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Do Reino Nefasto do Amor-Próprio - A origem do mal em Blaise Pascal

AUTOR:
Martins, Andrei Venturini

Editora:
Filocalia

Gênero:
Filosofia

Subgênero:
Filosofia

Formato:
16 x 23 cm

Número de Páginas:
352

Acabamento:
Brochura

ISBN:
978-85-69677-18-5

Ano:
2018
Tags:
jansenismo, pós-cartesianismo, problema do mal, teodiceia, pecado original, filosofia da religião, teologia e Filocalia

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Sinopse

Em um texto forjado pela dor do luto – uma carta escrita a sua irmã por ocasião do falecimento de seu pai –, Blaise Pascal oferece dois conceitos-chave para a teoria do pecado original: o amor-próprio, que consiste no direcionamento a si mesmo do amor infinito devido a Deus, e o vazio infinito, isto é, a falta instituída no homem pela queda, somente preenchível pelo Cristo Mediador. Por meio de um estudo meticuloso da Lettre, das demais obras de Pascal – notadamente, os Pensamentos e os Escritos sobre a Graça – e dos autores que mais influenciaram o pensamento pascaliano – Santo Agostinho, Cornelius Jansenius e Saint-Cyran –, Andrei Venturini Martins demonstra a originalidade do filósofo francês na discussão sobre a origem do mal. Do Reino Nefasto do Amor-Próprio será uma leitura enriquecedora para estudiosos tanto de filosofia como de teologia, e para todos atentos à presença do mal no mundo.

  • Palestra

SAIBA MAIS SOBRE O LIVRO


Se é verdade que a dor só é conhecida por quem a experimenta, esta é mais uma razão para considerarmos Blaise Pascal um profundo conhecedor da miséria humana: um de seus textos mais originais e mais férteis a respeito do sofrimento consistiu em uma carta escrita à sua irmã por ocasião do falecimento de seu pai. Esta peça nascida do luto é, ao lado dos Escritos sobre a Graça e dos célebres Pensamentos, a principal fonte para a investigação de Andrei Venturini Martins sobre a explicação pascaliana da origem do mal. É sabido que Pascal associou-se ao jansenismo teológico, que por sua vez recuperava ideias de Santo Agostinho concernentes à queda e ao pecado original. Mas Andrei começa por destacar que, ao mesmo tempo em que a Lettre de Pascal endossa a distinção agostiniana entre o amor de si e o amor de Deus (os quais vêm a fundar após a queda, respectivamente, a cidade terrestre e a cidade celeste), nela se sustenta que esses dois amores são intrínsecos ao homem e, assim sendo, o habitam desde antes que houvesse queda. A condição humana é marcada desde sempre pela capacidade de amar infinitamente a Deus e amar finitamente a si como um bem destinado a Deus. A queda – que surge aqui como uma figura da origem do mal – distingue-se, na verdade, por ter como causa o amor-próprio: ato em que o amor infinito devido a Deus é direcionado pelo homem a si mesmo. A extensão em que esse sentimento vigora constitui, assim, um campo perverso, um verdadeiro reino nefasto.

A queda inaugura no homem um vazio infinito, que só pode ser preenchido por um objeto igualmente infinito. Tal vazio provoca dois efeitos imediatos: por um lado, o desejo de dominar; por outro lado, a preguiça. Os Escritos sobre a Graça se vinculam com a Lettre por uma “ligação subjetiva”, explorando ainda outras consequências do pecado original: ignorância (em primeiro lugar acerca de si mesmo e da natureza humana), concupiscência (ou seja, paixões pecaminosas) e morte eterna. Além disso, o vazio infinito desperta terror, em fuga do qual o homem se entrega a divertissements, embora seja Cristo o único que poderia satisfazer aquela falta – afirmações que aproximam a Lettre desta vez aos Pensamentos. O divertissement não passa de uma distração: como Albert Camus viria a dizer, é uma forma de esquivar o pensamento da morte e do aniquilamento; para Pascal, trata-se de uma miséria com que se tenta preencher outra miséria. Mas tampouco quando se atenta à morte e ao vazio a situação humana se mostra mais cômoda: neste caso o que se tem é o tédio, e deste é impossível se desviar. O que deve ser reconhecido pela fé e pela razão – diante do testemunho do coração e das Escrituras –, então, é que a distância infinita entre Deus e o homem é um sofrimento que somente o próprio Deus pode suportar. É sobre o Cristo Mediador que Deus faz recair a Sua ira – podendo novamente acessar o homem –, e é o Cristo quem proporciona ao homem a presença amorosa de um Redentor – permitindo-o acessar novamente a Deus.

