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“Do Reino Nefasto do Amor-Próprio”, segundo Andrei Venturini Martins

reino nefasto

Neste texto exclusivo para o blog da É Realizações, Andrei Venturini Martins, autor do livro Do Reino Nefasto do Amor-Próprio – A origem do mal em Blaise Pascal, conta como se interessou pelo pensamento pascaliano e resume o argumento que é defendido em sua obra.

 

Blaise Pascal foi um filósofo do século XVII (1623-1662).

Viveu em um momento de grande efervescência cultural na Europa: advento do racionalismo cartesiano; aurora da ciência moderna, mais precisamente, da ciência técnico-analítica; autonomia da ciência em relação à religião, tendo como principal representante Galileu Galilei; período de fortes controvérsias religiosas entre reformadores e contrarreformadores; reflexão sobre o lugar do homem diante do infinito cósmico.

Quanto às referências teóricas de Pascal, podemos dividi-las em duas partes: leituras religiosas, como a Bíblia, liturgia das horas, Santo Agostinho, Saint-Cyran e Jansenius, e leituras filosóficas, envolvendo autores como Montaigne, Descartes e Epicteto.

Sua produção intelectual perpassa os mais variados temas, como a Física, campo em que deixou sua marca pelas experiências sobre o vácuo, e a Matemática, com grande produção sobre o cálculo das probabilidades e a famosa invenção da máquina de calcular.

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O filósofo, matemático e físico francês Pascal (1623 – 1662) formulou uma teoria geométrica aos 16 anos. [Foto: Terra]
Além disso, escreveu sobre temas teológicos, como em As Provinciais (Editora Filocalia) e em um rascunho denominado Escritos sobre a Graça. Mas sua obra mais conhecida é chamada de Pensamentos, publicada após sua morte, em 1700.

Pascal tinha uma saúde muito frágil: morreu em 1662, com 39 anos, e está enterrado na Igreja Saint-Étienne-du-Mont, localizada em Paris, ao lado do Panthéon.

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Igreja Saint-Étienne-du-Mont, na França, onde Blaise Pascal está sepultado. [Foto: Top Photo Corporation]
Comecei a ler Blaise Pascal durante a minha graduação em Filosofia. O interesse por sua obra aumentava a cada dia, de modo que o autor foi meu objeto de investigação no mestrado e no doutorado.

Costumo dizer que mergulhei no estudo de Blaise Pascal por três motivos.

Primeiro, porque se trata de um filósofo que investiga a condição humana: “Não sei quem me colocou no mundo, nem o que é o mundo, nem o que sou eu mesmo; estou numa ignorância terrível de todas as coisas”. (Pensamentos, Laf. 427). Muito mais do que as certezas daqueles que acham que sabem, suas dúvidas sempre me impeliram a pensar.

O segundo motivo é o pessimismo de Pascal em relação à condição humana sem Deus. Seus textos mostram que a noção de perfectibilidade humana parece impossível de se realizar de fato, revelando-nos um ser humano aturdido pelo sofrimento:

Todos se queixam, príncipes, súditos, nobres, plebeus, velhos, moços, fortes, sábios, ignorantes, sãos, doentes de todos os países, de todos os tempos, de todas as idades e de todas as condições.

(Pensamentos, Laf. 148).

Por fim, o último motivo diz respeito a uma reflexão interessante sobre o mal. Em uma carta escrita em 1651, o autor levanta a seguinte questão: “Qual é a fonte de todos os vícios e de todos os pecados?”. Dito de outro modo: qual é a origem do mal no mundo?

Foi essa pergunta que norteou meu livro Do Reino Nefasto do Amor-Próprio – A origem do mal em Blaise Pascal, publicado em 2018 pela Editora Filocalia.

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Do Reino Nefasto do Amor-Próprio – A origem do mal em Blaise Pascal, de Andrei Venturini Martins. [Foto: É Realizações]
A obra está dividida em duas partes: na primeira, composta por três capítulos, exponho a explicação religiosa de Pascal sobre a origem do mal; na segunda, constituída por dois capítulos, busco entender como o mal se manifesta enquanto fenômeno em nosso cotidiano.
 

