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“No Armário do Vaticano: Poder, homossexualidade e hipocrisia”, por James Alison

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Transcrição da palestra ministrada por James Alison em Madri, em fevereiro de 2019, com tradução de Maurício G. Righi

Bem-Vindos ao Meu Mundo

(Notas sobre a Recepção de uma Bomba)

Então, o outro sapato finalmente caiu. O véu foi removido daquilo que os franceses chamam, gloriosamente, de “Segredo de Polichinelo” – um segredo que não é segredo, escancarado, pois “todo mundo conhece”, mas para o qual as evidências se fazem esquivas e nunca são realmente procuradas. O meramente anedótico adquire, finalmente, contornos de visibilidade sociológica.

Introdução

O livro de Frédéric Martel, In the Closet of the Vatican: Power, Homosexuality and Hypocrisy [No Armário do Vaticano: Poder, Hipocrisia, Homossexualidade, editora Objetiva, 2019], é o primeiro esforço do qual tenho ciência dirigido a dar uma resposta rigorosamente investigada à questão: “Como e por que o principal obstáculo institucional aos direitos LGBT, em nível internacional, parece ser maciçamente dirigido por homens gays?” Não se trata, em absoluto, de uma pergunta estúpida. A busca por evidências sólidas exigiu muitos anos de jornalismo investigativo do autor. Este fez muitas viagens mundo afora, residindo por meses tanto em Roma quanto dentro do Vaticano, e tudo de modo transparente, usando seu nome verdadeiro. Martel conduziu centenas de entrevistas com pessoas que – de algum modo – estavam envolvidas com a questão. De profissionais do sexo a cardeais, passando por jornalistas, médicos, policiais, padres, diplomatas e advogados. A farta colheita das evidências produziu um cenário: aquele no qual se vê a forma sistêmica de uma homossexualidade desonestamente vivida, geradora de uma cultura de acobertamentos mútuos. Em suma, a estrutura do armário clerical.    

Parte do que ficamos sabendo é, ao mesmo tempo, uma novidade e algo genuinamente chocante: as relações entre o general Pinochet, círculos de gays católicos de direita no Chile e Angelo Sodano (que designou muitos deles na hoje desonrada hierarquia chilena); a habilidade que teve a junta militar argentina, na década de 1970, para ameaçar o então núncio, Pio Laghi, devido ao uso que este fazia dos “taxiboys”; ou saber que o estado de abusos sexuais na Arquidiocese de Havana foi a gota d´água para que o papa Bento resolvesse abdicar; as conexões de Alfonso López Trujillo com traficantes de droga na Colômbia, assim como sua violência sexual contra garotos de programa em Medelín. Há muito mais no quesito escândalos financeiros e sexuais. Algumas histórias eram conhecidas em seus países de origem, pelo menos aos jornalistas locais, e mesmo, talvez, amplamente conhecidas, mas esta é a primeira vez que esse imenso corpo de evidências foi mundialmente interligado numa narrativa.

Embora alguns monstros circulem pelas páginas de Martel, como também circula muita coisa que dificilmente soaria surpreendente, caso não estivesse ligada às vidas burocráticas de membros da alta hierarquia da Igreja, este não é um livro particularmente lascivo. Todos os elementos potencialmente sensacionalistas são minimizados, a fim de que se acentuem as orquestrações de um sistema cujos envolvidos pensam manipulá-lo, mas que, na verdade, os manipula de modo triste e cruel. O autor deixa claro que se deparou com muitos gays, mas com pouquíssimos pedófilos, e, diferentemente de alguns entrevistados, está completamente ciente de que se trata de duas coisas bem distintas. De maneira enfática, este não é um livro sobre abusos de menores perpetrados por clérigos; no entanto, a natureza sistêmica da mendacidade que é nele revelada gera, de fato, consequências significativas para que entendamos como o acobertamento dos abusos infantis pôde ser tão dominante. Tomando a mesma mendacidade sistêmica como padrão, iluminam-se os elos de como e por quê toda uma geração de membros do alto clero (do final do Concílio Vaticano II em diante) fracassou em se aproximar do processo público de aprendizagem sobre a homossexualidade, ainda que esse aprendizado tenha nos afetado a todos, em maior ou menor grau, em todas as culturas, nos últimos cinquenta anos ou mais. Pesquisas atrás de pesquisas vêm mostrando que o fracasso recalcitrante do alto clero em aprender nessa esfera teve papel significativo na perda que tiveram, para o Evangelho, de gerações inteiras de fiéis, como sua tendência de acobertar abusos envolvendo sacerdotes da Igreja.

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Frédéric Martel, autor do livro.

Sim, mas isso é verdade?              

Antes de prosseguir: algumas revelações. Das muitas fontes deste livro, sou uma das poucas que aparecem com o seu nome verdadeiro. Fui abordado porque um colega parisiense do autor avisara-o sobre os meus contínuos esforços nessa área, durante os últimos vinte e cinco anos, em que escrevei e falei sobre essa realidade. Para o meu enorme alívio, ocorre que, de fato, eu já intuíra muitos dos elementos estruturantes da história. Como bônus, o autor tem me tratado como uma generosidade não merecida, a ponto de incluir meu buldogue francês, Nicholas, em suas páginas. Desejo revelar, todavia, não meramente o fato de ser uma fonte, mas também o que aprendi ao me tornar uma fonte, uma vez que isso tem impacto na credibilidade do autor, indicando-nos se o que diz é verdade. Há questões que serão, provavelmente, levantadas, considerando-se a necessidade que certas pessoas terão de atirar no mensageiro e minimizar a mensagem.

