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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 31
O enigma Maquiavel
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Como nós estamos na penúltima aula, eu pensei se nós não podíamos aproveitar para tapar uns buracos que ficaram para trás. Tem algumas partes que foram omitidas e que naturalmente podem suscitar alguma curiosidade. Essas omissões foram causadas pelo próprio critério colocado no início que é a definição da filosofia como unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Quer dizer, tudo aquilo que saísse desse eixo, tudo aquilo que fosse construído a partir de uma outra perspectiva diferente ficaria então colocado como elemento externo à filosofia, o qual pode exercer influência no curso dos acontecimentos filosóficos, mas que não é propriamente filosofia. Eu acho que um dos grandes motivos de confusão na área filosófica é esse desejo absurdo de incluir tudo, quer dizer, se você começa a chamar de filosofia tudo o que qualquer sujeito disse sobre um assunto nominalmente filosófico, daí evidentemente o quadro perde a sua unidade e no fim você não consegue tirar conclusão nenhuma. E isso tem sido a orientação de praticamente todos os historiadores desde o século XIX. Eu acho que não dá para fazer isto, se o conceito de filosofia que você vai usar é abrangente, é para caber tudo ali dentro, então até a idéia de falar de uma história se torna utópico.

História subentende-se uma narrativa e numa narrativa uma coisa tem que ter algo a ver com a outra, se você não tem um fio condutor, você não sabe onde que as coisas têm que ver uma com a outra e por que têm. Então, fica tudo desconjuntado e só resta você voltar ao tipo do que no começo eu chamei [de] as histórias enciclopédicas que são aquelas que colocam tudo lá dentro sem ter uma ordem interna, então, você teria ali mais ou menos um livro de história da filosofia, a unidade do assunto seria dada pelo fato de que todos aqueles autores e temas estão dentro do mesmo livro, quer dizer, você tem uma unidade editorial por assim dizer. Assim como numa faculdade de filosofia você tem uma unidade arquitetônica, quer dizer, os assuntos são considerados filosóficos porque eles são tratados dentro daquele edifício, então, é uma unidade administrativa, por assim dizer; ali você teria uma unidade editorial, quer dizer, os assuntos filosóficos porque eles estão dentro deste livro de história da filosofia. Mas isso aí torna o conjunto dificilmente inteligível pelo estudante, então, a minha proposta nesse curso foi limitar a narrativa da história da filosofia àquilo que se enquadrasse no que Sócrates estava fazendo. Tomamos Sócrates como o pai da filosofia e narramos em seguida tudo aquilo que tem que ver diretamente com o esforço socrático. Sócrates é uma figura multilateral, então, partindo mesmo dessa figura, usando Sócrates como o padrão de aferição da unidade do conjunto, você ainda teria a possibilidade de outras narrativas, totalmente diferentes daquela que eu fiz aqui. Uma delas seria aquela que partisse da constatação feita por Leo Strauss de que a filosofia na Grécia começa essencialmente como filosofia política; quer dizer que a discussão política é o começo da discussão filosófica; então, é evidente que depois, partindo de temas que são inicialmente políticos, o próprio Sócrates cria alguns desenvolvimentos que são tão vigorosos que eles se tornam autônomos; mas de qualquer maneira a discussão política continua sendo a base ou o pretexto.

Se fosse para abarcar a filosofia política dentro da nossa narrativa ela teria que ser duplicada. Por quê? Porque a política não é a atividade própria dos filósofos, ela é apenas um tema do qual os filósofos partem para criar o seu mundo próprio, mas a política pertence a todos, à comunidade inteira, então, todo mundo vai lá e mete a mão no assunto, quer dizer, não é preciso ser filósofo para você pensar alguma coisa a respeito. A dificuldade de montar essa narrativa partindo da origem política da discussão filosófica seria essa, você teria que colocar lá dentro muita coisa que não é filosófica absolutamente, mas que é indispensável para a compreensão da narrativa. Foi por isso que nós pulamos, por exemplo, alguns autores enormemente importantes como o próprio Maquiavel. Nós mencionamos aqui Maquiavel de passagem. E o Maquiavel é um autor muito propício para você ver a interferência de um elemento não só extra-filosófico, mas anti-filosófico na história da filosofia. Nós não podemos esquecer que todo o empreendimento de Maquiavel é feito contra toda a tradição filosófica. Então, como é que o consideraríamos um filósofo? Não, ele é um sujeito de fora que partindo de outros interesses e de outros objetivos foi lá e deu meia dúzia de palpites que exerceram um efeito histórico ao longo do tempo.

