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Eric Voegelin: biografia, livros e frases (O guia completo)

eric voegelin

Você já se perguntou por que Eric Voegelin causa tanto entusiasmo entre os leitores de filosofia política?

Neste texto você vai finalmente compreender o motivo.

A biografia, as ideias, as influências, os livros, as citações mais marcantes, o roteiro recomendado de leitura – tudo que importa saber sobre Eric Voegelin está reunido aqui.

Para conhecer sua crítica aos movimentos revolucionários, sua visão sobre o gnosticismo, sua noção de “religiões políticas”, e muito mais, é só ler este post até o fim!

Quem foi Eric Voegelin?

Eric Voegelin foi um dos pensadores mais originais do século 20 e um filósofo político de incomparável erudição.

Quem foi Eric Voegelin
Eric Voegelin foi um dos pensadores mais originais do século 20. [Foto: Divulgação]
Autor da impressionante História das Ideias Políticas, assim como de Anamnese e de Hitler e os Alemães, ele é um nome incontornável na filosofia política, na filosofia da história e na filosofia da consciência.

Notabilizou-se como um estudioso e crítico do gnosticismo em suas diversas formas, inclusive a das ideologias políticas e dos movimentos revolucionários. (Saiba mais no tópico “Contribuições de Voegelin à filosofia”.)

Alemão naturalizado americano, Eric Voegelin tem exercido influência sobre uma extensa gama de intelectuais, tanto deste continente como da Europa, e em diversas disciplinas: filosofia, ciência política, teologia, etc.

Breve biografia de Eric Voegelin

Erich Hermann Wilhelm Vögelin, natural de Colônia (Alemanha), nasceu quase ao mesmo tempo que o século 20. Foi em 3 de janeiro de 1901 que veio à luz, e aos nove anos (em 1910) mudou-se com a família para a capital da Áustria, onde cumpriu sua formação acadêmica.

eric voegelin cidade natal - colonia - alemanha
Catedral de Colônia, Alemanha – cidade natal de Eric Voegelin. [Foto: Divulgação]
Graduou-se em direito na Universidade de Viena, mesma instituição na qual doutorou-se em ciência política, orientado por Othmar Spann e Hans Kelsen. Este último é um dos mais notórios juristas da história recente, autor da Constituição Austríaca de 1920 e principal nome do positivismo – de que o próprio Voegelin se tornaria um opositor.

Na Áustria, manteve amizade com figuras como Friedrich Hayek (futuro vencedor do Nobel de Economia) e Alfred Schütz (um dos mais importantes filósofos das ciências sociais no século passado).

eric voegelin - alfred schultz
Alfred Schütz, um dos mais importantes filósofos das ciências sociais no século passado, e amigo de juventude de Eric Voegelin. [Foto: Divulgação]
Já em seus primeiros textos acadêmicos, Eric Voegelin investigou e criticou as bases intelectuais do então ascendente nazismo. Tornou-se, é claro, um inimigo do partido de Hitler, razão pela qual emigrou com sua mulher para os Estados Unidos da América.

Foi em solo americano que Voegelin desenvolveu quase toda a carreira de professor – apenas com um breve retorno à Europa, durante o qual fundou o Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Munique. Ali, também, ocupou a cátedra que pertencera, antes, a Max Weber.

eric voegelin - universidade de munique
Universidade de Munique, Alemanha – onde Eric Voegelin fundou o Instituto de Ciências Políticas. [Foto: Divulgação]
Nos EUA, o filósofo foi professor em Louisiana, Notre Dame, Harvard e Stanford (no Instituto Hoover, que hoje tem como pesquisador Thomas Sowell). Manteve uma longa correspondência com outro pensador alemão radicado na América: Leo Strauss.

Naturalizado americano, faleceu naquele país, aos 84 anos, em 19 de janeiro de 1985.

Contribuições de Eric Voegelin à filosofia

O pensamento de Eric Voegelin trouxe contribuições inestimáveis a três grandes disciplinas: a filosofia da consciência, a filosofia da história e a filosofia política. A primeira contribuição, aliás, foi o próprio fato de demonstrar que esses campos do saber estão intimamente conectados.