Nunca tinha ouvido falar do autor antes de ele me solicitar uma entrevista, enviando-me uma cópia de seu livro lançado em 2017, Global Gay, como introdução ao tipo de jornalismo que pratica. Li o livro, uma exploração de como a insígnia “gay” tornou-se fenômeno mundial, culturalmente infiltrado de modos distintos em âmbitos diversos do planeta. Conheço bem muitos dos lugares que Martel descreve, como, por exemplo, a Cidade do México e Bogotá – e achei a descrição da vida e ambiente gay que ele faz desses lugares convergente com minha própria experiência. Isso me fez pensar que ele seria então, mais provavelmente que o contrário, alguém confiável ao escrever sobre Teerã ou Taipei, lugares estes onde nunca estive. Além disso, há certo nuance antropológico no tratamento que deu com quem se encontrava e falava, o que me fez pensar que, provavelmente, não se tratava de um autor insensatamente monocromático em sua exposição dos “tons de gay” em vigência na Igreja. Notei também que era bem profissional com suas fontes, protegendo-as, cuidadosamente, em países ou situações em que precisavam desse cuidado, mas, igualmente, permitindo aos que desejavam uma exposição registrada que o fizessem em seus próprios termos.     

Na época em que nos conhecemos, Martel já trabalhava, havia três anos, em seu projeto sobre a Igreja. Eu me encontrava favoravelmente disposto a acolher sua confiança. Compartilhei não somente minhas visões sobre assuntos variados, mas também o nome de amigos e contatos que talvez pudessem lhe ser útil em certas histórias, cujos elementos eram a mim familiares. Antes da publicação, ele cumpriu sua promessa de me deixar examinar as citações diretas e indiretas a mim atribuídas. Embora algumas tivessem “melhorado”, por assim dizer, com a sua edição, nunca foi de um modo que traísse minha intenção.

Em relação ao manuseio que o autor fez das histórias a respeito das quais eu sabia alguma coisa, dou testemunho das páginas referentes ao falecido cardeal López Trujillo. Ouvira, numa visita a Medelín em 2003, histórias relacionadas a esse prelado e à necessidade que tinha de ser violento em seus relacionamentos sexuais com os garotos de programa locais. Naturalmente, nessa época, com López Trujillo ainda vivo, poderoso tanto na Colômbia quanto em Roma, ninguém queria falar disso em público. Quinze anos mais tarde, meu imensamente bravo anfitrião inicial, Fr. Carlos Ignacio Suárez, sucumbiu de câncer pancreático. Todavia, ainda em contato com outras pessoas de meu círculo de amigos de Medelín, pude indicar a Martel algumas fontes possíveis. Quando, finalmente, li as páginas relevantes no livro, não apenas se confirmava tudo aquilo que ouvira a respeito de López Trujillo, mas que havia muito mais a ser contado sobre a história, mais do que eu jamais teria imaginado. De modo a mim estupefaciente, soube que uma boa parte dessa história já era conhecida tanto em Bogotá quanto em Roma, e na época em que López Trujillo ainda estava vivo.        

Duvido de que minha experiência como fonte seja única: o autor me tratou profissionalmente, descobrindo, num trabalho árduo, que aquilo que eu pensara ser verdadeiro, tornou-se, no final das contas, muito mais significativamente verdadeiro do que eu poderia ter imaginado. Portanto, inclino-me a acreditar que muitas de suas fontes anônimas terão a mesma experiência ao ler este livro, ainda que incapazes de dizê-lo publicamente.

Um ponto adicional nesse quesito. O assunto do livro, o homossexualismo vivido desonestamente, o qual estrutura a vida clerical, é notoriamente uma área em torno da qual e na qual a fofoca prospera. Discussões sobre esse assunto podem ser, portanto, facilmente desconsideradas como somente isso: mera fofoca. O autor conversou com muitos, mas muitos, clérigos que estão no armário, cada um deles preparado a bisbilhotar a vida de terceiros (os quais, por sua vez, fazem o mesmo sobre eles). Até onde vejo, o autor tendeu a não atribuir homossexualismo ou sua prática a ninguém, meramente, com base em escapadelas, típicas da atmosfera dos clubes escondidos “pré-Stonewall” (a Rebelião de Stonewall). Em vez disso, buscou múltiplos testemunhos, tentando, sempre que possível, conversar com os sujeitos envolvidos, para ver o que estes divulgariam. Esqueçam o “abrir o bico”: divas wagnerianas morreriam de inveja ao saber por quanto tempo e a que tonalidade muitos desses homens abriram os seus bicos, fofocando enquanto tentavam passar seus números telefônicos aos jovens e belos tradutores masculinos do jornalista.

Por vezes, encontrei a perturbadora presença de insinuações e doubles entendres no livro, talvez, porque muito me lembrassem de minha própria experiência. Recordo-me de uma fofoca que corria solta no Brasil, referente a um suposto relacionamento sexual entre mim e outro membro da ordem, com o qual eu me associara, mas que era, nesse caso, falsa. A fofoca poderia ter sido rapidamente derrubada por qualquer pessoa que simplesmente perguntasse, a qualquer um de nós dois, sobre o assunto, observando a evidente hilaridade com a qual teríamos recebido a sugestão; ou, de fato, sem precisar ir tão longe, por qualquer pessoa que soubesse alguma coisa sobre meus gostos. Todavia, o propósito da fofoca tinha, nas manobras políticas, um motivo no mínimo tão central quanto o das insinuações sexuais, e aqueles que a espalhavam não tinham nenhuma intenção ou interesse de determinar se aquilo era ou não verdade; mas, meramente, se era ou não útil.

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De fato, não existe modo direto no qual um jornalista investigativo possa navegar na estrutura clerical. Em todo e qualquer regime opressivo ou “total”, os internos sobrevivem e protestam por meio do humor: Sou suficientemente velho para recordar do colapso (temporário) do humor político espanhol, depois da morte de Franco. Do mesmo modo, dentro desse universo total, que caracteriza o armário clerical, é difícil saber onde termina o humor vadio, ligado à sobrevivência e insinuações, e onde começam as evidências. Por conseguinte, é difícil saber onde o jornalista pode estar inutilmente avivando uma fumaça sem fogo e onde, pelo contrário, está demonstrando que algo está genuinamente ardendo, ainda que fora do campo de visão. 