Então, decidi dedicar esta aula de hoje ao bom e velho Maquiavel como um exemplo, isso não tem finalidade exaustiva, é só dar um exemplo de como elementos que vêm de fora da filosofia, vêm até contra ela, podem exercer uma influência grande no curso do pensamento filosófico posterior. Maquiavel é um dos grandes enigmas da história das idéias, porque é um sujeito cuja imagem ao longo dos tempos foi mudando radicalmente e o número de interpretações contraditórias de Maquiavel foi tão grande que Benedetto Croce chegou a dizer que aquilo era um enigma que jamais seria resolvido. A primeira dessas imagens foi resultado do impacto que teve o livro “O Príncipe”, não na Itália mesmo onde tudo aquilo que estava no livro foi aceito mais ou menos como uma coisa normal, tinha todos aqueles conselhos horríveis que ele dá aos governantes, já eram praticados de longa data na Itália, então, ninguém estranhou, mas quando aquilo chegou na Inglaterra, por exemplo, teve um cardeal chamado Reginald Pole que imediatamente ficou escandalizado com o negócio e escreveu que Maquiavel era de fato um espírito satânico, maligno, e foi mais ou menos com essa imagem de espírito maligno, imagem de mau conselheiro, que ele entrou para a história popularmente, por assim dizer. Quer dizer, até hoje você tem a palavra “maquiavélico”, até hoje quer dizer um sujeito que está tramando alguma por trás, [que] está tentando te manipular para te enganar em vantagem própria.

Porém, quando chega no século XIX, quando se formam as ciências sociais modernas, sobretudo com [David Émile] Durkheim e [Max] Weber, imediatamente existe um reaproveitamento de Maquiavel. Partindo da observação de que aqueles conselhos que ele dava aos governantes não tinham sido propriamente inventados por ele, mas já eram um hábito corrente ali no meio italiano, então surge uma segunda versão de Maquiavel como sendo não um mau conselheiro, mas simplesmente o fundador da ciência política moderna, considerada como uma ciência de fatos. Esta imagem de Maquiavel cientista existe ainda, talvez no Brasil ainda seja a dominante. Isso será contrastado com a imagem popular e o professor lhes dirá: “Não, existe esta mitologia popular de que Maquiavel é um sujeito malvado, etc., etc., mas isso é coisa de ignorantes, na verdade ele foi o primeiro cientista político moderno porque ele descrevia objetivamente os fatos, o funcionamento da máquina do Estado e a mecânica do poder sem fazer juízos de valor.” Quer dizer, Maquiavel teria sido uma espécie de Max Weber avant la lettre.

E logo depois já no começo do século XX na própria Itália surge a filosofia de Benedetto Croce que foi um autor que também nós não estudamos aqui. A filosofia de Benedetto Croce, sobretudo na filosofia da cultura, vê a cultura como dividida num certo número de departamentos cuja estrutura e cujo conteúdo não é trocável com os departamentos vizinhos porque reflete as categorias fundamentais do espírito humano. E essas divisões são basicamente quatro, em primeiro lugar você tem o mundo do conhecimento determinado pelas categorias do verdadeiro e do falso, então, seria o mundo da lógica, das ciências e da filosofia, por outro lado, você teria o mundo da arte que é determinado pelo conceito do belo, o qual não tem nada a ver com o verdadeiro e o falso, mas que tem as suas exigências próprias, quer dizer, o belo, tal como o entende Benedetto Croce, não bem o belo da estética antiga, mas é simplesmente a representação, a expressão correta das impressões que nós temos do mundo vivido. Quer dizer, quando você pega a impressão tal como foi realmente captada pelo artista e a traduz numa forma, você teria o quê? O conhecimento do singular, ao passo que na divisão científico-filosófica você teria o conhecimento universal. Quer dizer, todo o conhecimento que se pauta pelas categorias do verdadeiro e do falso busca uma universalidade abstrata, e a arte, ao contrário, vai buscar a apreensão do singular enquanto tal. Nas outras duas divisões você teria, por um lado, o que ele chama [de] ética, baseada evidentemente no conceito do bem e do mal, também considerado na sua universalidade e, em oposição a ela, você teria o útil e o prejudicial que é o mundo que ele chama [de] a econômica. Então, você tem as quatro disciplinas fundamentais: a lógica, a estética, a ética, e a econômica.