Refletindo sua formação em direito, nos primeiros escritos Voegelin se ocupou de problemas concretos da política contemporânea. Seu primeiro grande estudo, Raça e Estado (1933), investigava os usos ideológicos do conceito pseudocientífico de “raça” – um traço definidor do movimento que estava em ascensão na Alemanha: o nacional-socialismo.

Pouco depois, em 1936, Voegelin publicou a obra O Estado Autoritário, que expandiu a sua análise da estrutura de pensamento em que se apoiavam os nazistas. Como não é difícil inferir, esse texto e o anterior tornaram Voegelin um adversário intelectual do movimento liderado por Hitler.

eric voegelin sobre nazismo
Himmler e Hitler inspecionam soldados da SS. A perversidade da ideologia nazista foi identificada por Voegelin desde cedo. [Foto: Divulgação]
Habilidoso em mapear a genealogia de conceitos políticos, o filósofo, já instalado nos Estados Unidos, dedicou-se a uma tarefa monumental. Escreveu uma obra de milhares de páginas narrando o desenvolvimento das ideias políticas do Ocidente. O trabalho consistia em comentários minuciosos aos principais pensadores desde a Grécia antiga até o século 19.

Divididos em vários volumes, os textos só foram publicados postumamente: trata-se da História das Ideias Políticas, já quase integralmente disponível em português. Não deixe de conferi-la!

Mesmo tendo permanecido inéditos até o fim da vida de Voegelin, os livros são fundamentais para a compreensão de seu pensamento. Eles serviram de matéria-prima para toda a produção posterior do filósofo, inclusive para a coleção (também esta de enorme amplitude) Ordem e História.

A História das Ideias Políticas abarca períodos e correntes como o helenismo, a Patrística, o tomismo, a escolástica tardia, o Renascimento, a Reforma Protestante e as diversas subtradições da filosofia moderna.

eric voegelin - escola de atenas
Uma ilustração clássica do período helenístico: “Escola de Atenas”, afresco de Rafael, 1509-1510.

Comentários de Eric Voegelin tanto a pensadores antigos (por exemplo, Cícero) como a pensadores modernos (por exemplo, Hume) são até hoje considerados leitura obrigatória pelos estudiosos desses autores.

Acompanhando com atenção o desenrolar das ideias políticas, Eric Voegelin não apenas acumulou uma erudição descomunal. Ele foi também capaz de identificar padrões de pensamento nessa trajetória.

eric voegelin - universidade
Eric Voegelin em sala de aula. [Foto: Divulgação]
Desse momento de transição entre a filosofia política e a filosofia da história, resulta A Nova Ciência da Política (cuja edição brasileira encontra-se há anos esgotada). Ali, com o auxílio da visão panorâmica proporcionada pela História das Ideias Políticas, Voegelin aprofunda uma intuição que já havia sido apresentada durante seu período em Viena. Vejamos:

Após O Estado Autoritário, Eric Voegelin publicou (em 1938) As Religiões Políticas. Para o autor estava claro que fenômenos de massa como o nacional-socialismo – por ele já investigado desde Raça e Estado – extraíam parte da sua força de certa devoção religiosa que os seguidores lhe dedicavam.

O problema é que esse era o caso não apenas do nazismo, mas também do comunismo e de toda ideologia que supõe ser capaz de explicar tanto a origem do mal na sociedade como a solução (política) para ele.

eric voegelin critico do nacional socialismo
Parada de nazistas organizada em Viena, na Áustria, depois que o país foi anexado pela Alemanha. Eric Voegelin foi um notório crítico do nacional-socialismo. [Foto: Divulgação]
Como Voegelin viria a notar, “religião política” é uma categoria que se aplica a tantas doutrinas que ela perde a capacidade de indicar um fenômeno preciso. Mas em A Nova Ciência da Política foi possível descrever esses desvios ideológicos com maior exatidão.

O que Eric Voegelin constata é que as ideologias que pretendem subverter a ordem social estão para a política moderna como o gnosticismo estava para o cristianismo primitivo.

As antigas seitas gnósticas caracterizavam-se por afirmar que o mundo é intrinsecamente mau e que, habitando nele, o ser humano só pode superar sua lamentável condição pelo conhecimento adquirido através de uma iluminação do intelecto.