Por outro lado, rotular algo de “mera fofoca” também contribui para o acobertamento. Nos idos de 1987, eu sabia, por fofoca, o que veio a ser verdade a respeito do Fr. Maciel. Sabia, também por fofoca, o que veio a se confirmar a respeito do bispo Nienstadt, e uma década antes de o caso ser conduzido por investigadores profissionais a pedido do ministério público de Minnesota. Sabia, por meio de fuxicos, tudo sobre a casa de praia de McCarrick, muito antes de o caso ser confirmado no despertar de revelações subsequentes. Todos os que ignoravam essas histórias, diminuindo-as como “mera fofoca”, na verdade contribuíam para seu acobertamento. Uma investigação bem conduzida não se resigna por conta da impossibilidade, em quase todos os casos, de obter evidências fotográficas. O procedimento é filtrar as “fofocas” até que se torne claro se estas se aproximam ou não de uma testemunha genuína, cuja veracidade pode ser examinada. Finalmente, se o caso mostrar-se suficientemente importante, o investigado pode ser questionado. No meio de configurações altamente mendazes, como é o caso da estrutura clerical, e sem os instrumentos da lei – intimações, ameaças e deposições – para auxiliá-los, isso é tudo o que os jornalistas podem fazer.

A mim parece que foi isso que fez o autor deste livro, até o máximo de suas capacidades. Martel não é um jornalista de tabloide farejando um escandaloso “te peguei”. É autor de vários livros e uma figura gay de centro-esquerda, publicamente conhecida na vida política francesa, um sujeito que já foi conselheiro de um primeiro-ministro e de vários outros ministros de governo. Apesar de descrever a si mesmo como ateu culturalmente católico, não há ressentimento ou anticlericalismo em suas páginas. Nesse sentido, ele se sai muito bem quando comparado ao último sujeito que tentou tirar do armário boa parte dos moradores do Vaticano: as excursões do arcebispo Viganò foram idelogicamente seletivas (curiosamente, ele se esqueceu de incluir um bom número dos que lhe são próximos), além de serem um tanto confusas e dispersas, abstendo-se das evidências, tomadas de uma obsessão que nos sugere um relacionamento problemático com o assunto em questão. Martel, por outro lado, não tem nada a esconder. Sem dúvida, sabe de muitas coisas, cujas evidências não alcançam os níveis exigidos pela lei; outras coisas foram removidas ou reformuladas pelos editores, sob aconselhamento legal; outras ainda só poderão ser divulgadas quando os envolvidos tiverem partido para a sua recompensa.

O que já foi visto não pode deixar de sê-lo

Realmente, eu nunca compreendi o motivo pelo qual Sócrates e Aristóteles haviam colocado o maravilhamento – thaumazein – no início de um pensamento sério, antes de ler as páginas de Martel. O quadro geral que emerge do livro é estupefaciente. Sou um insider em relação a tudo o que nele está descrito; tenho convivido com essas realidades durante toda minha vida adulta; tenho me esforçado para falar disso publicamente todos esses anos. Não obstante, nunca havia me aproximado de um levantamento desse tipo, notavelmente acurado, no qual tamanho e densidade do armário clerical foram visados, tendo-se em vista como isso distorce cada aspecto da vida da Igreja. É como se eu tivesse notado um atol durante a maré alta, ao passo que Martel revelou a existência de um vulcão debaixo desse atol. Boquiaberto pode até ser um termo afetado, usado em excesso, mas é o melhor que conheço para descrever meu maravilhamento frente às dimensões daquilo que foi exposto à vista.   

De fato, em vez de qualquer revelação, em particular, a respeito deste ou daquele clérigo graduado, um homem gay fortemente enrustido, com um alto nível de ódio autodirigido, o livro de Martel tem o efeito de tornar subitamente manifesto, como que pela primeira vez, o quão gay é o alto clero da Igreja Católica. Não se trata, simplesmente, de o autor mostrar estatísticas mais precisas que o de costume (ele não visa a uma precisão estatística, num assunto em que os bispos têm mais ou menos o mesmo interesse em conhecer a verdade, em questão, quanto tem a NRA [Associação Nacional de Rifles] em permitir uma pesquisa do Congresso sobre segurança no uso de armamentos). Em vez disso, o maravilhamento se estabelece à medida que seguimos a narrativa do autor sobre os últimos cinquenta anos ou mais, observando o que isso revela. Martel visa ao efeito cumulativo daquilo que vem se desdobrando no Vaticano, desde o pontificado de Paulo VI, pontuando como essas questões vêm sendo tratadas em vários países: Espanha, França, Itália, Chile e o Brasil, para nomear alguns poucos. De modo recorrente, vemos a mesma estrutura básica de indução à desonestidade com a consequente reprodução de vidas homossexuais desonestamente vividas, uma dinâmica que, há tempos, se esconde em plena luz do dia.

Tudo isso conduz à percepção de que se está vendo algo que, uma vez visto, não poderá deixar de sê-lo. Seja lá quem tenha visto, uma vez que o faça, ele ou ela confirmará algo sobre o funcionamento institucional da Igreja que não pode ser contornado. Fingir o contrário é sinal de autoengano. Antes de considerar se isso é algo bom ou ruim, ou tomar qualquer outra decisão no que se refere ao que fazer com isso, convém parar e olhar fixamente, estupefato, para o que é, efetivamente, uma visão inteiramente nova de um organismo cultural humano significativo, um que ninguém nunca viu antes.

E quando digo ninguém, quero de fato dizer ninguém. Os leitores podem imaginar que em algum lugar, no Vaticano, ou em alguma nunciatura, deve haver aquelas pessoas que já sabiam disso tudo, não somente como especulação, mas em seus detalhes: do mesmo modo que um controlador aéreo sabe onde estão todos os aviões em determinada região, de um modo que ninguém nos próprios aviões ou em terra pode saber. Ademais, os leitores podem pensar que essas pessoas, que sabiam de tudo, ocultaram, deliberadamente, esse conhecimento do resto de nós. Tamanha fantasia de um panóptico maligno que tudo observa é, como toda teoria da conspiração, atraente. Como ocorre ao pensamento conspiratório, trata-se de um atalho, e um que parece oferecer clareza: na verdade, trata-se de doses rápidas de significados tóxicos [junk meaning], com os bonzinhos e os malvadinhos arranjados em variedades facilmente digestíveis.