Está gostando do texto? Então não deixe de assistir à palestra de lançamento do livro Do Reino Nefasto do Amor-Próprio, ministrada por Andrei Venturini Martins:

No primeiro capítulo é trabalhado o contexto histórico das cartas espirituais escritas no século XVII, traçando-se algumas características do diretor espiritual e sua relação com o dirigido.

Por meio delas podemos entender como os diretores de consciência exerciam a arte de detectar vaidades, auxiliando seus dirigidos a compreender suas ações no cotidiano sob o prisma da vaidade. Para esclarecer melhor o contexto da carta escrita por Pascal em 1651, investiguei um texto que pode ser considerado um manual para detectar vaidades.

Trata-se do Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, publicado em 1642, que tive a alegria de traduzir e publicar em língua portuguesa pela Editora Filocalia em 2016.

O texto tem uma grande influência agostiniana, sublinhando três grandes armadilhas que a concupiscência – desejo irresistível em direção ao mal – exerce sobre o corpo, o espírito e a vontade.

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Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, em edição traduzida e comentada por Andrei Venturini Martins. [Foto: É Realizações]
Além de Jansenius, outro pensador que exerceu grande influência nos diretores espirituais da abadia de Port-Royal foi Saint-Cyran, o qual dedicou-se, junto com Jansenius, ao estudo das obras de Santo Agostinho. Este autor, também abordado nesse capítulo por meio de suas Lettres Chrestiennes et Spirituelles, exerceu forte influência na antropologia teológica de Pascal.

Esses dados contextuais são essenciais para que o leitor tenha uma compreensão mais ampla do texto que será trabalhado no segundo capítulo.
 
O ponto central do segundo capítulo é a gênese da teoria do pecado original.

Busquei encontrar a raiz de todos os vícios e de todos os males, ou seja, a fonte primária dos pecados, sua mola propulsora. Após estudar o orgulho, fonte do mal para Santo Agostinho e Jansenius, passei a investigar Pascal, que diverge de seus mestres quanto à origem do mal.
 

No canal da É Realizações no YouTube também está disponível a palestra de Andrei Venturini Martins, autor do livro Do Reino Nefasto do Amor-Próprio, e Luiz Felipe Pondé sobre Cornelius Jansenius. Você não pode perder!

Para o pensador francês há dois amores intrínsecos ao homem, “um por Deus e o outro por si mesmo”.

Esses amores, antes da Queda de Adão, eram acomodados por uma lei que expressa a ordem estabelecida pela justiça de Deus: os dois amores ajustam-se às naturezas dos objetos, de modo que o amor destinado às criaturas seria finito, e aquele destinado ao Criador, infinito.

Porém, após o misterioso pecado de Adão, essa relação de proporcionalidade e equilíbrio torna-se desarmônica. A causa desse desajuste, dando origem a todos os vícios e todos os males, é o amor-próprio.

Para Pascal, o amor-próprio pode ser definido como o direcionamento do amor infinito – aquele que deveria ser destinado a Deus – a um objeto finito, ou seja, ao próprio homem. É assim que a criatura faz de si um objeto injusto de amor.

Além disso, o desaparecimento de Deus deixa no coração do homem um vazio infinito, um buraco do tamanho do Criador, um abismo vazio, dito de outro modo, um vazio proporcional ao infinito que corresponde ao ser de Deus.

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Após o misterioso pecado de Adão, a relação de proporcionalidade e equilíbrio entre o amor humano e seu objeto torna-se desarmônica. [Foto: “The Expulsion of Adam and Eve from Paradise”, 1791, óleo sobre tela, Benjamin West. National Gallery of Art, EUA.]
Portanto, para Pascal, o amor-próprio, motor de todos os males que ofuscam a vida humana, é seguido do sentimento de vazio infinito, do desejo de dominação e da preguiça. Curiosamente, a lista de males termina com um “etc”. Haveria então outros males oriundos do amor-próprio?

