Aula 30
Edmund Husserl
e a filosofia do século XX
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Trecho
(10 primeiras páginas)
Nesse final a gente mal pode dar um índice do que aconteceu porque é tanta coisa, e esse conjunto, se uma coisa a gente pode assegurar, é que a história da filosofia desde a segunda metade do século XIX até agora não tem uma forma identificável. É uma profusão de correntes incomunicáveis que a gente pode apenas tentar fazer uma lista, mas mesmo uma lista seria praticamente interminável e todo este florescimento aparente freqüentemente patina em falso porque justamente por causa da falta de comunicação entre os vários setores, as pessoas acabam voltando periodicamente aos mesmos temas já discutidos e eu noto uma certa tendência cíclica, as mesmas idéias, elas retornam como se jamais tivessem sido discutidas.
A gente vê, por exemplo, que toda essa discussão atual que tem sobre a questão de evolucionismo e criacionismo se passa totalmente à margem de cem anos de estudos comparados das religiões. Toda essa discussão se processa com um conceito de religião que é o conceito do tempo de [Joseph] Ernest Renan, da segunda metade do século XIX. E é absolutamente impossível você tentar equacionar essa discussão em termos que fossem, digamos, compatíveis, para dizer o mínimo, com a própria obra do Mircea Eliade que foi um dos primeiros no século XX, a idéia de que existe uma concepção científica da natureza e que ela reflete a ordem dos fatos e que por outro lado a religião representa aí o mundo dos sentimentos, valores, etc., etc. Isto aí hoje para qualquer estudioso das religiões seria uma brincadeira, e, no entanto é esse o pressuposto de uma discussão que está aí presente até hoje. Esta situação evidentemente se origina nesta fase do século XIX. Nós podemos dizer que todo o debate atual de evolucionistas e criacionistas é uma repetição, embora preenchida com materiais fáticos novos, é uma repetição de uma discussão que poderia se dar igualzinha por volta, digamos, de 1870 sem muita alteração. É como se esses cento e trinta e quatro anos decorridos desde então, com todo o aumento assombroso do conhecimento comparado das religiões, não tivesse acontecido absolutamente.
Usa-se nessa discussão uma idéia de religião que era a idéia que havia na segunda metade do século XIX. Isso é só para dar um dos muitos exemplos de como essa etapa marcou profundamente a mente humana de modo que parece que está cada vez mais difícil sair do século XIX. Neste final de século XX e começo do XXI a gente tem realmente a impressão nítida de que muitos debates culturais voltaram ao ponto em que estavam em 1870, 1880, e está muito difícil de sair daí justamente por causa da riqueza do que foi acumulado neste ínterim, é tanta coisa que a cultura, o debate público não consegue absorver, então, ele faz de conta que não existe e volta a discutir tudo com conceitos convencionais de outra época, a tal ponto que fica impossível, inviável ou impossível o conhecedor da matéria entrar numa discussão dessas, porque não tem nem por onde pegar o assunto. Se você rastreia a origem histórica dos conceitos, e isso é absolutamente obrigatório em ciências humanas, você verifica, por exemplo, que o conceito de crença é uma espécie de redução da doutrina cristã sobre a fé. Amputada do seu conteúdo teológico específico, a fé se torna crença, e a fé por seu conceito cristão da fé, por sua vez, também tem uma origem histórica determinada, quer dizer, se forma ao longo do desenvolvimento do dogma cristão, e evidentemente seria uma temeridade, no mínimo, você aplicar esse mesmo conceito a outras religiões como o hinduísmo, ou taoísmo, não se aplica absolutamente. Então, quando se faz essa divisão entre ciência e fé, e essa distinção continua em vigor, nós estamos lidando com produtos históricos que têm uma aplicação limitada ao contexto em que surgiram, e isso aí parece que ninguém leva em conta absolutamente, também, vamos dizer, à medida que certos conceitos científicos refletem um dogma religioso como, por exemplo, as famosas leis da natureza inventadas por [Isaac] Newton (Newton e Galileu [Galilei]), são uma tradução materializada da idéia de um Deus Criador tal como se interpretava na Renascença, não originariamente. Mais tarde, a idéia de um indeterminismo, uma arbitrariedade como aparece não só com [Werner Karl] Heisenberg, mas mais tarde com esse seu Richard Dawkins, ela não é senão uma reação interna que apareceu no mundo cristão à idéia renascentista do Deus matemático, do Deus engenheiro. Então, tudo isso no fim são debates provincianos porque não estão dando conta da história dos conceitos, quer dizer, estão tratando conceitos historicamente produzidos e culturalmente delimitados como se fossem ferramentas descritivas e apropriadas a captar realidades objetivas. Então, tudo isso é de um amadorismo e de um baixo nível assombroso.