Todavia, uma das coisas que despontam do livro é que somente um outsider, tomado de uma grande dose de paciência e diligência, teria a capacidade de ver entre e através de tantos armários distintos – uma “colmeia de armários”, para usar a excelente frase de Mark Jordan – fazendo-o de modo a fornecer a primeira visão de raios-X desse todo. Nenhum dos insiders, os que residem dentro desses armários, tem mais do que uma visão perfunctória sobre o que está realmente acontecendo. No máximo, sabem o que ocorre em algumas células vizinhas da colmeia. Essa realidade não é uma surpresa. Não estamos falando de uma única grande mentira, pela qual todos esses homens fingem publicamente ser machos, até estarem atrás dos muros do Vaticano, seguros num refúgio próprio e onde podem relaxar como num camarim, e nesse lugar soltar os cabelos e chamar, uns aos outros, de Mônica, Morgana ou Matilde, enquanto trocam falas quentes sobre os seus bofes.

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Em vez disso, falamos de infindáveis pequenas mentiras, manobras defensivas, atos de ocultamento do self, adoção de posicionamentos estratégicos, medo de perder a fonte de sustento, traições de colegas, disfarces de amor, indícios de chantagem, alianças bizarras, trocas codificadas, e criações resilientes de bolhas habitáveis. Também falamos sobre os modos de reprodução desse sistema de mendacidade, com base em novatos que passam a integrá-lo e começam a jogar o jogo. Todos os envolvidos mentem a si mesmos e a respeito de si mesmos, como também uns para os outros; não obstante, ao mesmo tempo, sabem e não sabem o que cada um sabe. Além disso, são muitos os que ficam torturados pela própria duplicidade, não tendo ainda atingido a perfeição de uma dissonância cognitiva polida, certamente alcançada por alguns dos entrevistados de Martel. Isso se alinha com as minhas observações: o anticlericalismo mais venenoso e o ódio mais agudo ao Vaticano saem das bocas de seus próprios funcionários clericais.

Não, estejam certos de que muitos dos que estão dentro do sistema clerical, muitos daqueles que foram entrevistados para estas páginas, tanto oficial quanto anonimamente, ficarão estupefatos, como eu mesmo fiquei, assim como ficará, penso, a maioria dos leitores ao lerem este livro. Esses insiders terão uma nova visão de como e onde vivem e trabalham, uma visão que nunca tiveram antes. Uma boa sociologia facilita o alcance de uma nova perspectiva sobre os que vivem dentro de uma estrutura, os quais nunca a alcançariam por si próprios. Certamente, uma vez que acolham essa perspectiva, a estrutura será alterada a partir de dentro e de um modo que não pode ser antecipado.

Vamos dar um passo atrás e ir devagar

Haverá um bom número de reações imediatas ao livro de Martel, tentativas de torná-lo parte das discussões atuais sobre guerra cultural, e teremos, provavelmente, um dilúvio de indignação vindo de pessoas que, não obstante, não quiseram perder o seu tempo lendo suas mais de quinhentas páginas. De fato, embora a prosa de Martel seja clara, elegante e, por vezes, muito engraçada, este é um livro sofisticado. Quando foi a última vez que a maior parte de nós leu um longo trabalho temperado com citações de Rimbaud? Ou um em que a discussão sobre o mundo cultural de Jacques Maritain e dos círculos literários gays na França, do início do século XX, repercutem na tese central? Teremos um tempo até que os leitores avaliem o livro, e mais outro tempo até a devida digestão de seus conteúdos. De uma coisa estou certo: o que foi visto não pode deixar de sê-lo. E uma vez que tenha sido visto, esse fato mesmo causará um profundo abalo no sistema de mendacidade, o qual está sendo, de uma só vez, iluminado e refletido num espelho.

A fim de compreendermos aquilo que estamos vendo, penso que seja conveniente dizer algo óbvio, assim espero: era apenas questão de tempo, até que um livro desse tipo aparecesse. E isso ocorre por dois motivos. De um lado porque, tanto para o bem quanto para o mal, as estruturas institucionais em escala mundial vêm se tornando mais porosas, menos confiáveis, e menos capazes de comandar deferência; graças às mídias sociais, estamos muito mais cientes a respeito das vidas pessoais dos envolvidos nessas instituições, de uma forma ou de outra; e a mística associada a qualquer gerador de mitos de “clubes do bolinha” (sejam estes de Papua Nova Guiné, do Vaticano ou de senadores do GOP), ainda sobrevivente, esmaeceu ao ponto de se tornar, por vezes, um absurdo ora cômico ora brutal.

E do outro lado, afirmou-se a tendência geral em direção à visibilidade e normalização não patológica das pessoas gays, viabilizada desde o final da II Guerra Mundial. Isso não foi um modismo, tampouco uma forma de degeneração social, mas sim um processo genuíno de aprendizado humano a respeito de algo verdadeiro sobre nós mesmos. A autoridade da Igreja mostrava estar aprendendo algo a respeito dessa mudança nas estruturas institucionais, à época do Concílio Vaticano II, mas, desde então, com a emergência da normalidade gay, essa mesma Igreja tem entrado em pânico, ao ponto de negar essa realidade, assim redobrando a aposta na desonestidade sobre sua própria e grande população gay. Este livro é testemunho do fracasso dessa campanha, pois aquilo que costumava ser impronunciável tornou-se mais facilmente debatível e, hoje, sem grandes alardes. Nessa área, as pessoas têm expectativas cada vez mais altas de honestidade. Mais e mais jovens são capazes de detectar, e rapidamente, que aquele clérigo que recusa dizer se é hétero ou gay, que se esconde dizendo que é celibatário, é, na verdade, um gay desonesto, incluindo a resultante disfuncionalidade social que podemos esperar disso. Tempos atrás, a homofobia estridente era interpretada como sinal genuíno de masculinidade; hoje, ao contrário, pois desperta mais risadinhas constrangidas sobre aquele que a proclama do que sobre aquele de quem se está falando.  