No terceiro capítulo, mostrei que a lista, iniciada na carta de 1651 e que ilustra as consequências do pecado original – tendo o amor-próprio como ponto de partida –, continuaria nos Escritos sobre a Graça.

Além do amor-próprio, do vazio infinito, do desejo de dominação e da preguiça, Pascal acrescenta a ignorância, a concupiscência, a culpa e a morte eterna.

Após apresentar esse quadro amplo das consequências do pecado original, restaria ainda um outro desafio: se há no homem uma marca de Deus, um vazio infinito, um vazio do tamanho de Deus, então como esse vazio infinito apresenta-se em nosso cotidiano? Como reconhecê-lo?

A segunda parte do livro é caracterizada pela tentativa de descrever como esse vazio infinito se manifesta.

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“Se há no homem uma marca de Deus, um vazio infinito, um vazio do tamanho de Deus, então como esse vazio infinito apresenta-se em nosso cotidiano? Como reconhecê-lo?”. [Foto: Divulgação]
No quarto capítulo, denominado “Vazio infinito e divertissement”, mostrei que a expressão “vazio infinito” é uma metáfora do sofrimento, alusão a uma angústia inexplicável que afeta o homem em seu dia a dia, de modo que a linguagem não consegue expressá-la com total clareza.

Trata-se de uma falta, um vazio de sentido, um princípio de desorientação, um incômodo existencial, uma tristeza insuportável, um tédio sem explicação, uma insuficiência diante dos dilemas da existência. Pascal, quando escreve sobre o tédio, aproxima-se da descrição da natureza deste vazio infinito que nos habita:

Tédio. / Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação. Ele (o homem) sente então o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, seu vazio. Imediatamente nascerão do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, a mágoa, o despeito, o desespero.

(Pensamentos, Laf. 622).

Essa tristeza profunda presente no fundo da alma é a verdade insuportável que permeia a condição humana. Ninguém consegue viver constantemente neste inferno espiritual, afetado por este abismo infinito.

Minha hipótese é que o homem tenta desviar o seu olhar deste vazio infinito através do divertissement. Mas o que é o divertissement?

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O divertissement é uma maneira de esquivar-se de si e evadir-se do tédio que de alguma forma faz a criatura sentir o vazio infinito. [Foto: Artista desconhecido da escola de Frans Hals (1582 – 1666) – Os Jogadores de Baralho – século 18/19]
É um desvio, uma estratégia para esquivar-se de si e evadir-se do tédio que de alguma forma faz a criatura sentir este vazio infinito. O homem sofre, e por meio do divertissement reage ao sofrimento, realizando atividades que possam desviá-lo de sua penosa condição.

Neste sentido, Pascal parece ser um autor que profetizou o contemporâneo. No fragmento 36 dos Pensamentos, assinala que os jovens, por estarem em meio ao barulho, à diversão, e preocupados com o futuro, não percebem o quanto o mundo é composto por atividades vãs e inúteis:

Mas tirai-lhes a diversão, vós os vereis secar de tédio. Passam a sentir então o seu nada sem o conhecer, porque é ter muita infelicidade estar numa tristeza insuportável, e logo se fica reduzido a considerar a si mesmo sem se divertir.

Quem estaria disposto a ficar em um quarto vazio mergulhado em si mesmo, sem nenhuma atividade, sem se divertir?

Albert Camus, leitor atento de Pascal, sublinha, na obra Mito de Sísifo, que para não sentir o absurdo da existência é preciso se esquivar, pois “Começar a pensar é começar a ser atormentado”. Diante disso, o divertissement tem a função de desviar o homem do sofrimento e de sua precária condição:

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, o ‘por que’ se levanta.

Se o homem não souber dar uma resposta a este por que, se não conseguir dizer os motivos que o mantêm em pé a cada dia para realizar suas atividades, deparar-se-á com esse vazio infinito, com o tédio, com a tristeza profunda.

