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Coleção História Essencial da Filosofia

Aula 32
A realidade
Livro + DVD

Trecho
(10 primeiras páginas)

Como eu disse para vocês na outra aula, o panorama da filosofia no século XX é tão variado e complicado que ele precisaria de um curso só para si. Uma vez eu tentei um projeto editorial sobre filosofia no século XX e fiz um índice de todos os filósofos importantes, todas as obras importantes e tal. Eu poderia até passar mais tarde isso para vocês, mas é uma coisa simplesmente monstruosa, e não forma nenhuma figura identificável, quer dizer, você não consegue perfilar assim grupos que estão discutindo com quais grupos.

Às vezes as atividades a que se dedicam esses vários grupos são tão heterogêneas que você não tem mesmo como confrontá-las. Mais ainda, criaram-se blocos de atividades filosóficas tão coerentes internamente e tão diferentes do que os outros estão fazendo, tão diferentes daquilo que acontece em torno que você cria um sentimento de identidade grupal que torna difícil até o diálogo, a comparação com outros filósofos. Por exemplo, se você pegar a chamada tradição de filosofia analítica que tem início aí no começo do século XX com Bertrand Russell, Hans Reichenbach, Moritz Schilick, e um grupo de filósofos, uns ingleses outros alemães (mas isso acabou pegando mais mesmo no mundo anglo-saxônico), você vê que ela forma um todo completo em si, quer dizer, um todo completo e auto-suficiente. O sujeito pode passar a vida dentro daquilo sem jamais se interessar por outras perspectivas filosóficas fora porque a bibliografia é tão imensa que mal dá para o sujeito absorver aquela mesma “tradição” na qual ele está, e às vezes a transposição para outro universo diferente seria tão trabalhosa que se torna inviável, então, as pessoas se limitam a registrar que existem coisas diferentes fora.

Um fenômeno muito interessante, por exemplo, é uma série da editora Oxford sobre os grandes filósofos que se chama Companion book to fulano de tal, Aristóteles, Platão, etc., etc. São livros auxiliares para você compreender os grandes filósofos. Evidentemente todos os filósofos são como volumes coletivos, tem quinze, vinte, autores em cada um, todos dentro da tradição britânica. Se você pegar um livro similar publicado na França ou na Espanha, você vai encontrar um Aristóteles tão diferente que você não tem nem como comparar. Então, o diálogo filosófico, nós podemos dizer que ele só existe dentro de blocos definidos. Um desses blocos evidentemente é a tradição marxista, quer dizer, a bibliografia marxista é imensa, e tem evidentemente o seu vocabulário próprio, os seus cacoetes mentais próprios, e o seu campo de percepção próprio ao qual às vezes os membros de outras escolas são perfeitamente insensíveis. Do mesmo modo você teria um bloco neo-escolástico que de todos esses blocos o que mais procurou contato com os outros foram sempre os neo-escolásticos. Os neo-escolásticos sempre tiveram esta ambição enciclopédica de estar sempre dialogando com as outras correntes, mas mesmo isso tem limites. O meu professor, Stanislavs Ladusãns, nas aulas dele, qualquer problema que pegasse, sempre fazia questão de analisar o problema desde o ponto de vista das várias correntes: um estruturalista analisaria assim, um existencialista analisaria assim, um fenomenologista analisaria assim, um marxista analisaria assim, etc., etc., então, ele fazia isso desde vários ângulos até dar a solução que ele propunha no final. Mas mesmo isso evidentemente tem limites. Se vocês pegarem, por exemplo, a “História da Filosofia” do Guillermo Fraile que era um jesuíta, um neo-escolástico, vocês verão que é uma das poucas que conseguem dar conta da totalidade das correntes existentes. Evidentemente se torna uma obra imensa, são nove volumes de mil páginas cada um. A narrativa não tem unidade, fica uma unidade enciclopédica ou externa. Isso quer dizer que uma visão de conjunto crítica sobre a filosofia do século XX suporia um ponto de vista capaz de articular essas várias correntes, saber por que elas se diversificaram desta maneira, de onde elas surgiram, e qual é o terreno comum onde é possível compará-las. Este princípio de articulação me parece que não existe ainda, ele não é impossível, mas não existe ainda, então, os panoramas ou histórias da filosofia no século XX se dividirão entre aquelas que têm uma perspectiva limitada para poder manter uma unidade de enfoque e aquelas que sacrificam a unidade de enfoque pela abrangência das perspectivas.