É muito pouco surpreendente, então, que próximo do final do pontificado de Ratzinger, um grande número de empregados jovens e de meia-idade do Vaticano percebeu-se próximo ao ponto de fervura, graças à dissonância cognitiva que lhes era imposta por um falso ensinamento, ao qual uma obediência fingida é condição sine qua non à manutenção de seus empregos. E, por favor, notem que não é a observação da continência sexual que é o elemento sine qua non.  Para a provável perplexidade dos nortistas anglo-saxões moralistas, quase ninguém nesta cultura mediterrânica parece estar particularmente preocupado com isso, desde que se evite o escândalo. Não, o sine qua non é: “não serás verdadeiro, agindo e vivendo honestamente como um homem gay, mesmo que casto”: pois isso implicaria levantar questões sobre os demais, como também contradizer, publicamente, a posição oficial, segundo a qual você sofre de uma grave desordem objetiva, tornando-o incompatível ao sacerdócio. É essa mistura de anseio por honestidade, mas somente disponível em outro lugar, e a pressão da dissonância cognitiva, crescente a cada geração, que ajudou Martel a abrir todas as portas dentro do Vaticano, como também das Conferências dos Bispos e das nunciaturas, incitando seus moradores a tagarelar.

Qualquer um que pense que um jornalista anticlerical tenha cruelmente enganado seus entrevistadores, num lance para “derrubar” a Igreja, perde completamente o ponto de vista do livro. De modo suficientemente frequente, vemos, no caso, um jornalista bem relaxado e não um sentencioso, o qual, na verdade, afeiçoa-se a muitos de seus entrevistados, fazendo com que os membros sem voz da Igreja se expressem por meio dele, ao menos em sua raiva, desespero e tristeza frente a esse sistema obviamente insustentável.

Dicas de uma reação não-escandalizada

Desejaria que a autoridade da Igreja pudesse receber o conhecimento comunicado neste livro com serenidade e gratidão, como impulso genuíno para viver mais plenamente o Evangelho. Mas eu seria um louco, caso contasse com isso. Nenhuma crítica do clericalismo, do tipo que o papa Francisco nos exorta, pode agora evitar a discussão sobre a mendacidade sistêmica relativa ao homossexualismo mal vivido, uma realidade que se torna presente nas páginas de Martel. Ainda assim, tudo que aprendemos sobre estruturas institucionais em colapso, mundo afora, revela-nos o quão completamente à deriva está a maior parte dos encarregados de reinventar-se face às realidades contemporâneas. Mesmo assim, gostaria de destacar algumas reações, as quais penso que, dificilmente, seriam proveitosas, à medida que esperamos o cair da ficha sobre aquilo que já está visível.

A primeira reação não proveitosa há de vir, certamente, daqueles aos quais cada novo episódio de escândalo de abuso infantil por padres, largamente propiciado pelo acobertamento clerical, é usado, de maneira oportuna, para atacar os sacerdotes gays, como se houvesse algo inerente ao ser gay que o tornasse mais suscetível ao abuso sexual de menores. Aqui, afinal de contas, temos um livro que confirma que o alto clero é gay, em proporções até então inimagináveis, mesmo diante das denúncias do cardeal Burke, as do arcebispo Viganò ou, de modo particularmente histérico, as do falecido bispo Morlino. Duvido, todavia, que os “haters” obtenham, das evidências dispostas, um consolo que esteja à altura de seu desalento, uma vez que fica perfeitamente claro, tomando as mesmas evidências, que homens gays vivendo vidas duplas compõem, sem dúvida, e de modo muito mais presente, a ala tradicionalista e antigay da Igreja, mais do que em qualquer outro lugar. Quem conduzirá o expurgo que desejam, se a necessidade de expurgar o homossexualismo nos outros é um dos mais fortes indicadores de uma homossexualidade mal vivida?

Não, caso houvesse qualquer conexão inerente entre homossexualismo e pedofilia, teria sido notável não ter havido muitíssimos mais casos de abuso infantil perpetrados por clérigos, nos últimos cinquenta anos, considerando-se a altíssima proporção de sacerdotes gays. O que as evidências mostram não é que a alta proporção de homens gays, entre clérigos, é conducente ao abuso de menores, mas sim que a desonestidade universal do clero, em relação ao seu homossexualismo interno, independentemente da prática de continência, correlaciona-se, fortemente, ao hábito eclesiástico de acobertamento, este sim sempre presente quando questões de abuso infantil são levantadas. É seu disseminado ordenamento chantagista, real ou imaginado, e não a homossexualidade em si, que emerge, aqui, como o assunto a ser tratado.

Uma segunda reação não proveitosa virá dos que dizem: “Bem, não vejo problema com todos esses gays sendo padres, bispos e cardeais, desde que honrem seu compromisso de continência sexual”. No caso, chamo-a de “não proveitosa” tomando todo o cuidado, uma vez que alguns dos que argumentam nesse sentido o fazem como católicos rigorosos, héteros decentes que não se comportam como homofóbicos, mas que desejam, simplesmente, que os padres gays aspirem ao mesmo alto padrão que os padres héteros. “Pois, uma vez que a disciplina do celibato esteja em vigor”, ela deverá se aplicar, igualmente, a todas as orientações. “Sexit” quer dizer “sexit”.

Vou então “gayexplicar” por que não é proveitoso, pedindo-lhes que suspendam qualquer suspeita de que eu esteja embarcando em alguma forma de petição especial que justifique mais licenciosidade sexual aos padres gays que aos padres héteros. Não estou fazendo isso. Eu recepcionaria com grande entusiasmo uma Igreja na qual, seja qual fosse a disciplina em vigor, esta fosse aplicada de modo igual a todas as partes. Mas, para que assim fosse, tanto os candidatos gays quanto os héteros ao sacerdócio teriam de começar de um mesmo patamar de ação. Não começam.