Os gnósticos consideravam ruim o que o cristianismo dizia ser criação de Deus, e atribuíam à capacidade racional a solução de problemas que o cristianismo (apesar de os reconhecer) afirmava serem superados apenas em um plano divino, exterior à história.

eric voegelin - irinei - gnostico
Irineu, quem usou pela primeira vez o termo “gnóstico” para descrever certo tipo de heresia.

Igualmente, as ideologias modernas apropriam-se da esperança que o cristianismo reserva à doutrina das últimas coisas (a escatologia) e transportam-na para o interior da história humana. Secularizam algo que é, na verdade, transcendente; ou, como Eric Voegelin denominou esse fenômeno, imanentizam o eschaton cristão.

Filosofia política, filosofia da história e filosofia da consciência completam sua unidade quando Voegelin demonstra que as utopias políticas, originadas de um mau entendimento da história, revelam, no fundo, uma distorção da existência humana.

Em obras maduras como Ciência, Política e Gnose (1959) e Anamnese – Da teoria da história e da política (1966) fica claro que a imanentização do eschaton é o caso particular de um equívoco muito mais abrangente. Este último livro pode ser consultado clicando aqui!

eric voegelin palestra
Eric Voegelin ministrando palestra. [Foto: Divulgação]
Não apenas ideologias mas todos os conceitos resultam, em alguma medida, da petrificação de algo anterior. A saber: de símbolos, que originalmente são recursos para denotar as experiências vividas no próprio curso da existência individual.

Ao contrário de precisarem ser explicadas por conceitos, as experiências é que fornecem os símbolos dos quais os conceitos são derivados. Toda experiência humana é ordenada e potencialmente ilimitada. É ao vivê-la que se acessa o seu sentido. E isto é assim porque cada experiência é, já ela própria, transcendente.

O ser humano habita, como dissera Platão, o Entremeio (ou, em grego, a metaxy). Quer dizer: vivemos em uma tensão permanente entre o divino e o terreno, o eterno e o temporal. É nesse âmbito que se constitui o nosso horizonte de consciência, e toda construção teórica que se afasta dele trai a realidade.

eric voegelin filosofia - platao
Platão (detalhe do afresco “Escola de Atenas”, de Rafael)

A filosofia é, para Voegelin, a diferenciação (ou seja, o detalhamento) do que é dado aos humanos, em estado compacto, pelo mito. A contribuição maior que o pensador pretendeu trazer à filosofia foi revitalizar alguns dos símbolos que, à medida que foram desgastados como conceitos, acabaram por se tornar opacos.

Por isso mesmo, Eric Voegelin foi um opositor ferrenho de todas as formas de dogmatismo. Segundo ele, a postura crítica é indispensável – não porque precisemos desacreditar de tudo, mas porque devemos levar em conta a tendência das teorias a esvaziar o sentido do que é comunicado pela realidade.

Em Voegelin, a postura crítica não está baseada em uma disposição cética. Ao contrário, a verdade tem por essência a confiança no que a realidade apresenta; o verdadeiro conhecimento deriva da fé. Em vista disso, não podemos trair a relação de transparência que, como “homens espirituais”, originalmente assumimos com o mundo.

eric voegelin escotose
Eric Voegelin: todo legítimo conhecimento resulta de um ato de confiança. [Foto: Divulgação]
Exemplos de traição desse compromisso são as ideologias políticas, que criam uma “segunda realidade”, alienada da experiência humana real. Contra esse risco, Eric Voegelin defende o “princípio antropológico”, segundo o qual a sociedade é uma extensão da alma individual.

Para evitar a escotose (ou “fuga da realidade”), é preciso insistir na zetema (ou “existência na verdade”) – seja no nível da consciência, seja no nível da política. Pois, como a história tem demonstrado, todas as tentativas de separar os dois níveis terminam em equívocos intelectuais e em desastres concretos.

Mais sobre o pensamento de Eric Voegelin pode ser conferido assistindo às palestras do professor português Mendo Castro Henriques, proferidas no espaço cultural da É Realizações:

Principais influências de Eric Voegelin

As influências que Eric Voegelin recebeu são ricas e, correspondentemente, a influência que sua obra tem exercido é ampla.

Sua compreensão da natureza e dos métodos das ciências sociais foi bastante marcada por Alfred Schütz, de quem foi amigo durante a juventude em Viena. Outra influência é Max Weber, que serviu de precursor a todos os estudiosos alemães contemporâneos de Eric Voegelin.