Portanto, ou estamos no divertissement (miséria em movimento) ou no tédio (miséria sem movimento): um pai que perdeu seu filho único e está cheio de dívidas, enquanto dança, não pensa na tragédia que tomou conta de sua vida.

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“Para não sentir o absurdo da existência é preciso se esquivar, pois ‘Começar a pensar é começar a ser atormentado’ [Albert Camus].” [Foto: “Le fatiche di Sisifo”, acrílico sobre tela, da artista italiana Claudia Margadonna]
Pascal descreverá os inúmeros divertissements do século XVII: as diversões dos reis, os jogos, o amor, as guerras, a caça, a busca pelas profissões, as obsessões dos doutos em suas pesquisas, a dança, as perturbações fúteis do cotidiano.

Concluirá que o homem, por meio do divertissement, acredita que a conquista de um dado objeto (um emprego, um amor, um cargo reconhecido) poderá lhe conceder a felicidade. Divertir-se é um movimento em busca dessa sensação de plenitude, de felicidade plena, de preenchimento do vazio infinito.

Porém, é impossível preencher esse vazio infinito, pois um objeto finito não pode preencher o vazio infinito presente no homem. É por isso que, quando um dado objeto é alcançado, irrompe um sentimento de frustração.

Pascal revela-se como um autor trágico: o homem deseja aquilo que ele não pode ter, anseia pela plenitude no mundo da finitude, ama um objeto infinito que desapareceu de seu horizonte. Qual seria a saída para este imbróglio?

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O vazio infinito que nos habita só pode ser preenchido por um objeto infinito, ou seja, pelo próprio Deus. [Foto: Reprodução a óleo em tela de “O Retorno do Filho Pródigo”, Rembrandt Van Rijn]
Deus não é uma saída para Pascal, mas é a única saída possível, única forma de salvação e dissolução do sofrimento e da contingência. É por isso que no quinto e último capítulo busquei entender como seria a apologia pascaliana da religião cristã.

Para o autor, aquele vazio infinito que nos habita só pode ser preenchido por um objeto infinito, ou seja, pelo próprio Deus. Jesus Cristo seria esse objeto infinito que preenche o hiato entre Deus e o Homem.

O filho de Deus, concebido por Pascal como Mediador, é aquele que faz a ponte entre Deus e o homem. Por meio da graça, Deus pode salvar o homem deste estado miserável e conduzi-lo à glória. Mas para quem Deus concede a graça? Para quem Ele quiser: ninguém tem direito, já que o pecado contaminou a todos.
 
Portanto, trata-se de uma teoria da salvação angustiante: eu não posso me salvar, mas quando Deus, pela graça, opera em meu coração, posso colaborar com a salvação, assentindo a ela, já que a causa primeira da salvação é Deus.

Tudo que conheço é que devo em breve morrer; mas o que ignoro mais é essa morte mesma que não posso evitar. / Como não sei de onde venho, também não sei para onde vou; só sei que, ao sair deste mundo, caio para sempre no nada, ou nas mãos de um Deus irritado.

(Pensamentos, Laf. 427).

 Ciente de sua condição trágica, deste vazio infinito que nos habita e da necessidade da graça, a leitura da obra Do Reino Nefasto do Amor-Próprio coloca-nos frente a um dilema: ou Deus ou o Nada.
 

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ANDREI VENTURINI MARTINS é doutor em Filosofia, professor no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e membro da Associação Brasileira de Filosofia da Religião. É autor do comentário e tradução da obra Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius (Editora Filocalia, 2016), Do Reino Nefasto do Amor-Próprio – A origem do mal em Blaise Pascal (Editora Filocalia, 2018), O que É o Homem? (Editora CRV), A Verdade É Insuportável (Editora Filocalia, 2019, no prelo) e Joaquim Nabuco – Um abolicionista liberal do Brasil (É Realizações, 2019, no prelo). Email: dreivm@hotmail.com

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