolução em três etapas aparece muitas vezes, aparece no Hegel, aparece no Marx, etc., etc. E quando você vai ver, aquilo é apenas a repetição de um esquema mítico já muito antigo. De maneira que esta diferença que o século XIX faz entre ciência e mito é ela própria um mito.
Essa diferença a rigor não existe, existe uma outra diferença que nós poderemos até explicar brevemente. Existem duas noções muito antigas a respeito da inteligência humana, das vias de acesso que o ser humano tem ao conhecimento das realidades maiores: uma é a que se chama propriamente [de] a inteligência, o Aristóteles a chamava de noús (nou/j), e, por outro lado, aquilo se chamaria [de] espírito ou pneúma (pneu/ma). Então, a famosa distinção já clássica entre a via noética e a via pneumática de acesso ao conhecimento transcendente. A noética é aquela que aparece no nível das intelecções, no nível do conhecimento dos primeiros princípios, e o acesso pneumático é aquele que aparece sob a forma de experiência existencial como, por exemplo, quando São Paulo Apóstolo, no caminho de Damasco perseguindo os cristãos, de repente é fulminado pela compreensão de que ele estava perseguindo a coisa errada e de que o Deus daqueles camaradas era o verdadeiro Deus e no fundo o mesmo Deus dele.3 Ele não compreende isto como intuição no sentido intelectual da coisa, é algo que lhe acontece, ele é existencialmente fulminado pela visão daquilo. Você vai ver que a diferença que existe entre a tradição filosófica e as tradições religiosas é essa, quer dizer, da apreensão intuitiva ou noética ou da apreensão existencial ou pneumática. Mas acontece que essas duas não são historicamente sucessivas, a apreensão pneumática, naturalmente, como ela não é intelectualmente diferenciada, elas de expressam em símbolos narrativos, símbolos poéticos, toda narrativa no fim das contas é poética; e a apreensão noética ao contrário se expressa em símbolos e numa linguagem analítica. Mas acontece que essas não são historicamente sucessivas, elas são simultâneas. Quer dizer, alguns dos antigos filósofos gregos estavam tendo as suas intelecções noéticas ao mesmo tempo em que os profetas hebraicos tinham as suas vivências pneumáticas. Então, como é que você vai aí falar de uma vivência, de um conhecimento mítico que antecede o conhecimento racional, intelectual? Eles vieram ao mesmo tempo, só que aí depende das circunstâncias, não há evolução histórica, há apenas uma diferente modalidade de compreensão das coisas. Passados, aí, então, seriam 2404 anos desse negócio, ainda continua havendo a possibilidade de conhecimento pelas duas vias, ainda acontece, é igualzinho.
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