Como vimos, o filósofo ocupou a cátedra que pertencera a Weber na Universidade de Munique.

eric voegelin - max weber
Max Weber é considerado um dos fundadores da sociologia. Voegelin, como todos os estudiosos das ciências sociais, foi influenciado pelas obras desse pioneiro.

Sua minuciosa pesquisa sobre o movimento gnóstico encontrou motivação nos estudos feitos pouco antes, sobre o mesmo tema, por Hans Jonas. Já a compreensão voegeliniana sobre o cristianismo, de modo geral, é marcada pela leitura dos teólogos Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar.

O conceito de “segunda realidade” é tomado por empréstimo do escritor austríaco Robert Musil. A ênfase na experiência existencial como um âmbito essencialmente ligado à recepção da verdade ressoa, em parte, o apreço de Voegelin por seu conterrâneo Karl Jaspers.

A noção de que a história humana é uma história de experiências simbólicas, ao invés de uma história das ideias, deve-se, parcialmente, à leitura de Schelling.

eric voegelin - tradicao idealista - friedrich wilhelm
Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling, filósofo alemão e um dos principais representantes da tradição idealista.

Essa crítica ao racionalismo moderno leva José Guilherme Merquior, no livro Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin, a aproximar (elogiosamente) o projeto filosófico de Voegelin ao de filósofos como Martin Heidegger.

Mais que tudo, entretanto, é decisiva a influência que Eric Voegelin recebe dos ideais expostos pelos luminares da filosofia antiga, Platão e Aristóteles.

Os estudiosos que já tomaram Eric Voegelin como referência, para os mais variados temas, são diversos:

O filósofo Leo Strauss, o teólogo Wolfhart Pannenberg, o sociólogo Robert Bellah, o antropólogo Bruno Latour, o jornalista William F. Buckley Jr., entre muitos outros.

No Brasil, Voegelin foi estudado por intelectuais como Mário Vieira de Mello e João Camilo de Oliveira Torres. Atualmente, é uma referência importante para críticos culturais como Martim Vasques da Cunha (autor das notas explicativas da edição brasileira de Reflexões Autobiográficas) e jovens analistas políticos como André Assi Barreto.

Principais livros de Eric Voegelin

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Eric Voegelin é autor de diversas obras fundamentais. [Foto: Divulgação]
Alguns dos livros indispensáveis para os interessados em Eric Voegelin, e disponíveis em português, são:

Reflexões Autobiográficas, em que o filósofo reconstrói, no decorrer de uma longa entrevista, os momentos decisivos da evolução de seu pensamento.

eric voegelin - reflexoes autobiograficas
Capa do livro Reflexões Autobiográficas. [Foto: É Realizações]
Voegelin fala sobre suas amizades em Viena; sua educação escolar; as influências de Weber, Schütz, Stefan George e Karl Kraus; sua discordância com o positivismo; detalhes da imigração para os Estados Unidos; as passagens por Oxford, França, Louisiana e Harvard; sua experiência como professor e diversos outros temas.

A edição brasileira traz notas explicativas de Martim Vasques da Cunha.

Hitler e os Alemães. A obra apresenta o diagnóstico voegeliniano sobre a relação das igrejas, das universidades e do sistema jurídico com o Estado nazista.

O autor escancara a falta de sentido de conceitos desgastados como “culpa coletiva”, “passado indomado” e, até mesmo, “Estado” e “democracia”. Ele os contrapõe à clareza da denúncia filosófica (e bíblica) da estupidez e às sátiras mordazes de artistas como Karl Kraus e Robert Musil. Também critica algumas biografias de Hitler que romantizavam a sua figura.

Por meio de uma releitura de Weber, Voegelin conclui com sugestões para uma restauração da ordem. O escrito é resultado de palestras que o filósofo proferiu em 1964 na Universidade de Munique.

Anamnese – Da teoria da história e da política, que é o livro no qual Voegelin aplica à política (e a seu próprio pensamento) a descoberta de que consciência e história não se podem separar. Anamnese é, de uma vez, a recuperação dos símbolos de que conceitos políticos hoje desgastados derivaram e a rememoração de experiências pessoais vividas por Eric Voegelin.

Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo (História das Ideias Políticas, vol. 1), escrito que inaugura a maior coleção de Voegelin, expõe o processo de “desintegração espiritual” dos antigos gregos. Também descreve o papel desempenhado pela cultura hebraica no interior do movimento de helenização do mundo.

Idade Média até Tomás de Aquino (História das Ideias Políticas, vol. 2) – obra que contempla assuntos como as invasões germânicas e a queda de Roma, o surgimento da cristandade monástica e imperial, e assim por diante.

Entre os pensadores estudados neste volume estão João de Salisbúria, Joaquim de Fiore, São Francisco de Assis e Santo Tomás de Aquino.

Idade Média Tardia (História das Ideias Políticas, vol. 3): o terceiro volume da coleção demonstra haver certas raízes medievais para o mundo moderno. Além de representar o modo de organização social daquele período, Voegelin descreve o imaginário de Dante Alighieri e analisa a obra de importantes pensadores.

Desses que são comentados pelo autor constam Marsílio de Pádua e Guilherme de Ockham. Você não pode deixar de ler!

Renascença e Reforma (História das Ideias Políticas, vol. 4) – texto que investiga os antecedentes e a consumação do colapso da unidade cristã. Comentários aprofundados a Maquiavel, Erasmo, More, Lutero e Calvino tornam esta obra uma pérola da historiografia intelectual recente.

eric voegelin - historia das ideias politicas volume 4
Capa do livro Renascença e Reforma – História das Ideias Políticas, volume 4. [Foto: É Realizações]
Religião e a Ascensão da Modernidade (História das Ideias Políticas, vol. 5), em que Eric Voegelin dá sequência à análise da “grande confusão” exposta em Renascença e Reforma. Particularmente, o autor explora a relação entre o novo modelo de religiosidade cristã e a nova visão do universo, sugerida pela ciência pós-aristotélica do período.

É, de fato, imperdível: acesse o link e garanta o seu exemplar!

Revolução e a Nova Ciência (História das Ideias Políticas, vol. 6), que é um texto no qual Eric Voegelin torna explícitas opções metodológicas não esclarecidas nos volumes anteriores.

Para aprofundar a investigação sobre a influência mútua da ciência moderna e do novo ideal de raciocínio, o filósofo vai além da terminologia tradicional. Ao mesmo tempo que reconhece a validade de palavras como “Iluminismo” e “Revolução”, ele propõe um novo termo para denotar a ruptura ocorrida nessa era: nomeadamente, uma “consciência de época”.

A Nova Ordem e a Última Orientação (História das Ideias Políticas, vol. 7). Título que apresenta as figuras-chaves do primeiro ciclo do pensamento político moderno – “a nova ordem” – e aquelas que determinaram “a última orientação” dos debates filosóficos do Ocidente (precedendo “a crise” contemporânea, que será o tema do oitavo volume).

A situação britânica no período da Revolução Inglesa; a originalidade de Maquiavel, Bodin e Hobbes; o misticismo de Espinosa e Nietzsche; a condição espiritual da qual deriva a obra de Locke; a redescoberta por Schelling da primazia da existência sobre a organização política; a ênfase de Pascal na finitude do homem: aqui estão alguns dos temas desse livro esclarecedor.

Adquira o mais recente volume em português da História das Ideias Políticas!

Fé e Filosofia Política: a obra reúne mais de 50 cartas inéditas, trocadas entre Eric Voegelin e Leo Strauss. Em acréscimo, traz dois textos de cada um dos filósofos: no caso de Voegelin, “Evangelho e cultura” (talvez seu artigo mais importante) e “Imortalidade: experiência e símbolo”.

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Capa do livro Fé e Filosofia Política [Foto: É Realizações]
Na correspondência, os dois autores compartilham impressões de leitura, trocam recomendações bibliográficas, fazem considerações mútuas sobre seus escritos. O que é mais instigante: debatem suas visões a respeito de pensadores célebres, como Hobbes, Locke, Espinosa, Hegel, Marx, Husserl, Weber e Popper.