Esta teoria do Croce teve um impacto muito grande no mundo da história da cultura, entre os historiadores da cultura; e isto logo produz uma reinterpretação de Maquiavel. Imediatamente tenta-se colocar Maquiavel evidentemente na categoria da econômica, porque ele está falando daquilo que é útil para a comunidade humana independente de ser eticamente bom ou mau. Porém outras investigações empreendidas sobretudo por um historiador chamado Luigi Russo destacam que a neutralidade do Maquiavel perante o significado moral da situação que ele descreve não é exatamente o do cientista, mas o do artista que está descrevendo uma estrutura, uma máquina, encantado com a mecânica dela, e descrevendo o Estado, então, como se fosse uma obra de arte.

Então, Maquiavel não estaria tanto falando na clave da econômica, isto é, do útil e do lesivo, mas na esfera artística; quer dizer, a concepção de Estado de Maquiavel não seria uma descrição científica da realidade, mas seria uma obra de arte. Na verdade isso inverte a interpretação, porque em vez de ele estar descrevendo o Estado como ele realmente funciona e tentando tirar dali leis universais que valham para todos os Estados, ao contrário, ele está inventando uma estrutura cujo significado moral não lhe interessa porque ele está interessado apenas na forma considerada em si mesma. Então, Maquiavel seria um formalista artístico. Aí cria uma situação difícil porque essas interpretações são antagônicas, são separadas por cento e oitenta graus. Porém um pouco mais adiante surge a primeira interpretação que me parece viável de Maquiavel, que foi empreendida por Antonio Gramsci, Antonio Gramsci havia lido muito um autor chamado George Sorel. E George Sorel nota que o mundo da política é movido por objetivos que as pessoas pretendem alcançar no futuro; esses objetivos, no instante em que você está lutando por eles, eles não existem efetivamente. Então, tudo o que acontece na política tem que vir do mundo das idéias para a realidade, então, ele tem que existir antes como uma utopia, ou antes como um ideal; e ele inventa, então, o conceito de mito. Quer dizer, o conceito soreliano do mito não é o conceito que têm os historiadores da mitologia, quer dizer, não tem nada a ver com os estudos de mitologia clássica, o mito para George Sorel é uma imagem agente, quer dizer, uma coisa que não existe, mas que uma vez divulgada pela população funciona como um hormônio, quer dizer, coloca a sociedade em movimento para tentar realizar aquilo. Então, a imagem dotada de um poder magnético. E Antonio Gramsci que não era nada burro, é na verdade o primeiro sujeito que percebe, que entra na pista certa da interpretação de Maquiavel; podemos dizer que Gramsci entendeu Maquiavel realmente; isso é o que eu acho, mas tem gente que pode defender as outras interpretações. Então, O Príncipe de Maquiavel é uma entidade inexistente, quer dizer, não existia aquele governante, é um governante onipotente, capaz de se elevar do meio da multidão e através de uma sucessão mirabolante de golpes e trapaças adquirir o poder absoluto sobre a unidade política, fosse um principado ou qualquer outro regime; o príncipe, então, seria um mito. Isso se deve ao fato de que a Itália na época de Maquiavel não tinha unidade política, ela estava dividida em cinco principados independentes mais ou menos hostis entre si; e que em função desta divisão o país tinha sido facilmente invadido pela França, como mais tarde a França será facilmente invadida pela Alemanha. Então, os franceses entraram lá, fizeram um arraso e os italianos estavam se sentindo muito humilhados e “O Príncipe” de Maquiavel seria uma resposta a esta situação humilhante. Ele delineia este mito do príncipe onipotente e o lança ao público como mito soreliano, quer dizer, uma imagem magnética que deveria produzir a mobilização das massas naquele sentido, mesmo que o que fosse realizado no fim não coincidisse exatamente com o mito originário, a coisa teria funcionado de algum modo.

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