Assim seria o cenário de um mesmo patamar de ação: jovens de qualquer orientação sexual teriam crescido, desde a infância, sabendo que o casamento com a pessoa amada não é somente uma realidade acessível, mas uma possibilidade desejável. Uma que lhes trará felicidade e honra, fortalecendo os seus laços familiares. Da primeira adolescência em diante, os jovens envolvidos são gradualmente socializados, numa mistura de interações entre familiares e colegas, conduzindo ao namoro; e, se tiverem sorte, terão alguma forma de introdução à humanização de seus impulsos sexuais, tendo-se em vista a possibilidade futura de formarem um casal, num envolvimento em que seus sonhos compartilhados terão sido fonte de muitas situações cômicas para suas famílias e colegas. Experimentações, seja de ordem emocional ou erótica, ou ambas, terão sido, se não encorajadas, ao menos esperadas ou toleradas.

Uns poucos, bem poucos, entre esses jovens adultos, em paz com sua orientação sexual, avançando em responsabilidade emocional e sexual, descobrem que são chamados, mas, no caso, não para continuar na senda da maioria, em direção ao casamento, e sim na senda da vida de solteiro a fim de seguir Jesus. Essa escolha oferecerá a esses jovens uma forma distinta de florescimento, na medida em que se tornam abertos para se doarem em formas variadas de trabalho pastoral, conduzindo-os para fora da estrutura de renda necessária à manutenção de uma família. Esses adultos jovens são recebidos no seminário, onde, como parte de sua educação teológica, são capazes de compartilhar suas histórias de vida até então, passando pelo treinamento apropriado que os permita se desenvolver emocionalmente, tornando-se psicologicamente saudáveis e com boas redes de auxílio à medida que são preparados para o mundo em que trabalharão.

Bem, espero que possam perceber que, atualmente, esse quadro sobre candidatos a seminaristas, em nível mundial, ainda que altamente idealizado para os héteros, é simplesmente indisponível aos candidatos gays. Em primeiro lugar, a autoridade da Igreja ainda ensina que um jovem gay não pode ser apropriadamente socializado na humanização de suas demandas emocionais e sexuais, enquanto sonha se casar com alguém que ama. Realmente, muitas escolas de ensino médio, especialmente nos Estados Unidos, são ferozmente legalistas em seus esforços na aplicação desses ensinamentos aos seus funcionários e jovens alunos. Ademais, as autoridades escolares ensinam que uma pessoa gay não tem liberdade de escolha para optar pelo casamento ou por uma vida de solteiro. A pessoa gay tem o dever solene à vida de solteiro, com a ameaça do inferno atuando como poderoso executor.                          

Sim, as autoridades de fato negam haver tal coisa como uma pessoa admitidamente gay que seja emocional e psicologicamente equilibrada e que, portanto, possa fazer uma escolha livre entre casamento ou celibato, tornando-se, por conseguinte, um candidato abertamente honesto para se candidatar ao seminário. Seu documento de 2005, deixa a coisa muito clara. Tanto o cardeal que assinou o documento quanto seu defensor público, monsenhor Anatrella (agora suspenso do sacerdócio, pois sob suspeita de abuso sexual com adultos do mesmo sexo), não deixaram margem a qualquer dúvida: mesmo homens gays castos não podem ser sacerdotes, por conta de inadequações psicológicas inerentes. A única conversa apropriada entre um candidato gay e um diretor vocacional é aquela em que o candidato tem a obrigação de dizer que é gay e o diretor de que o candidato deve desistir. Essa proibição ainda estava em vigor em 2016.

O fato de a posição oficial ser uma mentira tornou-se, hoje, óbvio a todos, e mais, ela é raramente aplicada. Mesmo os bispos linha dura asseguram que não discriminam baseando-se em orientação sexual, mas, em vez disso, com base em algo que chamam de “maturidade emocional e afetiva”. No entanto, na prática, isso significa que não acreditam em seu próprio ensinamento, pois, como isso, estão admitindo pessoas que o seu ensinamento oficial alega não existir. Esses candidatos estão automaticamente implicados na desonestidade de seus superiores simplesmente por estarem lá. Além disso, qualquer candidato gay só precisa aprender a fingir não ser gay, e certamente encontrarão um número suficiente de formadores que os induzirão na brincadeira “pisca, pisca, toque, toque”, tornando-se, eles próprios, senhores do mesmo jogo.

Resumindo, muito antes que apareça qualquer assunto sobre as práticas sexuais do candidato, sejam as do passado, presente ou futuro, ele logo descobre que aquilo que é realmente impossível é abrir-se a uma narrativa honesta e direta, em primeira pessoa. Ele não encontrará uma instituição que está preparada a protegê-lo, publicamente, em sua honestidade de ser gay, contra os “haters”; isso ocorre tanto dentro quanto fora do seminário. Tampouco ele encontrará uma instituição que ofereça ao candidato uma socialização de longo prazo junto aos admirados membros sêniores, os quais deveriam ser exemplos vivos de uma narrativa honesta em primeira pessoa, à medida que se empenham por viver sua opção por continência sexual, auxiliando-se mutuamente em seus momentos difíceis.  

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Àqueles que dizem, “Bem, tudo que pedimos é que a continência seja observada tanto pelos gays quanto pelos héteros”, respondo-lhes: essa é a receita perfeita para que nada mude na configuração atual. Caso fosse realmente assim tão fácil, tendo somente que dobrar a insistência na continência, o que será então do caso daqueles sacerdotes gays que presumivelmente mantiveram a continência, seja integralmente, ou depois de se recuperar de algum lapso que reconheceram ser inapropriado? Por que, mesmo assim, não falaram na primeira pessoa? Eles poderiam tê-lo feito, a fim de, no caso, prestar testemunho da não relação entre ser gay e pedofilia, ou simplesmente para que fossem modelos visíveis a jovens angustiados. Meu amigo, Fr. Jim Martin, assegura-nos de que existem milhares de sacerdotes gays fieis desse tipo, e concordo com ele. Mas, por que, então, seu clamoroso silêncio? Em artigo recente, envolvendo o assunto de padres gays, Andrew Sullivan, também um amigo, foi capaz de conseguir somente um único e muito corajoso padre gay norte-americano como entrevistado, para que viesse falar em público, colocando-se na primeira pessoa.      