Frases ilustrativas

eric voegelin - principais frases
Eric Voegelin era hábil em formular suas ideias com uma linguagem clara e elegante. [Foto: Divulgação]
A seguir você encontra algumas citações de Eric Voegelin que lhe proporcionarão um vislumbre da profundidade (e, ao mesmo tempo, simplicidade!) desse grande pensador:

Deus e o homem, tal como o mundo e a sociedade, formam uma comunidade primordial do ser. A comunidade, com sua estrutura quaternária, é e não é um dado da experiência humana. Ela o é na medida em que é conhecida pelo homem em virtude da participação deste no mistério de seu ser. Não o é na medida em que não é dada à maneira de um objeto do mundo externo, sendo conhecida somente da perspectiva da participação nele.

A perspectiva da participação deve ser compreendida na plenitude de sua qualidade perturbadora. Isso não significa que o homem, localizado de maneira mais ou menos confortável na paisagem do ser, possa olhar ao seu redor e inventariar aquilo que vê tanto quanto consegue. Tal metáfora, ou variações comparáveis do tema das limitações do conhecimento humano, destruiria o caráter paradoxal da situação. Ela sugeriria um espectador autossuficiente, em posse do – e com – conhecimento de suas faculdades, ao centro de um horizonte do ser, muito embora o horizonte fosse restrito. O homem, contudo, não é um espectador autossuficiente. Ele é um ator que interpreta um papel na peça do ser e que, em virtude da realidade mesma de sua existência, compromete-se a fazê-lo sem saber que papel é. […] A participação no ser […] não é um envolvimento parcial do homem; este se engaja com toda a sua existência, uma vez que a participação é a existência em si. Não há uma posição privilegiada fora da existência a partir da qual seu significado pode ser visto, e determinada ação, traçada de acordo com um plano; do mesmo modo, não existe uma ilha afortunada em que o homem pode se refugiar a fim de recapturar seu eu. O papel da existência deve ser interpretado na incerteza de seu significado, tal qual uma aventura da decisão na fronteira da liberdade e da necessidade.

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A valorização da experiência humana real, sem dogmatismos ou distorções ideológicas, é um traço marcante na atitude intelectual de Eric Voegelin. [Foto: Divulgação]

A verdade não é um corpo de proposições referentes a um objeto imanente ao mundo; trata-se de um summum bonum transcendente que é experimentado como força norteadora na alma e do qual só conseguimos falar por meio de símbolos analógicos. A realidade transcendente não pode ser objeto da cognição do mesmo modo como o é um dado imanente ao mundo. Afinal, ela não tem em comum com o homem a finitude e a temporalidade da existência imanente. Ela é eterna, exterior ao tempo; não tem a mesma duração da alma que a experimenta. Quando, por meio de experiências de tipo socrático-platônico, a eternidade adentra o tempo, podemos dizer que a ‘Verdade’ se torna ‘história’. […] Com ‘historicidade da Verdade’, queremos dizer que aquela realidade transcendental, precisamente por não ser um objeto do conhecimento imanente ao mundo, possui um histórico de experiência e simbolização.

A filosofia é o amor ao ser por meio do amor do Ser divino enquanto fonte de sua ordem.

Dicas de leitura

Pode ser um bom itinerário de leitura, para os que querem ser introduzidos ao pensamento de Eric Voegelin, o seguinte roteiro:

  1. Reflexões Autobiográficas, que, por ser acessível e da autoria de Voegelin, é sempre considerado a melhor porta de entrada à sua obra.
  2. Filosofia Política em Eric Voegelin – Dos megalitos à era espacial, curso do professor português Mendo Henriques, acompanhado dos DVDs que trazem os vídeos das palestras. Confira agora!
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Capa do livro Filosofia Política em Eric Voegelin, de Mendo Castro Henriques. [Foto: É Realizações]
  1. Filósofos da Consciência – Polanyi, Lonergan, Voegelin, Ricoeur, Girard, Kierkegaard: título de um amigo e colaborador de Voegelin (Eugene Webb), que traça paralelos entre sua obra e a dos outros filósofos mencionados no subtítulo – principalmente Lonergan e Ricoeur.
  2. A Revolução Voegeliniana – Uma introdução biográfica. Obra de Ellis Sandoz, diretor do Eric Voegelin Institute for American Renaissance Studies. O livro tem dois grandes méritos. O primeiro: demonstrar a aptidão do pensamento de Voegelin a superar paradigmas. O segundo: fazer isso com atenção à biografia do filósofo, como ele mesmo recomendaria.