Esta é mais ou menos a situação que nós vemos hoje, quando a gente vê, por exemplo, nas “filosofias” mais recentes, como a desse seu Peter Singer que acha uma coisa extraordinariamente difícil distinguir entre um homem e uma lesma, a gente fica até consternado: Como é que chegou nisto? A história da filosofia não explica como se chegou nisto, porque depois da primeira metade do século XX que foi uma época de progresso extraordinário, no mínimo não era de se esperar esse anticlímax, em que essas bobagens de Dawkins e Peter Singer, etc., são levadas a sério por toda cultura, em que Stephen Jay Gould parece um grande sábio, realmente não era para chegar nisso, daí a dificuldade de contar a história da filosofia no século XX. Quando a gente propõe esse Husserl como um marco, eu hoje tenho a impressão que de fato tudo o que Husserl tentou fazer ficou sem efeito, em parte porque ele mesmo nos anos finais da sua vida implode toda a sua obra tentando fazer da fenomenologia uma espécie de chave universal das ciências e estabilizar as ciências como se fosse num grupo esotérico que tivesse sido iniciado nos princípios da fenomenologia, no instante em que ele faz isso ele praticamente destrói tudo o que tinha feito. Não sei se o que veio depois foi conseqüência disso, mas eu sei que a fenomenologia se auto-esteriliza nesse momento. Já tinha começado a se esterilizar em outras direções que havia tomado como, por exemplo, o famoso existencialismo também chega num beco sem saída e que com Sartre se converte num auxiliar do marxismo apenas. Então, todas essas correntes que começam no princípio do século XIX, a história delas é muito difícil de contar porque é uma história que parece que termina abruptamente e cede lugar a um vazio no qual as questões voltam a ser colocadas com um nível intelectual infinitamente abaixo daquele em que Husserl as havia colocado. Husserl, sendo ele um sujeito de formação matemática, tenta esclarecer a natureza do número, essa foi a primeira preocupação dele expressa numa tese chamada “A Filosofia Aritmética”.
Na “Filosofia da Aritmética”, tentando explicar o que é um número, Husserl dá o seguinte exemplo: ele diz [que] se você entra numa sala e essa sala está cheia de objetos, esses objetos podem estar associados entre si de muitas maneiras: pelo seu tipo, gênero, objetos do mesmo tipo, por exemplo, cadeiras, etc.; pela sua função, pela sua posição, pela sua cor, etc., etc. Todas essas associações, ou enlaces como ele os chama, são derivadas de alguma qualidade observada nos objetos. Se houver alguma possibilidade de algum enlace que não está vinculado a nenhuma qualidade dos objetos tal será o número. Quer dizer, quando você conta, aqui tem quarenta e cinco objetos, isto não depende absolutamente de nenhuma qualidade observada nos objetos. Então, o número seria uma forma de enlace entre objetos, entre elementos, que não depende de maneira alguma de qualquer qualidade objetiva desses elementos. Não podemos deixar de reconhecer que sob certo aspecto ele tem razão. Só que ele tem nesse período uma correspondência com [Friedrich Ludwig] Gottlob Frege que é outro grande filósofo e matemático, e eu acho que em função dessa correspondência começa a aparecer uma dúvida na cabeça dele. E esta dúvida é o seguinte: ele tinha tentado definir o que é o número a partir de uma operação mental que nós fazemos para apreender o número. Então, ele percebeu que ele não havia dado de maneira alguma a definição de número, mas tinha dado apenas um critério de reconhecimento através da operação psíquica. Quer dizer, número é aquilo que nós obtemos através desta operação psíquica de enlaçar vários entes independentemente das suas qualidades objetivas. E contra isto (eu estou simplificando grosseiramente a coisa, mas é mais ou menos isto) o Frege alegava que o significado dos conceitos não pode depender de nenhuma operação mental, que o próprio do significado é poder ser apreendido em diferentes circunstâncias e por diferentes pessoas independentemente das operações mentais realizadas para este fim. Porque senão para apreender o significado do que uma pessoa disse, nós teríamos que imitar o procedimento mental dela. Quando o sujeito diz uma palavra e nós, para apreender o sentido, o sujeito diz “elefante”, nós, para saber o que é “elefante”, precisaremos fazer exatamente as operações mentais que o sujeito fez. Ora, é evidentemente mais fácil você apreender o significado de uma palavra do que saber o que a pessoa está pensando por dentro quando diz essa palavra. Então, o Frege já tinha reparado esse grande erro de tentar explicar os significados através da psique. Quer dizer, o significado é eminentemente transportável de uma psique para outra e não depende de nenhuma delas.
Essa mesma observação tinha sido feita por dois outros filósofos, um, Bernhard Bolzano e outro, Franz Brentano. Esses três estavam na pista de uma espécie de lógica pura, que pudesse lidar com os significados independentemente das operações mentais realizadas para apreendê-los. Com isso eles todos, eles e depois o próprio Husserl, se opunham a uma corrente dominante na segunda metade do século XIX que era aquela que, com o John Stuart Mill, explicava a lógica como a ciência das leis do pensamento. Todos eles observaram mais ou menos quase ao mesmo tempo ou pelas mesmas vias que uma coisa é o pensamento considerado como fato, como processo real que se dá na mente ou no cérebro dos indivíduos, e outra coisa é a conexão lógica entre os conceitos. Uma coisa não tem absolutamente nada que ver com a outra, quer dizer, o fato de dois mais dois ser quatro não tem nada a ver com as operações mentais que você faz para apreender isso, as operações mentais sempre terão que partir de dados que foram colhidos concretamente por este indivíduo nesta mesma situação ao passo que o resultado da conta é o mesmo em todas as circunstâncias e independentemente do pensamento dos indivíduos que a repetem. Então, havia esta preocupação [de] como desvincular a lógica da psicologia.
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