Com essa exposição abrangente das ideias pascalianas sobre a origem do mal, Do Reino Nefasto do Amor-Próprio fornece uma apresentação organizada da posição do filósofo francês sobre esse tema que é relevante tanto para a reflexão teórica como para a vida cotidiana. Sua síntese possui o mérito, ainda, de evidenciar alguns lapsos, assim como os pontos pertinentes, de certos comentários tradicionais à obra de Pascal. Por exemplo, o autor demonstra o equívoco de se conceber uma hierarquia entre caridade e concupiscência antes da queda (uma vez que, para Pascal, antes da queda não há concupiscência), ou de reduzir a noção pascaliana de preguiça ao orgulho (o que o tornaria a única consequência do amor-próprio, igualando a teoria de Pascal à de Santo Agostinho, quando, na verdade, o conceito de orgulho sequer é mencionado na Lettre), ou de considerar a ideia de vazio infinito como inteiramente emprestada de Jansenius (quando ela é notavelmente original), ou de supor que com a queda o homem perde a capacidade de amar infinitamente (sendo que amar infinitamente a si mesmo é a própria definição do amor-próprio). Por outro lado, Andrei endossa a interpretação clássica que entende que, ao considerar o eu (moi) inencontrável e uma ideia fundada pela vaidade, Pascal o dessubstancializa, daí chegando a uma crítica ao conceito de direito natural e a uma divergência com a teoria política clássica. Ao fim da investigação, evidencia-se que o amor-próprio e o vazio infinito são os conceitos-chave para compreender a peculiaridade da teoria pascaliana do pecado original; e se, quanto ao primeiro, é satisfatório entender que o estatuto conferido por Pascal a ele constitui uma contribuição original à filosofia e à teologia, quanto ao último Andrei, além de indicar a sua originalidade, nos brinda com uma reflexão sobre se mesmo de um ponto de vista estritamente filosófico o vazio pode ser considerado o principal traço da condição humana.


Curiosidades

  • Trata-se de um estudo acadêmico rigoroso – originalmente, uma tese de doutorado desenvolvida na PUC-SP e na Université de Caen Basse-Normandie (França) – sobre um tema de relevância tanto teórica como existencial. 

• O livro situa-se num ponto de intersecção entre filosofia e teologia, sendo pertinente a uma pluralidade de discussões: quer de antropologia filosófica, quer de antropologia teológica; de filosofia moral tanto quanto de teologia moral.

• Como uma obra de comentário, Do Reino Nefasto do Amor-Próprio vem fortalecer uma importante seção do catálogo da Editora Filocalia, que já traz alguns textos clássicos do moralismo francês: As Provinciais (Blaise Pascal), Discurso da Reforma do Homem Interior (Cornelius Jansenius) e Metamorfose dos Olhos de Fílis em Astros (Germain Habert).

• Este comentário a Blaise Pascal complementa, em particular, o comentário ao pensador que mais o influenciou, Cornelius Jansenius, também escrito por Andrei Venturini Martins, na forma de notas ao livro Discurso da Reforma do Homem Interior, traduzido por ele.

• O moralismo francês e o problema do mal também são temas presentes no catálogo da É Realizações – seja por meio de obras literárias, seja por meio de obras filosófico-teológicas –, o que novamente faz deste lançamento um valioso subsídio.



Sua leitura será especialmente proveitosa para


• Estudantes de filosofia, teologia ou ciências da religião.

• Professores de filosofia da religião, filosofia moderna, filosofia moral, teologia moral, antropologia teológica, antropologia filosófica, hamartiologia ou teologia sistemática.

• Pesquisadores de temas como moralismo francês, filosofia do século XVII, jansenismo, pós-cartesianismo, problema do mal, teodiceia, doutrina do pecado original, doutrina da queda.

• Leitores interessados na tradição do jansenismo (Blaise Pascal, Cornelius Jansenius), do moralismo francês (La Rochefoucauld, Voltaire, La Fontaine, Stendhal), do pessimismo filosófico (Arthur Schopenhauer, Emil Cioran) ou da doutrina teológica do pecado original (Santo Agostinho, João Calvino).

• Cristãos que apreciam a filosofia.

• Admiradores da literatura francesa.