Isto mesmo já caracteriza um fenômeno da filosofia no século XX, esta impossibilidade do diálogo e da confrontação e a divisão da filosofia em inumeráveis disciplinas que não têm nada uma a ver com a outra; e sobretudo a divergência, ou o desentendimento no que diz respeito à própria definição do campo, de tal modo que aquilo que um chama de filosofia é precisamente aquilo que o outro considera não ser filosofia de maneira alguma, então, a perda da identidade da filosofia, tudo isto faz parte do próprio panorama moderno. Não é preciso dizer que isto não vai poder continuar assim por muito tempo sem graves conseqüências para a humanidade inteira. Uma dessas graves conseqüências é que, com a multiplicação das perspectivas e a criação permanente de novas disciplinas científicas que nós não sabemos se são válidas ou não, não sabemos nem se os campos que elas assinalam para si mesmas existem. Isso cria uma tal confusão que a idéia de unidade do conhecimento se torna evidentemente uma utopia, mas uma utopia que é muito querida para muitas pessoas. Você vê que desde os anos cinqüenta existem incessantemente novos e novos congressos mundiais sobre a unidade do conhecimento. Com o surgimento desta perspectiva holística que ela surge já antes dos anos cinqüenta, mas sobretudo nessa segunda metade do século XX ela se impõe como um pólo muito atraente, quer dizer, a ambição de você criar uma enciclopédia da ciência universal, uma visão abrangente da ciência; visão que também é associada à idéia de globalização, de governo mundial, de unidade planetária, de consciência ecológica, etc., etc., tudo isso em si mesmo é utópico evidentemente, mas quando você quer alcançar um negócio impossível, alguma coisa no caminho você vai alcançando, e às vezes algumas coisas benéficas. Eu acho que uma das grandes realizações da segunda metade do século XX foi que pela primeira vez nós tivemos histórias da filosofia que abrangem as várias civilizações e tentam articulá-las de algum modo. Quando você vê, por exemplo, uma obra como a de Henry Corbin que é uma comparação sistemática da filosofia iraniana com a européia, tudo isso acaba surgindo justamente nesta onda de holismo, de globalização, de unidade planetária, etc., etc. Eu creio, porém, que o fato de você aspirar a uma unidade planetária na esfera administrativa não garante que de fato você tenha uma perspectiva filosófica capaz de articular esses vários planos. Ainda se trata de uma unidade externa, quer dizer, você tem uma unidade administrativa, então você tem instituições de escala planetária que reúnem filósofos e os põem para discutir, etc., etc. Mas o fato de você juntar mil, dois mil, três mil filósofos num congresso mundial, ainda a unidade que você tem é a unidade do hotel em que eles estão hospedados e a unidade do recinto onde se realiza o congresso, isso não garante absolutamente que os assuntos tenham algo a ver uns com os outros. Por exemplo, este congresso de lógica de que eu devo participar na Suíça daqui a pouco é o maior congresso de lógica que já existiu no mundo, vai gente para caramba, mas só de propostas de novas lógicas paradoxais devem ter umas quinhentas, e eu olho o programa e vejo os limites da minha cabeça, eu digo: vamos supor que eu seja afortunado o bastante para entender três delas, mas entender também não quer dizer que eu vá conseguir compará-las e articulá-las com outras perspectivas. Então, a gente vê que a produção de novas perspectivas filosóficas já ultrapassou de há muito tempo o ponto em que elas poderiam ter algum significado cognitivo real. Hoje em dia produzem-se lógicas como se produzem programas de computador, uma atrás da outra. Isso não significa mais coisa nenhuma. Justamente o excesso da produção física de filosofias, lógicas, etc., etc., já coloca por si mesmo no problema da significação desse conjunto.

(Aluno) – Pois é, professor, entre alguns programadores é hobby implementar essas lógicas alternativas de programação para ver o que sai daquilo!

Claro!

(Aluno) – É uma brincadeira!

Agora, como é que você vai pegar essas lógicas alternativas todas, compará-las e articulá-las umas com as outras? Num congresso, [por exemplo], cada sujeito vai lá preocupado com o que ele vai dizer e às vezes com dois ou três e mais que ele quer ouvir e ponto final, a cabeça humana não vai além disso, eu mesmo vou com essa idéia na cabeça: ah, eu quero dizer isso aqui, e vejo lá no programa, tem isto e isto aqui que me interessam. É uma espécie de supermercado, e a unidade que têm é a unidade que têm os produtos no supermercado. Nessa mesma medida, a coisa perde toda a significação cognitiva. Isso tudo não significa mais nada do ponto de vista científico, são apenas produtos que estão no mercado e que você escolhe os que você quiser não conforme o seu valor cognitivo que não pode ser aferido nem comparado, mas conforme o interesse pessoal que você tenha naquilo. Nunca a idéia de produção científica ou produção filosófica foi tão verdadeira quanto hoje, e evidentemente o que afeta o valor cognitivo disso tudo não é só a quantidade, mas às vezes a própria natureza dos produtos cujos autores não se interessam pela questão do valor cognitivo, eles nem sabem o que é isso e até duvidam que isso exista. O que acontece necessariamente é que um observador que ainda esteja interessado na questão do valor cognitivo acaba se desinteressando por tudo isso. Se você propõe uma nova ciência, uma nova lógica, uma nova filosofia, uma nova não sei o quê, mas você mesmo diz que aquilo não tem valor cognitivo nenhum e que não se interessa também pela questão do valor cognitivo, para que eu vou me interessar por isso? Quer dizer, por que eu vou me interessar por uma coisa que o próprio autor diz que não interessa para ninguém, exceto para os interessados?

Quando nós contemplamos esse conjunto e voltamos à origem da filosofia com Sócrates, nós podemos nos perguntar: Mas o que tem tudo isto a ver com aquilo que Sócrates está tentando fazer? A reposta é: praticamente nada. Pode ter um interesse muito remoto como, aliás, qualquer conhecimento verdadeiro ou falso tem sempre algo a ver com a filosofia, é claro, no sentido socrático qualquer coisa pode ser útil para ela, mas é interesse muito remoto e não central.

É diante, justamente, desse panorama que eu abdiquei da idéia de considerar filosofia tudo isto que se faz com este nome. Tem uma solução prática para este problema, é ver o que a filosofia foi na sua origem, quer dizer, foi como projeto humano e estudar dentro do campo da filosofia só aquilo que tem algo a ver com o projeto originário, e foi exatamente esta orientação que mais ou menos nós seguimos aqui neste curso. Quer dizer que muita coisa que hoje é chamada de filosofia no sentido acadêmico do termo, não seria chamado de filosofia no sentido histórico, ou socrático, do termo.

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