Não, o silêncio desses numerosos bons sacerdotes nos diz bem onde o problema real se aloca: não na questão da continência, mas na da honestidade pública acerca da identidade sexual desses homens. Mesmo aqueles poucos que não tiveram incidentes em seus passados, a respeito dos quais possam se envergonhar, não falarão. Será que se fizessem isso seus colegas teriam medo deles? Você perderá todos os seus amigos caso também sejam “expostos”, em associação com você. Caso você se encontre imune à chantagem, num meio em que a maioria não está, então como você será confiável na manutenção do segredo de todos, ou mesmo se comportará com discrição apropriada quando em companhia deles? Novamente, se você se coloca abertamente como um padre gay, independentemente de seu grau de castidade, você está, intencionalmente ou não, prestando testemunho público contrário ao ensinamento oficial. Esse ensinamento descreve você como portador de uma desordem [doença] objetiva, que o incapacita ao exercício apropriado de sua função. Em outras palavras, no caso, a honestidade o fará perder amigos e ter suas perspectivas de emprego reduzidas aos equivalentes eclesiásticos da Sibéria.

É nesse momento que a minha “gayexplicação” se torna frequentemente difícil à compreensão dos héteros. Comparado à importância da franqueza que vem da primeira pessoa, em sua identidade gay, o assunto da continência se torna, para a maior parte dos clérigos gays, insignificante. Em primeiro lugar, apesar do interminável alarido moralista que os cerca, atos sexuais mutuamente consentidos entre membros adultos do mesmo sexo são tão inconsequentes quanto pode ser uma atividade humana. Não machucam ninguém, não geram nem bebês nem produzem qualquer alteração visível de ordem fisiológica ou intelectual entre os participantes. Não há qualquer diferença notável entre um monsenhor que tem uma “amizade colorida” e um outro monsenhor cujo amigo venha “descolorido”. Além do mais, se o frade “X” sai de férias todo ano com seu amigo Brian, alguém pode dizer se fazem sexo ou não? Indo mais ao ponto: quem na terra se importaria com isso?! A questão não apresenta consequência discernível.

Isso não ocorre com os héteros, entre os quais atos sexuais podem gerar consequências notáveis, e onde num relacionamento, entre um homem e uma mulher, rapidamente se levantam questões de justiça, uma vez que a mulher tenderá a ser o parceiro mais vulnerável economicamente, e seus anos reprodutivos têm prazo de validade. De modo que, se o frade “Y” sai de férias todos os anos com Sylvia, a menos que ela seja conhecida como aquele tipo de mulher que adora a companhia de homens gays, o passeio levantará objeções. A incontinência de clérigos héteros traz consequências e questões sobre justiça e possibilidades reprodutivas, de um modo alheio à incontinência de clérigos gays. Não se trata de fazer qualquer alegação sobre o caráter positivo ou negativo disso, trata-se, simplesmente, de destacar, em termos puramente funcionais, que se ou clérigo gay está “praticando” ou não, isso, talvez, tenha importância espiritual para ele, pessoalmente falando, mas que, no tocante ao funcionamento do sistema clerical, torna-se ao mesmo tempo invisível e irrelevante.

Assim, a presença da homossexualidade no clero não é, em si mesma, um problema, uma vez que a homossexualidade não é um indicador mais forte na predisposição à pedofilia do que o é a heterossexualidade. A questão se um padre qualquer está “praticando” ou não tem impacto zero no funcionamento continuado do sistema de mendacidade. Não, o osso verdadeiramente duro de roer, aquele cujo enfrentamento tornou-se inelutável, graças, entre outros fatores, ao livro de Martel, é o assunto da honestidade: a franqueza vivida por números suficientes de clérigos para que o sistema chantagista da omertà,de uma homossexualidade mal vivida, não seja mais uma ameaça.

Agora, dedico-me à terceira reação inconveniente: aquela que exige honestidade por decreto. Alguns dirão, “Bem, esses caras estão sendo desonestos. Deveriam ser apenas honestos”. Em certo sentido, isso é obviamente verdadeiro. Mas, como exigência, é uma farsa, quando feita por aqueles que formam o grupo da desonestidade contra a qual se dirige a censura. Imitação é um estímulo muito mais forte que instrução, e qualquer candidato gay ao seminário verá muitos outros iguais a ele já no seminário, e será entrevistado por outros também iguais a ele da equipe do seminário. Se no meio desse processo ele se deparar com a instrução, “É solicitado do candidato que este seja honesto sobre sua condição gay, e caso o candidato honesto confirme ser gay, seu conselheiro vocacional dirá ao candidato que este não poderá ingressar no seminário”, ele não estará sendo apresentado, realmente, a uma escolha moral direta. Tomando-se esse contexto, ele está diante de uma barreira, e sua capacidade de saltá-la mostrará se ele será ou não um jogador apto como os demais. No caso de o obstáculo parecer um pouco alto, e caso o diretor vocacional goste do candidato, este pode sugerir que o garoto não é realmente gay, mas que tão somente sofre uma forma transitória de “atração pelo mesmo sexo” ou outra ficção eclesiasticamente conveniente. Caso o diretor vocacional não goste do rapaz, o fato de este ser gay pode ser usado para dispensá-lo.            

Um sistema desonesto não pode exigir honestidade de seus recrutas, uma vez que, num sistema desonesto, as exigências internas são feitas desonestamente e serão recebidas com desonestidade. O Santo Padre disse, durante entrevista recente, numa seção um tanto confusa e amadora, que ele achava que os sacerdotes gays deveriam deixar a instituição, em vez de prosseguir com uma vida dupla. Sim, mas é claro! Quem de nós gostaria de viver uma vida dupla, ou mesmo gostaria que seus amigos vivessem dessa forma, ou que nosso sacerdote vivesse assim?  Mas essa solicitação surtirá efeito zero enquanto a questão que tipo de vida dupla, e por que, não for examinada de forma detida.

Por exemplo: não é raro que jovens gays em conflito entrem no seminário ou coisa equivalente, inicialmente participando de todas as formas presentes de desonestidade. Isso pode meramente refletir a mesma hipervigilância em que viviam como adolescentes, ainda no armário e criados em ambientes com aversão religiosa à homossexualidade. Caso a educação geral teológica e humana que recebam no seminário tenha algum valor (o que é frequentemente o caso), caso sejam devidamente ensinados a ler e compreender os Evangelhos, caso existam, à disposição deles, diretores espirituais genuínos e decentes, não é de se estranhar que descubram, com o tempo, o que de fato é verdadeiro: não há nada de errado com quem são, e que o ensinamento oficial sobre a questão é simplesmente falso. A Graça terá vez!