Não deixe de ler!

  1. Eric Voegelin – A restauração da ordem, no qual Michael P. Federici, por um lado, organiza o extenso repertório de conceitos voegelinianos e, por outro lado, torna evidente que o fio condutor da produção de Voegelin é a intenção de recuperar a ordem própria à existência humana.
  2. Revolta contra a Modernidade – Leo Strauss, Eric Voegelin e a busca de uma ordem pós-liberal, de Ted McAllister – um refinado estudo acadêmico acerca da influência dos escritos de Eric Voegelin e Leo Strauss sobre o pensamento conservador americano. Imperdível!
  3. Fé e Filosofia Política, obra que reúne as cartas trocadas por Voegelin e Strauss e apresenta dois dos mais importantes textos escritos por cada um deles.
  4. Hitler e os Alemães, título em que é possível observar a aplicação das ideias de Eric Voegelin a respeito da história, da política e da consciência a um problema concreto. Mais especificamente, trata-se de uma reflexão, posterior à Segunda Guerra Mundial, sobre os motivos intelectuais, morais e espirituais da trágica ascensão do nazismo na Alemanha.
livro hitler e os alemaes - eric voegelin
Já existe mais de uma dezena de livros de ou sobre Eric Voegelin disponíveis em português. [Foto: Divulgação]
  1. A Filosofia Civil de Eric Voegelin – tese de doutorado do professor Mendo Castro Henriques, na qual ele investiga, com base no pensamento voegeliniano, como se articulam as duas funções das ideias políticas. Isto é, a de fornecerem fundamento a instituições, regimes e indivíduos e a de serem construções intelectuais com valor para a discussão teórica.

Adquira o seu exemplar!

  1. Coleção História das Ideias Políticas. Uma série de escritos de Eric Voegelin publicados postumamente, cujas análises abrangem desde a Antiguidade até o período moderno. Apesar de mantidos inéditos pelo filósofo, os volumes serviram de matéria-prima a uma enorme parte da sua produção posterior.
  2. Anamnese: livro em que o método e as ideias de Eric Voegelin se encontram. Ou seja, em que tanto a política como a sua vida são avaliadas pelo filósofo com o fim de recuperar a ordem própria à existência humana.

Conclusão

Como este post demonstra, não é à toa que Eric Voegelin tem despertado tanto interesse entre os estudiosos de filosofia e política.

Sua erudição e originalidade são possivelmente sem paralelo na filosofia política do século 20. A monumental coleção História das Ideias Políticas, somada a escritos posteriores como Anamnese, Hitler e os Alemães e Reflexões Autobiográficas, trazem contribuições valiosíssimas para as filosofias política, da história e da consciência.

eric voegelin - e realizacoes
Não deixe de conhecer os livros de Eric Voegelin!

O mais surpreendente é que isso é feito com uma incomum simplicidade de linguagem e sem jamais perder a pertinência para os problemas concretos da vida moderna.

A grande lição que Eric Voegelin nos deixa é que habitamos uma tensão permanente entre o eterno e o temporal – e que não podemos deixar dogmatismos ou ideologias prejudicarem a transparência do que experimentamos nesse estado.

Para resgatar o valor da realidade contra suas deturpações políticas e teóricas, é urgente ler as obras de Eric Voegelin. Não perca mais tempo: conheça já os livros desse gigante!

Fontes

– Eric Voegelin, Reflexões Autobiográficas. São Paulo, É Realizações Editora, 2008

– Mendo Castro Henriques, Filosofia Política em Eric Voegelin – Dos megalitos à era espacial. São Paulo, É Realizações Editora, 2009.

4 Comentários

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  1. Ola! Obrigado por compartilhar! Eu aprecio o esforço colocado neste site e vou visitar aqui mais vezes.

  2. Olá, muito boa análise.
    Vocês tem alguma análise sobre as obras do Erick Voegelin no que se concern a ORDEM E HISTÓRIA ?

  3. Parabéns pela excelente síntese e explanação da obra deste fenômeno da filosofia moderna. Cheguei a este autor através de Flávio Morgenstern e sua página trouxe tudo que precisamos pra iniciar na obra de Eric Voegelin. Muito obrigado!

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