Que esses homens devam encontrar, à medida que o tempo passa, outros como eles próprios, sejam clérigos ou leigos, formando casais em alguns casos, é parte integrante desse percurso. Provavelmente, terão descoberto que seu compromisso com o celibato é nulo. Porque no momento em que o compromisso foi feito, uma parte – a autoridade da Igreja – estava mentindo para eles a respeito de quem são, de sua liberdade para optar por uma parceria. Da mesma forma, qualquer casamento seria nulo em circunstâncias semelhantes, com uma parte mentindo para a outra. À medida que esses homens tomam consciência sobre si mesmos, por que deveriam considerar que estão fazendo algo errado?  Afinal de contas, o crescimento deles, em graça e honestidade, veio conforme foram percebendo o grau de desonestidade de seus tutores para com eles, por meio da posição oficial da instituição que lhes dá um modo de vida.

Dentro do sistema, na forma como este se apresenta, um superior ou bispo sábio frequentemente não interferirá com algo que manifestamente torna os membros do casal pessoas mais saudáveis; ele apenas torcerá para que sejam discretos, e implorará para que não venham falar com ele sobre o assunto, de modo que ele não precise, oficialmente, “ficar sabendo”. O próprio casal compreenderá que a única regra que importa é “não serás fonte de escândalo”. A duplicidade que os acometerá não tem nada a ver com a vida sexual deles, pela qual ninguém tem o menor interesse. Será a de que não poderão nem mesmo sugerir, em público, que ser gay é OK, e que formar um casal do mesmo sexo é OK, falando isso àqueles que ministram. O preço que pagarão por uma vida tranquila é um acordo para não dizer a verdade e não interferir na propagação dessa mentira conduzida pelos líderes da Igreja. Essa é a dor de uma vida dupla: não que você esteja fazendo algo sexual que não deveria ser feito. Você aprendeu que não se trata disso. Mas é o preço de uma vida sigilosa, seja estando junto ou rompendo com a relação, incapacitando-o de desafiar uma mentira institucional publicamente. Trata-se de um dilema real para a vocação sacerdotal. Se você deixá-la, os mentirosos triunfam; se você fica, triunfam do mesmo jeito. O que devemos fazer?

Não, a honestidade não pode ser nem determinada por decreto nem exigida pelos que detêm o poder num sistema desonesto. Mas, a franqueza, sem a qual não pode haver honestidade, pode sim ser facilitada pela autoridade da Igreja. E isso será a coisa mais interessante a se observar, à medida que embarcamos naquilo que certamente se tornará mais visível com a chegada do livro de Martel. Como a autoridade da Igreja facilitará a sinceridade institucional de modo a impactar as duas pontas do espectro que estruturalmente importam: as crianças, que podem crescer querendo ingressar no sacerdócio; e os bispos, os quais, exclusivamente, podem criar um contexto de franqueza em que límpidas promessas de ordenação sacerdotal possam ser feitas?

Somente quando ficar claro aos primeiros [às crianças] que Deus as fez como são e que as ama como são, e que o processo pelo qual elas humanizarão sua própria capacidade de amar pode, legitimamente, assumir várias formas, é que vocês obterão, dentro de uma geração ou mais, candidatos aos seminários perfeitamente diretos, aos quais ser gay ou hétero é assunto irrelevante, para os quais uma apresentação pessoal casual é tema corriqueiro, pois o que importa é o projeto do Reino, cujos trabalhadores empenham-se de todo o coração.

E a outra ponta do espectro: quando os próprios bispos viverem a sua própria orientação sexual, seja ela qual for, de modo publicamente conhecido e responsabilizável; quando forem capazes de oferecer um contexto de sinceridade, dentro do qual os ordenandos possam fazer promessas e votos, sem que ambos os lados precisem jogar com algo do tipo: “não me pergunte, não fale”; então será razoável esperar honestidade no clero.

Certamente, ambas as pontas: ensinar a verdade, a respeito de si mesmas, às crianças gays, e esperar franqueza de bispos gays, só serão realizáveis quando o ensinamento autêntico da Igreja, ao que é genuinamente o caso a respeito desses seres humanos envolvidos, tiver se imposto, rompendo com a sujeição frente às recentes ofuscações circulares das Congregações de Roma. Temos apenas de olhar ao que o Vaticano II teve a dizer, num texto de muito mais peso teológico que todos os documentos subsequentes a respeito da homossexualidade, a fim de vislumbrarmos o que o ensinamento da Igreja, talvez, tivesse nos falando o tempo todo, apesar da tentativa desesperada de mantê-lo à distância, desde meados dos nos 1970 em diante. Aqui, na hoje dissonante linguagem machista da época (1965) está a Gaudium et Spes [Alegria e Esperança].

¶ 36 […] Se por autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios, que o homem irá gradualmente descobrindo, utilizando e organizando, é perfeitamente legítimo exigir tal autonomia, Para além de ser uma exigência dos homens do nosso tempo, trata-se de algo inteiramente de acordo com a vontade do Criador. Pois, em virtude do próprio fato da criação, todas as coisas possuem consistência, verdade, bondade e leis próprias, que o homem deve respeitar, reconhecendo os métodos peculiares de cada ciência e arte. Por esta razão, a investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a acabo de um modo verdadeiramente científico, nunca será realmente oposta à fé, já que as realidades profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus […]

Aprendendo e então ensinando a verdade concernente à variante minoritária recorrente, e não patológica, da condição humana chamada de “homossexualidade” é o que nos libertará. Espero que o livro de Martel nos dê forte ímpeto na direção desse processo. Os que estão aprisionados na estrutura autodirigida de mendacidade sistêmica, neste livro descrita, como também os que a servem, também estão, saibam ou não disso, gritando por essa misericórdia.

Madrid, Fevereiro de 2019.

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